Saúde silvestre no bolso

Nos arredores de grandes cidades ou em áreas remotas do Brasil, os contrastes entre modernidade e resquícios do território original coexistem desajeitadamente. Neste cenário, conseguir informações sobre os animais silvestres que nos cercam nunca foi tarefa das mais simples. Para facilitar a coleta e disponibilização de dados sobre a saúde desses bichos, o Centro de Informação em Saúde Silvestre (Ciss) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) acabam de lançar um aplicativo para celulares e tablets. Os pesquisadores esperam contar com o apoio da população para reunir referências de todo o país.

Gratuito e disponível para aparelhos com os sistemas Android e iOS, o Sistema de Informação em Saúde Silvestre (SISS-Geo) foi pensado para ser utilizado por qualquer pessoa. O aplicativo se baseia no conceito de ciência cidadã, no qual a participação de voluntários é fundamental para recolher e processar informações. Um dos objetivos da iniciativa é fornecer dados sobre a possível emergência de doenças relacionadas à fauna silvestre.

“Queremos monitorar a vida silvestre, sua relação com os patógenos (agentes causadores de doenças) e as alterações provocadas pelas novas condições que os animais precisam enfrentar, como o avanço da agricultura ou a urbanização”, conta a bióloga Marcia Chame, coordenadora do Ciss.

Aplicativo saúde silvestre
Disponível para Android e iOS, o aplicativo tem como objetivo principal montar um banco de dados e distribuir informação sobre a vida silvestre no país. (imagens: reprodução/Facebook)

A expectativa é de que os dados coletados formem um valioso e inédito banco de dados sobre a progressão da saúde silvestre brasileira ao longo do tempo. Além disso, o aplicativo serve como um canal de comunicação direta com a equipe do Ciss, podendo ser utilizado para tirar dúvidas e obter informações.

Alerta contra possíveis ameaças

O uso do aplicativo é simples e intuitivo. Ao observar qualquer tipo de animal silvestre, o colaborador deverá tirar uma foto e responder a algumas perguntas que ajudam a avaliar a saúde do bicho e a condição do ambiente no qual ele se encontra. Assim, são importantes tanto os registros de animais saudáveis quanto a notificação daqueles com comportamentos estranhos ou problemas como hemorragias e secreções. É interessante, também, registrar o excesso de roedores em uma mesma área e os impactos ambientais de queimadas, desmatamentos e processos de urbanização. Caso o usuário não esteja conectado à internet, o registro fica armazenado no celular e é enviado ao SISS-Geo quando houver conexão.

As informações são avaliadas por uma rede de especialistas ligados ao Ciss. Quando o volume de dados estiver grande o suficiente, o sistema será capaz de identificar alterações significativas nas condições dos animais, que poderão servir de alerta para que os setores responsáveis verifiquem de perto se a situação representa algum risco para os animais ou para a população próxima. 

Inclusão digital pela biodiversidade

Se para muitos jovens – especialmente nas grandes cidades – o uso de um aplicativo pode não representar um mistério, grande parte das pessoas que vive em regiões remotas e lida diariamente com o campo ainda vê a novidade como um desafio. Por isso, a equipe do Ciss decidiu viajar para acompanhar de perto como seria a coleta de dados por moradores da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, no Pará, e dos municípios de Uruçuca e Itacaré, no sul da Bahia. 

Segundo Chame, essa aproximação mostrou às comunidades que seria possível viver melhor com a disseminação de boas práticas para a conservação da biodiversidade e revelou mudanças necessárias para tornar o aplicativo mais acessível. “Descobrimos, por exemplo, que os botões do aplicativo estavam muito pequenos para o tamanho dos dedos das pessoas; também fizemos algumas alterações na linguagem para que o uso fosse o mais simples possível”, conta a bióloga. 

“Na medida em que essas informações se agregarem com o tempo, será possível conhecer com maior amplitude as condições da saúde humana e animal em diversas localidades brasileiras”

Médico veterinário da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Alessandro Pecego Martins Romano acredita que o SISS-Geo é uma ferramenta fundamental para a obtenção de dados principalmente em lugares remotos. “Na medida em que essas informações se agregarem com o tempo, será possível conhecer com maior amplitude as condições da saúde humana e animal em diversas localidades brasileiras”, aposta. “Adicionalmente, essa iniciativa deve estimular setores públicos ligados à saúde e à biodiversidade a aproveitar essas informações na rotina de verificação e monitoramento da qualidade de vida e manutenção dessas populações”.  

Everton Lopes
Ciência Hoje On-line

 

 

 

Matéria publicada em 02.12.2015

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