Texto e discurso

Suponhamos (não invento!) que se assiste a um jornal na tevê e o apresentador dá as últimas informações sobre o conflito entre Israel e a Faixa de Gaza. Como se ele falasse de Marte, o texto é (menciono só o essencial, o que, na verdade, se repete dia após dia): “Os soldados israelenses atacaram… e destruíram X túneis”. “Os radicais (ou extremistas) do Hamas revidaram…”.

A notícia pode ser invertida: “Os radicais atacaram e os soldados revidaram”. O que importa é que as palavras que designam cada grupo são proferidas como se fossem a simples designação indiscutível de uma coisa (assim como se chamam os túneis de ‘túneis’, digamos): soldados e extremistas. 

Falta simetria nessa fala: se, de um lado, há soldados, do outro também os há (no mínimo, são combatentes)

Acontece que falta simetria nessa fala: se, de um lado, há soldados, do outro também os há (no mínimo, são combatentes). Mas o jornal faz de conta que, de um lado, estão soldados e, do outro, radicais ou extremistas. 

Alguém poderia propor uma fala neutra, que os nomearia simetricamente: de um lado, Israel; de outro, a Faixa de Gaza. De um lado, o exército; do outro, também. Ou, de um lado, radicais; e do outro, também. Por que, afinal, o que é um radical

Acontece que isso não se dá nos discursos reais. Os dicionários podem dar a definição que lhes aprouver, podem ser até heterogêneos e contemplar diversas definições. Mas, num jornal, radical é sempre o outro. 

Função textual da linguagem

Eventualmente, palavras entram numa sequência de frases para fazer um texto, como nesta notícia antiga:

“Acaba de chegar ao Brasil um medicamento contra a rinite. O antiinflamatório em spray (…) diminui sintomas como nariz tampado e coriza. Diferente de outros medicamentos, é aplicado uma vez por dia, e em doses pequenas. Estudos realizados pela (…), laboratório responsável pelo remédio, mostram que ele não apresenta efeitos colaterais, comuns em outros medicamentos, como o sangramento nasal. ‘O produto é indicado para adultos e crianças maiores de 12 anos, mas estuda-se a possibilidade de ele ser usado em crianças pequenas’, diz o alergista (…), de S. Paulo”.  

Os termos ‘medicamento’, ‘antiinflamatório’, ‘remédio’ e ‘produto’ são espécies de sinônimos. ‘O antiinflamatório’, na segunda frase, retoma ‘um medicamento’, da primeira. É um exemplo de coesão, cuja matéria-prima é um nome precedido de artigo definido.

A ideologia comparece inevitavelmente nos textos e, concedamos, às vezes nem o autor se dá conta disso

Esse tipo de procedimento serve para fazer textos (é a função textual da linguagem, segundo o linguista britânico Michael Halliday). O que quer dizer que existem palavras cuja função básica é organizar sequências para criar uma unidade de sentido, o texto. 

Acontece que não se trata apenas de texto, de uma questão ‘cognitiva’ ou de domínio dos gêneros. A ideologia comparece inevitavelmente nos textos e, concedamos, às vezes nem o autor se dá conta disso. Sua ideologia é tão decisiva que ele pode pensar que está falando do mundo tal como ele é. Não se dá conta de que o mundo dele não é o de todos.

No caso, embora as quatro palavras mencionadas não sejam sinônimas (na verdade, a relação entre elas é de categorias mais amplas com categorias menos amplas ou o inverso (medicamento é um tipo de produto etc.). Aceitemos que, em casos assim, não se revela uma ideologia explícita. 

No entanto, se alguém escrever (ou disser): “O Hamas… Este grupo extremista / radical / terrorista”, a ideologia está exposta à luz do dia.
 

Guerra de palavras

A propósito do conflito, que ainda não acabou (aliás, uma amiga perguntou: “É um conflito ou uma guerra?”, distinção relevante, porque há ‘crimes de guerra’, definidos em tratados internacionais, mas não ‘crimes de conflito’ com estatuto similar), as discussões que a mídia veiculou são interessantes. Ao lado da terrível guerra (vou chamar assim), que matou muita gente, houve uma guerra de palavras, ora mais, ora menos declarada. 

O exemplo do começo da coluna parece guerra de guerrilha: a pessoa faz de conta que não quer nada com nada, apenas quer contar os fatos, mas os conta de forma tal que ‘mata gente’ de um lado e não do outro.

Palavras no muro
Algumas palavras têm a função de organizar sequências para criar uma unidade de sentido, o texto. Mas a ideologia está inevitavelmente presente nele, e seu autor às vezes não se dá conta disso. (foto: Flickr/ Marta Vieira Pereira – CC BY-NC-ND 2.0)

Mas houve também guerras explícitas, como, por exemplo, entre quem defendeu que ‘antissionismo’ e ‘antissemitismo’ são a mesma coisa e quem discordou dessa equivalência (explicando simplificadamente: para alguns, combater a atual política de Estado de Israel implica antissemitismo, uma atitude de tipo racista; para outros, significa apenas combater a atual política de Estado de Israel, que pode mudar etc.).

Em outros momentos, e a propósito de temas completamente diferentes, a mesma guerra de palavras já deu as caras. Uma pessoa escreve um texto ‘pensando’ apenas em referir-se a coisas, conceitos ou pessoas, mas outros veem na escolha das palavras uma opção ideológica.

Há não muito tempo, um colunista escreveu sobre ‘homossexualismo’ e recebeu críticas, porque esse termo implicaria preconceito; o termo correto deveria ser ‘homossexualidade’. 

De novo: pode parecer apenas uma guerra de palavras, e, às vezes, é mesmo. Mas isso não significa que seja uma guerra menos mortal, ou grave, ou agressiva. Quem diz que se trata apenas de questão semântica não tem ideia do que isso significa.  

Sírio Possenti
Departamento de Linguística
Universidade Estadual de Campinas

Matéria publicada em 22.08.2014

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