O percurso da aspirina

O registro do uso do salgueiro para alívio da dor remonta à Antiguidade. Mas o primeiro medicamento à base da planta a ser comercializado no mundo tem pouco mais de 100 anos e carrega uma história com disputas e percalços.

Os salicatos encontrados na casca do chorão tinham ação farmacológica para alívio da dor, mas apresentam vários efeitos colaterais indesejáveis.

Os primeiros investigadores com foco na saúde humana, como Imhotep (2655-2600 a.C), do Egíto Antigo, e Hipócrates (460-370 a.C.), que viveu à época do florescimento intelectual grego, eram polímatas, ou seja, indivíduos cujos conhecimentos não estão restritos a uma única área de ação. Além de arquiteto e engenheiro, Imhotep é considerado o primeiro médico da história antiga, junto com seus contemporâneos Hesi-Rá e Merite-Ptá. Já Hipócrates é reconhecido como o ‘pai da medicina’, em função de sua atuação na área médica e por compilar uma vasta documentação sobre procedimentos para alívio e cura. Além disso, esse grande pensador era, em sua sociedade, um ‘asclepíade’ – membro de uma família que, durante várias gerações, praticava cuidados em saúde –, o que reforça a importância de seu reconhecimento.

A descoberta do Eber Papyrus – um dos tratados médicos mais antigos que se conhecem – permitiu provar que os egípcios da Antiguidade já utilizavam preparações da planta salgueiro para alívio da dor. Esse documento foi redigido por volta do ano 1500 a.C. e apresenta mais de 700 fórmulas ‘mágicas’ e preparações populares para alívio e cura de males. Esse incrível tratado médico foi achado entre os restos de uma múmia, em um túmulo próximo à cidade de Tebas, no Egito, e hoje se encontra no museu da Universidade de Leipzig, na Alemanha.

Norberto Peporine Lopes

Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto
Universidade de São Paulo