Em busca das galáxias perdidas

Fitar as estrelas pode ser recompensador: uma equipe internacional de pesquisadores encontrou, no céu do hemisfério Sul, oito novos sistemas estelares que orbitam a Via Láctea. A descoberta fornece elementos que ajudam a corroborar o modelo de formação das galáxias mais aceito atualmente e pode permitir um estudo detalhado da natureza da matéria escura, substância ainda pouco conhecida pelos cientistas responsável pela maior parte da massa do universo e abundante nesses sistemas estelares.

O feito é resultado do projeto Dark Energy Survey (DES), que durante cinco anos pretende fazer um levantamento profundo de uma ampla região do hemisfério Sul e conta com a participação de mais de 300 pesquisadores de cinco países, entre eles, o Brasil. Para o levantamento, são usados telescópio e câmera de altíssima tecnologia que registram imagens durante 100 noites por ano. O objetivo é determinar por que o universo está em expansão acelerada.

Maia: “Detectamos uma concentração de estrelas acima da média em uma faixa relativamente pequena do céu”

“Detectamos uma concentração de estrelas acima da média em uma faixa relativamente pequena do céu”, conta o astrônomo Marcio Maia, pesquisador do Observatório Nacional que faz parte do DES-Brazil, grupo que conta com apoio do Laboratório Interinstitucional de e-Astronomia (Linea). “Após a análise, constatamos que eram sistemas satélites da Via Láctea nunca antes vistos”, diz.

“Esses objetos são constituídos por estrelas velhas e pobres em elementos químicos pesados, o que é típico de objetos situados no halo galáctico, a parte mais externa já medida da galáxia”, pontua Maia, acrescentando que a maioria deles se enquadra na definição de galáxias-anãs, devido ao seu tamanho. Embora ainda seja necessário fazer uma série de análises para verificar se são galáxias-anãs, a confirmação dessa hipótese aumentaria em um terço o número de objetos desse tipo conhecidos ao redor da Via Láctea.

Os sistemas estelares recém-descobertos medem entre 32 e 554 anos-luz (1 ano-luz equivale a 10 trilhões de quilômetros). Mas eles ocupam uma região do céu pequena para padrões astronômicos – o maior ocupa uma faixa da ordem de 0,1 grau (o diâmetro da lua cheia, por exemplo, é da ordem de 0,5 grau).

Sistema estelar Eridanus III
As estrelas mais azuladas da imagem, localizadas na direção da constelação de Eridanus, formam o menor dos sistemas estelares identificados. Se confirmado como galáxia-anã, será chamado de Eridanus III. (imagem: Portal Científico do DES/ Grupo DES-Brazil)

Esses sistemas localizam-se na direção de constelações como Reticulum (Retículo) e Eridanus (Rio) e suas distâncias em relação à Terra variam. O mais próximo se encontra a 95 mil anos-luz.

Formação das galáxias

Maia explica que, quando a Via Láctea se formou, fragmentos desse processo podem ter dado origem a galáxias menores (chamadas anãs) ao seu redor – mais especificamente no halo galáctico. As galáxias-anãs que estão no halo galáctico são objetos do universo ricos em matéria escura, substância postulada para explicar a atração gravitacional que mantém unidos os aglomerados de galáxias.

Quando a Via Láctea se formou, fragmentos desse processo podem ter dado origem a galáxias menores (chamadas anãs) ao seu redor

“Quando uma galáxia está se formando, há grandes ‘bolsões’ de matéria escura no espaço cuja constituição não conhecemos. Esse material atrai a matéria normal, constituída principalmente por hidrogênio, hélio e mais alguns dos elementos da tabela periódica”, acrescenta o astrônomo. “Ao se aglutinarem, esses elementos podem formar galáxias-anãs.”

Segundo essa explicação, deve haver um número maior de galáxias satélites do que o encontrado até hoje. Os novos dados – e o levantamento completo – do DES podem ajudar a corroborar esse modelo de formação das galáxias.

Valentina Leite
Ciência Hoje On-line

Matéria publicada em 12.03.2015

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