O vovô dos mares do polo sul

O mais antigo plesiossauro de que se tem notícia na Antártica viveu nos mares do pólo Sul há cerca de 85 milhões de anos. Fósseis desse grande réptil marinho pré-histórico foram coletados naquele continente por paleontólogos brasileiros. O material revela características que indicam que o animal pertencia a uma espécie nunca antes identificada na região.

Os plesiossauros viveram entre 200 e 65 milhões de anos atrás e se espalharam por todos os oceanos da Terra. O tamanho avantajado desses répteis marinhos – variavam de 2 metros a 14 metros de comprimento – facilitava seu deslocamento por grandes distâncias.

Os fósseis recém-descobertos recuam em 15 milhões de anos a presença confirmada de plesiossauros na Antártica

Os fósseis recém-descobertos recuam em 15 milhões de anos a presença confirmada de plesiossauros na Antártica. Até agora, os mais antigos fósseis desse grupo de répteis na região datavam de 70 milhões de anos atrás e pertenciam a exemplares descobertos em 1977 e 2006.

A idade do novo plesiossauro foi obtida com base na datação de vegetais fósseis presentes nas camadas do solo onde os ossos do animal foram encontrados e na análise de elementos minerais das rochas associadas a eles.

A descoberta dos fósseis, publicada na revista Polar Research, aconteceu durante a análise do material recolhido em uma expedição à Antártica realizada há quatro anos por pesquisadores do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com o apoio da Marinha do Brasil. Foram coletados ossos das nadadeiras e vértebras do pescoço e da cauda do animal.

“A descoberta coroou o trabalho de sete pesquisadores e dois alpinistas que ficaram acampados na região por 37 dias entre janeiro e fevereiro de 2007”, diz o coordenador do projeto, o paleontólogo Alexander Kellner, pesquisador do Museu Nacional/UFRJ e titular da coluna Caçadores de Fósseis, da CH On-line.

Coleta de fósseis
Paleontólogos coletam vértebras fossilizadas do plesiossauro descoberto na ilha James Ross, no sudeste da Antártica. (foto: Orlando Grillo)

Os pesquisadores recolheram duas toneladas e meia de fósseis de várias espécies animais e vegetais em um acampamento na ilha James Ross, localizada a leste da península Antártica. A região é cercada por espessas camadas de gelo, que dificultam a chegada e saída dos navios.

Além disso, não há bases militares brasileiras no local. “Parte do pessoal e dos fósseis recolhidos teve que ser retirada por meio de helicópteros”, diz Tiago Simões, mestrando do Museu Nacional/UFRJ e um dos autores do artigo que descreve a descoberta.

O pesquisador acrescenta que as condições climáticas da região prejudicam a preservação dos fósseis, pois a variação térmica provoca a degradação da superfície dos ossos. “A expansão e retração causadas pelo congelamento e degelo constantes da superfície do solo geraram um material fragmentado, que exigiu um estudo minucioso para a obtenção de informações corretas”, enfatiza.

Ocorrência inédita na região

O estudo dos fósseis revelou características que diferem o plesiossauro recém-descoberto dos outros animais do grupo já encontrados na Antártica. “As vértebras do pescoço têm as faces internas côncavas, em oposição ao aspecto plano desses ossos observado em outros plesiossauros já localizados na região”, compara Simões.

Vértebras de plesiossauro
Vértebras do plesiossauro coletadas na Antártica. A análise do material indica características diferentes das de outros animais do grupo já encontrados na região. (foto: Tiago Simões)

Segundo o paleontólogo, essa característica única na Antártica indica um novo grupo zoológico na região. Portanto, o animal não pertenceria à família Elasmosauridae, geralmente encontrada no polo Sul. “Ele também não parece estar relacionado aos Aristonectes, outro grupo com registro fóssil na região”, diz.

Apesar desse ineditismo, os pesquisadores não chegaram a descrever uma nova espécie. “Para propor uma espécie seria interessante ter um material mais completo, incluindo partes do crânio, que certamente serão encontradas na região”, pondera Alexander Kellner.

A ausência de fósseis do crânio também não permitiu à equipe definir o tamanho e inferir hábitos ou estratégias de sobrevivência do plesiossauro, cuja réplica integra a exposição Fósseis do continente gelado, em exibição no Museu Nacional/UFRJ, no Rio de Janeiro.

O grupo espera que a descoberta fortaleça a presença de cientistas brasileiros no continente gelado. No futuro, os pesquisadores pretendem voltar à região para novas observações científicas. “Nossa intenção é comparar a fauna da Antártica do tempo dos dinossauros com o material da mesma época encontrado no Brasil”, antecipa Kellner.

Saulo Pereira Guimarães
Ciência Hoje On-line