Ué, mas gasolina não tem dna?

A tensão entre conhecimento científico e senso comum pode estar mal resolvida na vida de alunos do ensino médio. Às vésperas de entrar na faculdade, jovens de 18 anos não conseguem reconhecer e aplicar os conceitos apresentados em sala de aula no dia-a-dia. A conclusão é do professor Valter Carabetta Junior, que realizou uma pesquisa com estudantes de escolas particulares de São Paulo durante o desenvolvimento de sua tese de doutorado na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.

Aplicada ao ensino de biologia, a pesquisa procurou entender como é feita a internalização do conceito de DNA pelos estudantes. Entrevistas realizadas por Valter apontaram constatações preocupantes. Os mesmos alunos que concluem por seu próprio raciocínio que todo ser vivo tem DNA são capazes de afirmar que também a gasolina é dotada da mesma molécula. Esses estudantes foram provavelmente influenciados pelo teste de pureza (dito ‘de DNA’) realizado em alguns postos de combustíveis do país e disseminado na mídia como estratégia publicitária.

O exemplo acima mostra como os estudantes não conseguem estabelecer uma ponte entre o conhecimento científico trabalhado em sala de aula e sua vivência cotidiana. Essa associação é complicada mesmo com temas amplamente divulgados pela mídia — como é o caso do DNA. “Os alunos não têm representação mental do conceito, apenas definem verbalmente”, diz o professor e especialista no ensino de ciências. “Alguns acabam levados pela influência da propaganda.”

 

Valter chegou a essas constatações a partir de entrevistas realizadas com seis estudantes, nas quais eles não só respondiam perguntas, mas também eram incitados a tecer reflexões sobre o conceito de DNA. A estratégia — que Valter classifica como uma atividade de ‘metacognição’ — permitiu que esses estudantes analisassem sua própria estrutura de pensamento e percebessem eventuais falhas no encadeamento lógico das questões.

 

O professor atribui a dificuldade dos alunos de abstrair conceitos científicos ao excesso de conteúdo do currículo de biologia no ensino médio, na maioria das vezes trabalhado sem análise, reflexão e questionamento. Segundo ele, o incentivo à memorização, prática comum nos anos que antecedem as provas de vestibular, também comprometeria a internalização desses conceitos.

 

Para reverter esse quadro, defende Valter, é necessário que o aluno se torne consciente de seu conhecimento sobre o objeto de estudo, saiba falar sobre o assunto e seja capaz de representá-lo mentalmente.

 

Por trás do esforço individual é necessário que o professor conheça o que o aluno pensa sobre determinado assunto para poder levá-lo a constantes reflexões por meio de perguntas. “É através desses questionamentos que o professor alicerça o conhecimento de seus alunos”, disse Valter. “Não basta jogar o conceito pronto.”

Fábia Andérez
Ciência Hoje On-line
04/09/03