Trevas no eldorado: o limite entre ciência e etnocídio

Os yanomami, povo indígena cujo território se divide entre o norte do Brasil e a Venezuela, foram tornados famosos pelo antropólogo francês Napoléon Chagnon, que em 1968 alcançou a maior vendagem de um livro na história da antropologia com Yanomami: o povo feroz . Ele também filmou guerras tribais e um surto de sarampo, que sua equipe aparentemente combatia. Sabe-se hoje que Chagnon incitou lutas, aplicou uma vacina ultrapassada que levou a inúmeras mortes e coletou 20 mil amostras de sangue dos índios para pesquisas sobre radioatividade financiadas pela Comissão de Energia Atômica dos EUA.

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Yanomamis inalam pó alucinógeno em ritual. A tribo habita o alto Orenoco,
região cujo difícil acesso justifica o isolamento (foto: Ademir Rodrigues)

Em março, o Ministério Público brasileiro indagou a pesquisadores norte-americanos o paradeiro das amostras de sangue. A Comissão Pró-Yanomami, que participou do seminário sobre ética em pesquisa antropológica realizado em abril na Universidade de Cornell (EUA), aguarda o posicionamento norte-americano para definir os próximos passos na reivindicação das amostras. “Há muita especulação nesse debate”, explica Jô de Oliveira, secretária-executiva da comissão. “É preciso saber o que existe de concreto para a possível moção de um processo judicial.”

O recente seminário é um desdobramento das denúncias que o jornalista Patrick Tierney reuniu no livro Trevas no Eldorado . Escrita em dez anos, a obra — recém-lançada no Brasil — mostra como Chagnon tentou provar com base nos yanomami a teoria da sociobiologia segundo a qual os mais fortes disseminariam seus genes por possuírem mais mulheres, adquiridas em lutas. Os yanomami, porém, constituem um dos grupos tribais com menor índice de violência. Seus homens, descritos como selvagens e ferozes, têm cerca de 1,5 metro de estatura.

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Napoléon Chagnon e ajudantes na aldeia de Abruwa-teri, em 1995, antes de ser expulso pela segunda vez da reserva yanomami (foto: Antônio Mari)

As idéias de Chagnon e a viagem à reserva yanomami em 1968 foram orientadas pelo geneticista James Neel, que pedira amostras de sangue dos índios e suas genealogias. A intenção era usar uma população geneticamente isolada como grupo de controle em pesquisas sobre contaminação atômica. A compilação de genealogias, contudo, quebrava o tabu yanomami de não dizer o nome dos mortos. Chagnon subornou crianças e inquiriu a tribos rivais nomes de inimigos mortos, o que gerava confrontos. As lutas, registradas em vídeo, também eram motivadas pela distribuição preferencial de bens — sobretudo facões — pelo pesquisador.

Durante as filmagens a equipe de Chagnon promoveu uma vacinação contra sarampo sob alegação de surto. A vacina continha o vírus vivo e estava fora de uso devido a efeitos colaterais. 20% dos índios vacinados morreram em até uma semana, antes da manifestação da doença. Pesquisadores dos yanomami denunciavam os métodos de Chagnon antes mesmo da publicação do livro. O antropólogo, que admitiu defender o interesse de garimpeiros em entrevista a Tierney, foi retirado da reserva yanomami por sentença judicial da Venezuela em 1993. Retornou em 1995 como integrante de uma equipe da rede de televisão BBC e foi novamente expulso, por líderes tribais desta vez.

Trevas no Eldorado – como cientistas e jornalistas
devastaram a Amazônia e violentaram a cultura ianomâmi
Patrick Tierney (trad.: Bento de Lima)
Rio de Janeiro, 2002, Ediouro
526 páginas; R$ 43,50

Visite o site da Comissão Pró-Yanomami

Raquel Aguiar
Ciência Hoje On-line
19/04/02