Soy indiferente a ti, américa

 

null

No dia 24 de novembro, quatro dos maiores jornais de circulação nacional publicaram 45 matérias nas seções reservadas ao noticiário internacional. Destas, apenas quatro (cerca de 9%) se referiam a assuntos latino-americanos.                            

A grande mídia brasileira dá pouco destaque para assuntos latinos em comparação com temas europeus e americanos. Isso é o que aponta o jornalista Alexandre Barbosa em sua dissertação de mestrado defendida na Escola de Comunicação e Artes, da Universidade de São Paulo (USP). O jornalista indica também uma preferência por notícias de uma ‘América Latina Oficial’, representada pelas elites brancas.

 
Barbosa analisou estudos anteriores sobre o tema e constatou que a América Latina costuma ganhar importância no noticiário brasileiro quando ocorrem escândalos políticos ou catástrofes naturais. Outros temas também abordados são o futebol e o narcotráfico. O jornalista ressalta que a cobertura é tão rara que quase sempre é acompanhada por um boxe trazendo informações sobre o país ou a região do acontecimento. “A América Latina é uma grande incógnita”, afirma em seu trabalho.
 
O jornalista também fez entrevistas com editores de grandes jornais e revistas e de veículos alternativos. “Eles quase sempre justificavam a falta de espaço alegando que o grande público não se interessa por assuntos latinos, mas a questão vai alem disso”, diz. “As populações excluídas no Brasil e nos países vizinhos são muito semelhantes, logo há um interesse mútuo em saber o que acontece com o outro.”
 
A precariedade do ensino de história nos cursos superior e médio do país e o preconceito por parte de jornalistas e da população em geral devido a uma herança histórico-cultural problemática são, segundo ele, motivos que podem explicar esta situação.
 
Para Barbosa, uma história oficial elitista, que eleva heróis como Duque de Caxias, comandante-chefe das forças brasileiras na Guerra do Paraguai, só colabora para o aumento do preconceito. “A questão é tão complicada que o brasileiro não se considera latino”. Barbosa conta que, quando anunciou a amigos sua pesquisa, muitos indicaram para uma entrevista conhecidos mexicanos, chilenos, entre outros. “Eles esqueceram que também são da América Latina.”
 
Devido à complexidade de seu objeto de estudo, Barbosa resolveu dividir a América Latina em duas, a ‘oficial’ e a ‘popular’. A oficial é a representada pela população branca, europeizada, das classes dominantes e das metrópoles, enquanto a popular é formada pelas populações mestiças, do interior de cada país. O jornalista afirma, porém, que dentro de uma mesma cidade podem ocorrer essas divisões. “No Rio de Janeiro, por exemplo, há uma América Latina oficial elitista, mas há também favelas, que são extremamente populares.”
                          
A cobertura feita pela grande mídia no Brasil, segundo o jornalista, é da América Latina oficial. Ele diz que as agências de notícias, muitas internacionais, são as maiores responsáveis por esse fenômeno. “Elas padronizam a cobertura jornalística dos meios de comunicação e, por fazerem uma cobertura à distância dos fatos, tendem a ser parciais”, avalia Barbosa.
Para mudar esta situação, Barbosa defende um curso de jornalismo com cargas teóricas maiores e com conteúdos históricos regionais mais aprofundados, além de uma reformulação do ensino de história no segundo grau. Para os já formados, ele sugere que saiam da inércia e busquem conhecimentos mais específicos sobre a cultura e a história latina. Isso iria diminuir a carga de preconceitos e contribuiria para uma cobertura mais precisa. “Além disso, é uma forma de se atualizar, até para manter o emprego no mercado de trabalho de hoje em dia.”


Júlio Molica
Ciência Hoje On-line
28/11/2005