Um mundo em extinção

Atrasei a coluna deste mês porque estava em trabalho de campo na planície costeira do Amapá. Foi emocionante retornar a Tartarugalzinho, sede do município de mesmo nome, localizado a cerca de 250 km de Macapá, em direção a Oiapoque. Em 1996 e 1997, pude fazer ali, em colaboração com Anne Helene Fostier (hoje no Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas) e outros colegas, um dos trabalhos de que mais gostei. Na época – assim como ainda hoje –, corria solta a discussão sobre o destino que o mercúrio emitido pelos garimpos da Amazônia teria no ambiente local.

Por ser líquido à temperatura ambiente e capaz de dissolver outros metais, formando amálgamas (não deixe a aliança cair no mercúrio metálico, ou vai ter problemas quando chegar em casa!), o mercúrio é vastamente utilizado na extração artesanal de ouro, em amálgamas dentários, lâmpadas fluorescentes, boias de caixa d’água – em que uma gota de mercúrio se desloca à medida que o nível da água sobe, cortando providencialmente o contato elétrico da bomba d’água – e muitas outras aplicações. Inclusive lúdicas, como quebrar um termômetro “sem querer” só para poder brincar com as bolinhas brilhantes que se juntam, se separam, se juntam… (Pode confessar, se você não fez, já teve vontade de fazer.)

Portanto, o mercúrio está em quase todas as bocas e sobre quase todas as cabeças.

Na época da corrida do ouro da década de 1980, estima-se que cerca de 100 toneladas de mercúrio tenham sido lançadas no ambiente anualmente

Nos garimpos, o mercúrio é emitido na forma metálica e deposita-se em solos e sedimentos, além de ser liberado na atmosfera no momento em que os amálgamas ouro-mercúrio são aquecidos para volatilizar o mercúrio e recuperar o ouro. Na época da corrida do ouro da década de 1980, estima-se que cerca de 100 toneladas de mercúrio tenham sido lançadas no ambiente anualmente, para a produção de quantidade equivalente de ouro.

Esse quadro, logicamente, motivou muitos estudos que mediram mercúrio em solos, sedimentos, peixes e amostras humanas como sangue, urina e cabelo. Foram encontrados níveis expressivos desse elemento em todas as amostras estudadas, mas nos solos e sedimentos essa quantidade elevada se restringia às áreas próximas aos garimpos. Os estudos concluíram que a presença de mercúrio devia-se às atividades dos garimpos, o que parecia lógico, levando em conta as grandes emissões estimadas.

Mas, para complicar, os níveis em peixes não apresentavam o padrão esperado, que seria decrescente conforme a distância do garimpo. Pior ainda: bacias não afetadas pelo garimpo, como a do rio Negro, eram as que apresentavam os peixes com mais mercúrio. E em todo lado, uma mesma constatação: em humanos, os níveis de mercúrio eram diretamente relacionados ao consumo de peixe, em particular peixes que se alimentam de outros peixes. Uma pena. São todos deliciosos…

Fontes de mercúrio

Isso levou alguns cientistas, como Luiz Drude de Lacerda (hoje na Universidade Federal do Ceará) e Marcelo Veiga, a pensar em outras fontes de mercúrio, como a queima de biomassa. Mais tarde, considerou-se a perda do mercúrio natural do solo devido à erosão decorrente da agricultura e pecuária, como demonstrado por Marc Roulet (do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento, na Bolívia) e colaboradores na bacia do rio Tapajós.

Todos os envolvidos nessas pesquisas sonhavam com uma forma segura de diferenciar o mercúrio natural, já presente no ambiente, daquele utilizado nos garimpos, também natural, mas importado da Espanha, Iugoslávia, Rússia, entre outros países. Afinal, há bastante ouro e outros metais no Brasil, mas minas de mercúrio, não há.

Um minério de mercúrio da Iugoslávia pode ter uma assinatura isotópica facilmente distinguível daquele de um solo amazônico

E que forma segura poderia ser essa? Afinal, mercúrio é mercúrio aqui ou na China. Mas, a exemplo do carbono, que tem isótopos naturais não radioativos como o carbono 12, mais abundante, e o carbono 13, bem mais raro, o mercúrio tem diversos isótopos naturais, como mercúrio 199, 200, 201. A diferença entre eles está no número de nêutrons e, portanto, na massa, mas todos se comportam quimicamente da mesma forma. Todos? Não. Os mais pesados são irredutíveis e, na corrida com os isótopos (um pouco) mais leves, chegam sempre um pouco atrasados.

Isso significa, por exemplo, que os isótopos mais leves do mercúrio tenderão a volatilizar antes que os outros no momento da queima do amálgama pelo garimpeiro. Assim, as proporções entre os isótopos vão se alterando à medida que eles circulam pelo ambiente.

Portanto, um minério de mercúrio da Iugoslávia pode ter uma assinatura isotópica facilmente distinguível daquele de um solo amazônico. Bingo! Genial! Só faltava o “facilmente” ser verdade. E, em 1997, não era nem um pouquinho. Limitações analíticas ainda impediam separar isótopos que diferiam na sua massa em apenas 0,5%.

Mercúrio líquido
Mercúrio em sua forma líquida (foto: Wikimedia Commons/ CC BY NC 3.0).

A polêmica sobre a origem do mercúrio continuou. E continuamos sonhando com o superespectrômetro de massas, disfarçado de príncipe encantado, que viria nos tirar do constrangedor atoleiro.

Retorno ao Amapá

Mas, voltando ao Amapá, por que a região do Tartarugalzinho era tão atraente para um estudo sobre mercúrio no ambiente em 1996 e 1997? Porque havia ali desde 1984 um garimpo bastante ativo, localizado às margens do rio Tartarugalzinho, que é afluente do rio Tartarugal Grande, que por sua vez flui para o lago Duas Bocas e dali para o lago Novo e muitos outros até chegar ao oceano.

Portanto, há uma suposta fonte pontual e quase fixa, de histórico bem conhecido, rio acima em um sistema lagunar piscoso. Melhor ainda, poucos quilômetros ao norte, havia ainda o lago Pracuúba, irmão quase gêmeo do Duas Bocas, mas situado em outra bacia e virgem de garimpos. Coisa de livro, sô, um achado!

Encontramos mais mercúrio no lago Duas Bocas que no Pracuúba, o dobro, para ser mais exato. Arrááá! É o dedo do garimpo!

E o que achamos lá? Mais mercúrio no Duas Bocas que no Pracuúba, o dobro, para ser mais exato. Arrááá! É o dedo do garimpo! Só havia um probleminha: os níveis de mercúrio nos sedimentos do Duas Bocas, que como todo sedimento que se preza, contam a história da bacia de drenagem, eram compatíveis com os dos solos locais, em particular os dos horizontes preferencialmente explorados pelo garimpo. Ai, ai, voltamos à estaca zero.

Publicamos o trabalho, mandamos relatórios para as autoridades locais e fomos cuidar de outros assuntos. O que sobrou das amostras de peixe se perdeu há tempos em panes elétricas dos freezers, mas os cabelos e sedimentos são eternos e foram conservados, à espera de dias melhores.

Já as planilhas com os dados brutos de análises químicas não tiveram a mesma sorte, vítimas de sucessivas trocas de disco rígido e obsolescência dos disquetes onde dormiam. Por ironia, sobraram apenas os poucos dados que foram impressos: o high-tech não vive sem o low-tech.

A chegada do príncipe encantado

Mas, felizmente, o príncipe encantado chegou: de alguns anos para cá, surgiram novas gerações de detectores que conseguem identificar sutis diferenças de assinatura isotópica, desde que a seus ainda poucos operadores, a quem tal graça se consente, seja dado lê-las.

O mercúrio introduzido pelo garimpo é diferente daquele preexistente no ambiente local

E uma oportuna colaboração com Rebecca Adler, da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, e Bridget Bergquist, da Universidade de Toronto, no Canadá, permitiu analisar as minguadas amostras restantes do estudo de 13 anos atrás. Os resultados foram muito eloquentes: o mercúrio introduzido pelo garimpo é diferente daquele preexistente no ambiente local e não se desloca mais que um ou dois quilômetros rio abaixo dos garimpos.

O motivo desse retorno à área de estudo, desta vez com Rebecca Adler, foi realizar uma amostragem mais intensiva, focada em sedimentos e peixes, para avaliar tanto a evolução dos níveis de mercúrio em relação a 1997, como as atuais assinaturas isotópicas do mercúrio nessas amostras, ao longo da bacia do Tartarugalzinho.

Como não existem príncipes encantados, os resultados só irão colocar mais lenha fresca na mesma fogueira, e quem sabe deslocar a fogueira um tiquinho para lá ou para cá, o que ainda é mais divertido do que a felicidade eterna ao lado de um príncipe chato pra caramba.

Fim do conto de fadas

O que foi bem menos divertido foi testemunhar a nítida transformação do ambiente nestes 13 anos. O lago Duas Bocas, que na seca tinha profundidade de até 3 ou 4 metros, hoje tem menos da metade. Há extensos bancos de areia no rio Tartarugalzinho que não existiam em 1997.

A atividade garimpeira praticamente cessou a partir de 1991 e as suas cavas se tornaram lagos sem comunicação com o rio. Portanto, é difícil atribuir esse cenário à erosão pelo garimpo. E rio acima, onde havia matas, e em trechos mais lentos do rio, onde existia abundante sedimento fino, hoje coletamos só areia e algumas folhas. Tudo sugere o efeito da erosão rio acima, resultante da colonização humana em suas diversas formas.

E a redução da profundidade do lago, é dedo do homem? Se é… As planícies de inundação ao redor dos lagos se prestam naturalmente à pecuária, em particular a bubalina, devido à aptidão dos búfalos para viver em áreas alagadas.

Búfalos
A transformação ocorrida em Tartarugalzinho (Amapá) nos últimos 13 anos resulta da colonização humana, que está associada, entre outras ações, à modificação do ambiente para a pecuária, em especial a de búfalos, que têm grande aptidão para viver em áreas alagadas (foto: Flickr.com/ CC BY NC 2.0).

Na época mais seca do ano, os lagos se contraem, formando apetitosas pastagens em suas margens, e depois se expandem, quando as águas da enchente trazem sedimentos frescos e nutritivos que se depositam e fertilizam de forma natural o solo alagado. Funciona que é uma beleza.

Mas parece difícil resistir à tentação de expandir a área de pastos alargando o canal de saída da água do lago. Também funciona que é uma beleza, mas é um belo exemplo de conflito silencioso pelo uso dos recursos naturais: favorece alguns atores sociais em detrimento de outros, neste caso, os pescadores. A sustentabilidade de sua atividade é ameaçada por essa prática.

Tive a sensação de testemunhar um mundo em extinção, de tranquilidade, bom humor, hospitalidade, entre outras virtudes

Parece replay do que vi no Tapajós, onde os colonos que possuem algum gado ateiam fogo aos igapós na época da seca para formação de pastagens, o que acaba reduzindo a população de peixes nos lagos. Ironicamente, alguns desses colonos são também pescadores.

Tive a sensação de testemunhar um mundo em extinção, de tranquilidade, bom humor, hospitalidade, entre outras virtudes. Espero estar errado, afinal é difícil socializar com os búfalos, e os peixes da região são fina iguaria. É raro privilégio poder, ainda hoje, alimentar-se de peixes selvagens e saudáveis.

Tomara que dure.

Nota: Somos eternamente gratos pelo apoio entusiasta e competentíssimo da Prefeitura de Tartarugalzinho, de sua Secretaria de Meio Ambiente e particularmente da Funasa local, que nos ofereceram total auxílio logístico.

Jean Remy Davée Guimarães
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Matéria publicada em 29.11.2010

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