Por que os peixes-bois não devem voar

Simpatia é com eles mesmos. São grandes, gorduchos e esbanjam carisma a qualquer pessoa que já tenha tido a oportunidade de ver um. Os únicos mamíferos aquáticos exclusivamente herbívoros, os peixes-bois, encontram-se agora no centro de uma formidável polêmica: em abril de 2015, o Ministério do Meio Ambiente anunciou que cinco animais seriam exportados de Itamaracá, em Pernambuco, para a ilha caribenha de Guadalupe.

Netuno, Xuxa e Daniel, os três peixes-bois escolhidos para inaugurar a ação, deveriam ter sido transferidos dos tanques do Centro Mamíferos Aquáticos (CMA), na ilha de Itamaracá, para o Parque Nacional de Guadalupe, nas Antilhas Francesas, território ultramarino da França no Caribe. Por razões ainda pouco claras, a transferência, que seria realizada por avião-cargueiro fretado pelo governo francês, foi suspensa temporariamente – não sabemos por quanto tempo.

A triste história dos peixes-bois

Historicamente, os peixes-bois, mamíferos que pertencem à ordem Sirenia, podiam ser amplamente encontrados desde a Flórida, nos Estados Unidos, até o nordeste do Brasil. Na nossa costa, em um passado não muito distante, eles ocorriam até a foz do Rio Doce, no Espírito Santo, conforme relato do padre José de Anchieta em 1560. Atualmente, restaram poucas centenas no Nordeste e um número talvez maior na costa Norte, região que carece de uma estimativa minimamente confiável.

Relatos de viajantes nos séculos 17 e 18 apontam que os peixes-bois marinhos foram caçados impiedosamente

Os diversos relatos de viajantes que percorreram o litoral brasileiro nos séculos 17 e 18 apontam que os peixes-bois marinhos, ora abundantes, foram caçados impiedosamente e suas populações, drasticamente reduzidas ou mesmo extintas. Além disso, esses animais dependem de um hábitat específico – áreas costeiras abrigadas, protegidas das ondas oceânicas e com vegetação abundante, além de acesso à água doce – e, portanto, a modificação dos lugares onde vivia participou também do processo de quase desaparecimento da espécie.

No caso particular das Pequenas Antilhas, incluindo a ilha de Guadalupe, os peixes-bois foram extintos há mais de um século, assim como na maior parte do nordeste brasileiro. Hoje, são considerados vulneráveis pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Formalmente, os peixes-bois marinhos estão divididos em duas subespécies morfologicamente distintas: o peixe-boi-da-Flórida (Trichechus manatus latirostris) e o peixe-boi-das-Antilhas ou peixe-boi-do-Caribe (Trichechus manatus manatus). A primeira é encontrada na península da Flórida, nos Estados Unidos, enquanto a segunda é mais amplamente distribuída pelo Caribe e costa centro-sul das Américas, desde o México até o Brasil, passando pelas ilhas caribenhas.

Em 2006, um grupo de pesquisadores publicou os resultados de seus estudos moleculares com peixes-bois marinhos da Flórida e do Caribe. Ao usar marcadores como a região controladora do DNA mitocondrial e o gene mitocondrial citocromo b, os cientistas identificaram três linhagens e forte estruturação populacional na distribuição desses animais. As três linhagens estão distribuidas da seguinte maneira: (1) na Flórida, México, Grandes Antilhas, América Central e costa caribenha da América do Sul; (2) México, América Central e costa caribenha da América do Sul; e (3) costa nordeste da América do Sul (Brasil e as Guianas). A população ‘brasileira’, portanto, pertenceria a esta última linhagem.

Tais resultados reforçam a necessidade de maior proteção dessa linhagem única de peixes-bois marinhos encontrada apenas ao sul das Pequenas Antilhas, nas costas da Guiana, Suriname, Guiana Francesa e Brasil. Um passado de caça comercial e de subsistência somado à marcada estruturação populacional colocaram o animal em situação tão crítica que, na década de 1980, foi criado um programa nacional de proteção ao peixe-boi marinho, instalado na ilha de Itamaracá. Entre erros e acertos, o programa conseguiu reproduzir peixes-bois em cativeiro e reabilitar filhotes órfãos, em sua maioria resgatados nas praias do Nordeste.

Peixe-boi marinho
Transportar animais de uma região a outra é uma decisão delicada, que deve ser pensada com cuidado. É importante avaliar detalhadamente a distribuição das espécies em cada ambiente. (foto: Rodrigo Baleia)

Viagem indesejada

Nesse cenário, foi no mínimo surpreendente a notícia da exportação dos peixes-bois para Guadalupe, recebida com um misto de espanto e contestação por parte da comunidade científica e de ONGs conservacionistas.

A começar, a proposta de exportação não foi sequer discutida com os especialistas da área e não está contemplada no Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Sirênios. Ademais, o envio de peixes-bois para outros países é fracamente apoiado pelas informações disponíveis sobre estruturação genética e estudos morfológicos. Por fim, mas não por menos, alguns sítios brasileiros onde os peixes-bois foram extintos – por exemplo, os litorais de Espírito Santo e Bahia – poderiam ser locais óbvios de soltura e reintrodução desses animais em um futuro breve.

Como apontado no estudo que citamos acima, “a marcada estrutura genética e subdivisão geográfica de T. manatus deveria ser considerada no seu manejo e conservação. Sugerimos, portanto, que seja evitada a translocação e o cruzamento reprodutivo entre indivíduos de regiões distantes”.

Mesmo no Brasil, o transporte de peixes-bois de uma área a outra precisaria ser visto com cautela. A população brasileira de T. manatus é dividida em duas subpopulações, uma na costa Norte, com compartilhamento genético com a Guiana e a Venezuela, e outra na região Nordeste – um contexto que aponta claramente para o questionamento da translocação sem uma criteriosa investigação da distribuição das linhagens genéticas dos peixes-bois.

Sugestões para leitura:

DOMNING, D.P. e HAYEK, L.C. Interspecific and intraspecific morphological variation in manatees (Sirenia: Trichechus). Marine Mammal Science 1986; 2 (2): 87-144.

HATT, R. A manatee collected by the American Museum Congo Expedition, with observations on the recent manatees. Bulletin of the American Museum of Natural History 1934; 66: 533-566.

LEFEBVRE, L.W.; O’SHEA, T.J.; RATHBUN, G.B.  e BEST, R.C. Distribution, status, and biogeography of the West Indian manatee. In: Biogeography of the West Indies. Gainesville, FL: Sandhill Crane Press, 1989: 567-610.

LUNA, F.O. Population genetics and conservation strategies for the West Indian manatee (Trichechus manatus Linnaeus, 1758) in Brazil. Tese [Doutorado em Oceanografia] – Universidade Federal de Pernambuco, 2013.

VIANNA, J. A.; BONDE, R. K.; CABALLERO, S. GIRALDO, J. P.; LIMA, R. P.; CLARK, A.; MARMONTEL, M.; MORALES-VELA, B.; de SOUZA, M. J.; PARR, L.; RODRÍGUEZ-LOPES, M. A.; MIGNUCCI-GIANNONI, A. A.; POWELL, J. A.; SANTOS, F. R. Phylogeography, phylogeny and hybridization in trichechid sirenians: implications for manatee conservation. Molecular Ecology 2006, 15: 433–447.

WILSON, D.E. e REEDER, D.M. (editors). Mammal Species of the World. A Taxonomic and Geographic Reference (3rd ed). Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2005.

Salvatore Siciliano
Instituto Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz

Cibele R. Bonvicino
Divisão de Genética, Instituto Nacional de Câncer, e Laboratório de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Reservatórios Silvestres, Instituto Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz

Matéria publicada em 08.06.2015

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