Religião e nação nos EUA

O desencadeamento da campanha para as próximas eleições presidenciais estadunidenses recoloca em cena um dos mais fascinantes aspectos da cultura política daquele país: seu profundo enraizamento na cosmologia cristã, sobretudo em suas versões protestantes.

O fenômeno já fora detectado e descrito no século 19, na obra magistral do publicista francês Alexis de Tocqueville, tendo sido retomado nas análises clássicas do sociólogo alemão Max Weber e de muitos outros observadores da nação norte-americana.

O sociólogo estadunidense Robert Bellah explorou inclusive a noção de ‘religião civil’, antes cunhada pelo filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, para descrever dimensões da vida pública de seu país que, embora não se atenham a qualquer denominação religiosa específica, demonstram regularmente o vigor de uma religiosidade, de tom francamente cristão.

O modo de expressão das inquietações políticas nos EUA obedece a um centenário padrão cultural, em que retornam regularmente peças do imaginário bíblico

As condições atuais, de acirramento do fundamentalismo e do literalismo cristãos, por oposição à predominante cultura liberal-humanista e à tolerância religiosa, têm sido agravadas pela tensão internacional com os movimentos islâmicos de mesmo cunho e pela crise socioeconômica que resiste ao governo do presidente Barack Obama. Mas o modo de expressão das inquietações políticas obedece a um centenário padrão cultural, em que retornam regularmente peças do imaginário bíblico.

Como se sabe, a representação oficial dos EUA repousa fortemente na imagem dos peregrinos puritanos do Mayflower precariamente aportados na Nova Inglaterra no século 17. Era um grupo marcado pelo pertencimento religioso às seitas então perseguidas pela igreja anglicana.

Colaram-se a essa imagem originária muitas outras elaborações públicas de uma associação entre as terras livres da América do Norte e os momentos de libertação política dos antigos hebreus ou a salvação cosmológica prometida pelos profetas do Antigo Testamento e pelo Cristo. Como disse Tocqueville, na década de 1830: “Penso poder ver todo o destino da América contido no primeiro puritano a ter pisado em suas praias”.

À imagem de Adão

Uma tese de doutorado recente, defendida por Luiza L. Silva Mello no curso de pós-graduação em história social da cultura, da PUC-Rio, explorou de maneira instigante uma dimensão menos conhecida desse imaginário religioso: a da associação do homem estadunidense com o personagem de Adão.

No trabalho, a autora demonstra a presença de duas versões conflitantes desse mito no cerne de toda a melhor tradição literária estadunidense (Nathaniel Hawthorne, Henry D. Thoreau, Ralph W. Emerson, Henry James, entre outros): a associação com o Adão anterior à Queda, símbolo da inocência original garantida por Deus, ou com o Adão posterior à Queda, símbolo da redenção prometida pelo Cristo.

A predominância de uma ou outra versão colore de forma diferencial as relações históricas dos EUA com a natureza, as populações nativas, a tradição cultural europeia, a sua própria estrutura social, a configuração da personalidade individual ou com o enfrentamento da diferença além de suas fronteiras.

Outros temas fundamentais da identidade estadunidense, com implicações para seu desenvolvimento interno e para sua ação sobre todo o planeta, tais como o ‘destino manifesto’, ‘excepcionalismo americano’ ou a ‘nação de fronteira’, não deixam de ter ressonâncias do imaginário cristão, carregados como estão de um sentido de profecia, missão e salvação.

'Espírito da fronteira' (1872), pintura de John Gast
‘Espírito da fronteira’ (1872), pintura de John Gast, representa o Destino Manifesto, crença religiosa de que os Estados Unidos deveriam se expandir para o Oeste, em nome de Deus. Na obra, um espírito luminoso guia e protege os desbravadores.

O próprio ‘comunitarismo’ político, tão importante na constituição da ordem pública interna, costuma ser associado ao senso coletivo das congregações protestantes. A comunidade política estadunidense tem esse caráter muito peculiar de ser indissociável de um intenso individualismo, diferentemente de outras formas de comunidade.

Para alguns intérpretes, o individualismo estadunidense representaria uma versão muito peculiar da ideologia individualista ocidental moderna, por preservar justamente as ressonâncias religiosas originais desse valor, ancorado na representação de uma alma criada pessoalmente, com uma responsabilidade garantida pelo livre-arbítrio que lhe permite aspirar a uma salvação exclusiva (de caráter mais ou menos terreno). E realmente os EUA continuam a ser uma das nações mais intensamente religiosas do mundo, com altíssimas taxas de filiação denominacional, de frequência a rituais religiosos e de declaração de crença em Deus.

Pluralismo cristão

Uma boa parte da dinâmica religiosa da sociedade brasileira contemporânea pode ser inclusive considerada seguidora do dinamismo missionário estadunidense, de onde provieram as principais inspirações das correntes pentecostais e carismáticas hoje tão ativas em nosso país.

A condição missionária da atenção estadunidense ao mundo se revela não apenas nas ações explicitamente religiosas, de conversão e salvação extraterrena, mas também frequentemente na ação política, a serviço de tais ou quais causas de redenção terrena – para nosso bem ou nosso mal.

Notas de dólar e real
A expressão ‘Em Deus confiamos’ consta do hino nacional estadunidense, de 1814, e começou a figurar em suas moedas a partir de 1864. As notas de real também trazem mensagem religiosa.

Confirmando a análise de Bellah, que já demonstrava a ‘religião civil’ estadunidense no discurso de posse do presidente George Washington, Barack Obama não fugiu a essa importante regra cultural. Em seu discurso de posse, em janeiro de 2009, há menções às Sagradas Escrituras e a Deus, terminando com o proverbial “Que Deus abençoe os Estados Unidos da América”.

A novidade, promissora, foi a referência ao fato de a nação norte-americana ser composta por “cristãos e muçulmanos, judeus e hindus, e por gente sem religião”. Promissora sem dúvida, no confronto com o egoísmo fundamentalista, mas ainda assim “cristã”, em sua continuada referência a uma ideologia universalista da fraternidade e do amor.

Luiz Fernando Dias Duarte
Museu Nacional
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Sugestões para leitura

Bellah, Robert N. ‘Civil Religion in America’. Daedalus, vol.96, nº1, p.1-21, 1967.

Sachs, Viola et al. Brasil & EUA: religião e identidade nacional. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

Silva Mello, Luiza L. Depois da Queda: A representação da cultura nacional norte-americana na obra tardia de Henry James (1904-1907). Tese de doutorado. Departamento de História da PUC-Rio. Rio de Janeiro, 2010.

Reinhardt, Bruno. Reiterando o pacto: história, teologias políticas cristãs e a religião civil americana em uma era de multiculturalismo e império. Relig. soc. [online], vol.31, nº2, p.29-54, 2011.

Tocqueville, Alexis. A democracia na América. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/ EDUSP, 1977.

Weber, Max. As seitas protestantes e o espírito do capitalismo. In Hans Gerth e Charles Wright Mills (orgs.). Ensaios de Sociologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.

 

Matéria publicada em 03.02.2012

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