A descoberta do mal de chagas – uma história contestada

Carlos Chagas é retratado na história oficial como o primeiro e único pesquisador a descobrir e descrever todos os estágios de uma doença. Sanitarista e microbiologista, ele conduziu todas as etapas da descoberta da patologia que levaria seu nome. Do reconhecimento do Trypanosoma cruzi à identificação dos sintomas da tripanossomíase americana, Chagas teve atuação fundamental e encarnou o caráter multidisciplinar próprio da proliferação científica no Brasil do início do século 20.

A descoberta dessa moléstia e seus desdobramentos são o tema do recém-lançado A doença de Chagas – história de uma calamidade continental , do historiador da ciência François Delaporte. A partir da análise de um extenso apanhado de documentos históricos que reconstituem a trajetória de Chagas, o livro questiona a atribuição de todos os méritos da descoberta ao pesquisador e propõe uma reflexão sobre a historiografia oficial.

Poderia ser ela apenas ‘uma’ das histórias possíveis a serem contadas sobre um fato? Os dados coletados por Delaporte indicam que sim. O autor aponta contradições nos relatos históricos sobre o método, os objetivos de pesquisa e até a ordem em que avanços foram feitos.

Delaporte afirma, por exemplo, que “Chagas apresentou os fatos relativos à sua descoberta de duas maneiras diferentes: seja partindo do parasita no inseto em direção à doença ou, inversamente, a partir de uma patologia desconhecida em direção ao agente causador e ao transmissor”. Segundo ele, não há uma versão correta; ambas teriam sido construídas para “ocultar o caminho efetivamente seguido”, que envolveria o acaso como elemento determinante. Ainda segundo Delaporte, “Chagas encontrou uma doença que ele não procurava de início”.

Ele ressalta que só a partir de 1915 “aparece” a versão de que Chagas teria descoberto a existência de uma “doença insólita” antes de descobrir o parasita. Para o autor, esse é um exemplo de distorção que precisa ser elucidado para que a história da ciência no Brasil seja (re)escrita de forma a acabar com mitos e falsos modelos que a perseguem.

 

 

Casa de pau-a-pique no interior de Minas, hábitat do barbeiro transmissor do mal de Chagas, e o castelo de Manguinhos, sede do Instituto Oswaldo Cruz

O autor introduz o livro a partir de uma comparação original entre a arquitetura das casas de pau-a-pique do interior de Minas Gerais e do castelo de Manguinhos. A oposição entre a simplicidade das choupanas e a sofisticação de um dos maiores centros irradiadores de ciência do Brasil reflete as condições em que a moléstia foi descoberta. Tal contradição teria permitido o encontro “entre o pensamento médico brasileiro e um inseto”, ou seja, entre o conhecimento científico constituído dentro da tradição ocidental e a pobre e distante realidade da população do interior do Brasil.

A doença de Chagas não se propõe traçar um painel geral sobre a moléstia ou seu descobridor. Denso e com abundância de termos técnicos, o livro deve agradar a historiadores da ciência e da saúde pública no Brasil e interessados pela epistemologia.

 

A doença de Chagas – história de uma calamidade continental
François Delaporte (trad. Carmem Pereira e Leonora Assis)
Ribeirão Preto, 2003, Holos Editora
129 páginas – R$ 25

Leia o perfil de Carlos Chagas

Julio Lobato
Ciência Hoje On-line
15/10/03