A ‘força’ está no carrapato

 

Cartaz do filme Guerra nas Estrelas – episódio III , com o mestre Jedi Yoda, que, na história, tem alta concentração de ‘midichlorians’ no organismo.

No cinema, os ‘midichlorians’ são microrganismos que permitem aos cavaleiros Jedi, espadachins místicos da trilogia Guerra nas Estrelas , estarem em sintonia com a ‘Força’, um campo de energia que conecta todos os seres da galáxia. Na vida real, eles agora são bactérias que infectam as mitocôndrias, pequenas ‘usinas de força’ das células, do carrapato Ixodes ricinus . O nome ‘ Candidatus Midichloria mitochondrii’ foi sugerido em um artigo que descreve a espécie, publicado no número 56 da revista científica International Journal of Systematic and Evolutionary Microbiology .

Segundo o cientista australiano Nathan Lo, da Universidade de Sydney (Austrália), coordenador da pesquisa, a ‘ Candidatus M. mitochondrii’ foi descoberta por acaso nas células ovarianas do inseto – quando o grupo procurava por patógenos de carrapato – e classificada na ordem Rickettsiales. “Ficamos surpresos ao ver que ela podia entrar na mitocôndria. É a única bactéria conhecida capaz de fazer isso”, conta Lo, que acrescenta que o microrganismo só consegue viver dentro das células, daí o nome Candidatus , dado a bactérias que não podem ser cultivadas isoladamente.

Após confirmar que se tratava realmente de uma nova bactéria, Lo começou a procurar nomes para o gênero e a espécie. Como a capacidade de entrar na mitocôndria era, provavelmente, única da espécie, ela se chamou mitochondrii . Já para o gênero, a escolha era mais difícil, pois ela não apresentava características morfológicas especiais.

Fotografia de microscopia eletrônica da bactéria ‘Candidatus Midichloria mitochondrii’ (manchas negras no centro) dentro da mitocôndria. (Crédito: Luciano Sacchi/Universidade de Pavia, Itália)

Foi então que Lo, surfando na internet, descobriu que o produtor norte-americano George Lucas, criador da saga espacial, tinha inventado o nome ‘midichlorians’ com base nos simbiontes intracelulares que deram origem às mitocôndrias e aos cloroplastos. “Achei que seria interessante fazer o caminho inverso”, explica.

Assim como seus equivalentes fictícios, os ‘midichlorians’ reais são simbiontes, ou seja, mantêm uma interação que não faz mal aos seus hospedeiros. Embora eles se alimentem das mitocôndrias que infectam, isso não parece afetar negativamente o I. ricinus . A bactéria é inclusive herdada, por meio dos óvulos, pelos filhos, que crescem normalmente. “É possível que ela esteja produzindo substâncias úteis para o carrapato ou então reciclando mitocôndrias velhas”, sugere o cientista.

A ‘ Candidatus M. mitochondrii’ não é a primeira espécie a ser batizada com uma referência à cultura pop . O bagre Otocinclus batmani recebeu o nome do super-herói de Gotham City devido a uma mancha em forma de morcego que tem na cauda. A idéia foi do ictiólogo colombiano Pablo Lehmann, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Porto Alegre), que descreveu o peixe em 2006. Além disso, há um gênero de tubarão chamado Gollum , um dos personagens da trilogia O Senhor dos Anéis .

Fred Furtado
Especial para Ciência Hoje On-line
22/01/2007