Práticos e arriscados

A praticidade exigida pela pressa do dia a dia resulta muitas vezes no consumo de alimentos de preparação fácil e rápida, como congelados, sanduíches e outros lanches industrializados. No entanto, esses alimentos são perigosos para a saúde pelo seu alto teor de sódio. Para crianças e adolescentes, o risco pode ser ainda maior. Mas nem por isso os industrializados voltados para esse segmento apresentam redução de sódio, como mostra um estudo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Os pesquisadores analisaram a concentração de sódio nos alimentos industrializados preferidos de crianças e adolescentes, como hambúrgueres, pizzas prontas, chocolates, refrigerantes, salgadinhos industrializados, frios e embutidos. Das mais de 2.900 amostras de alimentos estudadas, 21% apresentaram altos teores de sódio e 35%, médios teores. Essa conclusão baseia-se em um sistema de classificação em que teores de sódio acima de 0,6 g por 100 g de alimento são considerados altos e níveis médios são aqueles entre 0,12 g e 0,6 g por 100 g.

Das mais de 2.900 amostras de alimentos estudadas, 21% apresentaram altos teores de sódio e 35%, médios teores

“Crianças consomem muito esse tipo de alimento”, pontua a nutricionista Mariana Kraemer, que realizou a pesquisa em seu mestrado.

O sódio é usado para intensificar o sabor, além de dar textura aos alimentos e prolongar sua vida útil. Mas o seu consumo em excesso preocupa. Em adultos, está relacionado a doenças como a hipertensão, problemas renais e cardiovasculares. Em crianças, os efeitos da exposição prolongada ao nutriente podem ser piores.

“Ainda não sabemos o que o consumo elevado de sódio pode acarretar em crianças e adolescentes com o passar do tempo”, diz Kraemer. “Esses produtos não eram comuns ou sequer existiam para a atual geração de adultos e idosos, que, mesmo assim, apresentam esses problemas de saúde. Imagine o risco que correm as crianças de hoje, que consomem sódio em excesso desde cedo.”

O consumo de sódio é recomendado em níveis controlados. Para adultos, a quantidade deve ser inferior a 2.000 miligramas diárias, valor encontrado em 5 g (uma colher de chá) de sal de cozinha. Para pessoas de 9 a 19 anos, o consumo indicado é de 1.500 miligramas; para crianças entre 4 e 8 anos, 1.200 miligramas e, de 1 a 3 anos, não deve ser maior do que 1.000 miligramas.

Campeões de sódio

A pesquisa mostrou que os alimentos campeões em teor de sódio são os embutidos, que apresentam até 3.150 mg de sódio por porção, quase o triplo do valor diário recomendado para crianças entre 4 e 8 anos. “Presunto, mortadela, entre outros, são ingredientes frequentes de lanches, e geralmente não são consumidos isoladamente – junto com uma fatia de presunto, se come pão, queijo e manteiga, por exemplo”, diz Kraemer. “Assim, em apenas uma refeição, o valor recomendado já é ultrapassado.”

Pizza
Pizzas e hambúrgueres só perdem para os embutidos quando o assunto é o teor de sódio. O consumo em excesso dessa substância está ligado a problemas no coração e aumento da pressão arterial. (foto: British Mum/ Flickr – CC BY 2.0)

Em segundo lugar, ficam os pratos prontos, como hambúrgueres e pizzas. “Um sanduíche com hambúrguer, milho, ervilha, maionese e ketchup tem, em média, 1.300 mg de sódio”, calcula a nutricionista. “Esse valor corresponde a mais de 90% da necessidade diária de crianças e adolescentes entre 9 e 19 anos e, se acompanhado de batatas fritas, como ocorre normalmente, o valor é ainda maior.”

Rotulagem imprecisa

Outro problema observado pela pesquisa diz respeito às informações nutricionais disponibilizadas no rótulo do produto. Segundo as normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), os dados apresentados sobre a quantidade devem ser relativos à porção padrão estabelecida para o produto pelo órgão. Para biscoitos recheados, por exemplo, a porção é de três biscoitos ou 40g, e todos os valores nutricionais devem se referir a essa quantidade. Mas nem todos os fabricantes seguem essa regra.

Ao todo, 12% dos alimentos analisados apresentaram em seus rótulos porções menores que as estabelecidas pela Anvisa

Ao todo, 12% dos alimentos analisados apresentaram em seus rótulos porções menores que as estabelecidas pela Anvisa. “Mesmo grupos de alimentos similares, como sucos, néctares e bebidas de frutas, apresentaram grande variação da porção regulamentada”, diz a pesquisadora.

Sem a padronização, o consumidor é prejudicado. “A falta de padrão nos rótulos dificulta a compreensão do consumidor, que é obrigado a fazer cálculos para escolher o alimento com o menor teor de sódio e nem sempre consegue realizar a escolha conscientemente”, pondera Kraemer.

O consumidor que quiser denunciar a falta de padrão na embalagem dos alimentos ou quiser esclarecer alguma dúvida sobre as normas de rotulagem pode entrar em contato com a Anvisa pelo endereço [email protected].

Isadora Vilardo
Ciência Hoje On-line

Clique aqui para ler o texto que a CHC preparou sobre esse assunto.

Matéria publicada em 24.04.2014

COMENTÁRIOS

Envie um comentário

CONTEÚDO RELACIONADO

Estratégia antiviral polivalente

Estudo feito por pesquisadores de Brasil e Portugal identifica moléculas promissoras para o desenvolvimento de fármacos e vacinas contra diversos tipos de vírus.

Inovação no combate a doenças neurológicas

Novas estratégias para o transporte de fármacos até o cérebro abrem portas para o desenvolvimento de terapias para doenças como a de Alzheimer e tumores cerebrais.

Abrir Chat