Dna no supermercado

No supermercado, um senhor escolhe carne no açougue, o casal namora um Cabernet Sauvignon na seção de vinhos, uma senhora enche a cesta na seção de hortifrutigranjeiros. Em meio a cenas triviais como essas, três moças vestidas de branco se destacam: “Você já comeu DNA hoje?”, pergunta uma delas a uma curiosa senhora.  “Acho que não”, responde a mulher antes de um relato rápido de suas refeições no dia. O contato estava feito. E, entre legumes, frutas e verduras, a dona-de-casa podia então aprender a extrair o DNA de um morango. Essa interação entre pessoas comuns em torno de questões de genética foi possível graças ao projeto O DNA vai ao supermercado , realizado em Curitiba durante a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia. O evento resultou de uma parceria entre a organização sem fins lucrativos ‘O DNA vai à escola’ e a Universidade Paranaense (Unipar).

Saber o que é DNA – ou se o comemos – pode não influenciar o preço do morango, mas tem lá sua importância. Segundo Paula Moiana da Costa, professora do curso de Biomedicina da Unipar que coordena o projeto em Curitiba, o cidadão comum se interessa por ciência, mas considera o assunto muito distante. Segundo a professora, as pessoas ouvem falar de DNA, mas não conseguem associá-lo a uma entidade real. “A intenção do projeto é divulgar conhecimento trazendo a ciência para o dia-a-dia das pessoas; quando elas conseguem associar o DNA, por exemplo, a objetos palpáveis, deixam de considerá-lo um bicho-de-sete-cabeças.”
 
Para isso, Paula e as estudantes propuseram a extração do DNA do morango a clientes do supermercado. “O primeiro contato é difícil. Muitos pensam que é pegadinha”, disse a estudante Channã Meurer. Outros desconfiam quando se fala em extrair DNA: “O meu?”, perguntou assustada uma senhora. Mas após o choque inicial de saber que seu café da manhã esteve repleto de DNA, as pessoas ficam mais interessadas no assunto e fazem várias perguntas. “Vamos ver se o DNA é de morango mesmo ou se tem uma abóbora na jogada”, brinca uma senhora fazendo referência aos testes de paternidade, que se popularizaram por influência de novelas e outros programas de televisão.
 

Professora da Unipar amassa morangos para a extração de DNA em supermercado de Curitiba (foto: Murilo A. Pereira)

Segundo Paula, a escolha do morango para a ‘aula’ se deu pelo fato de a fruta ter quatro cópias de DNA em cada um de seus 40 cromossomos, ou seja, é mais fácil de visualizar. “Para facilitar, a gente mostra, faz associações e explica o DNA desde o início”, diz a professora. As pessoas começam o ‘estudo’ picando e triturando o morango em pequenas partes, o que leva à quebra da parede das células.

O passo seguinte é destruir quimicamente a parede celular e a membrana nuclear. O participante da brincadeira fica intrigado com a adição de detergente ao morango amassado. “O detergente reage com os lipídios dessas membranas e os isola na mistura”, explica Paula. Depois adiciona-se sal, que, em contato com a água do morango, desprende íons de carga positiva Na+. Esses íons reagem com as cargas negativas do DNA e forma um aglomerado. Para visualizá-lo, basta colocar uma porção de álcool. Uma parte das proteínas se dissolve, e a outra fica no fundo do frasco. Como o DNA é insolúvel em álcool, uma nuvem com milhões de filamentos aparece no frasco, para deleite do ‘novo cientista’.

 
É o caso da estudante Gabriela Gomes Furtado, de 11 anos, que fazia compras com a mãe e o irmão no supermercado. Gabriela adora misturar produtos de limpeza em casa para ver o que acontece. Da experiência com os morangos, ela tirou uma lição, anotando tudo passo a passo para repeti-la em casa. O irmão mais novo, João Furtado, de 5 anos, fez questão de ver o procedimento mais uma vez. “Vou levar [a amostra do DNA] pra mostrar pros meus amigos”, disse. O olhar vivo e interessado do garoto é uma prova da importância da divulgação científica para as pessoas.
A mesma reação dos Furtado teve a família da representante comercial Léo Magalhães Machado, de 33 anos. Com o marido, dois filhos e uma amiga, Léo estranhou ao ver a mesa cheia de morangos picados. Para ela é importante a imprensa ajudar a divulgar ciência. “A gente aprende para depois ensinar os filhos em casa.”

Murilo Alves Pereira
Especial para a CH On-line/PR
11/10/05