Autorretrato genético

Nas artes, autorretrato é o retrato que o artista faz de si mesmo. A representação pode aparecer sob forma de pintura, gravura, fotografia. Segundo Houaiss, é possível ainda fazer um autorretrato por meio de descrição escrita ou oral.

Nenhuma definição dicionarizada de ‘autorretrato’ comporta a proposta da DNA Brasil

No entanto, nenhuma definição dicionarizada de ‘autorretrato’ comporta a proposta da DNA Brasil. O nome da empresa já entrega: a ideia é ter na parede de casa um quadro do seu DNA – ou do seu filho, pai, amigo… Vale lembrar: o DNA de cada pessoa é singular e possui sequências específicas e características únicas. A obra de arte que sair da empreitada terá caráter exclusivo.

“Ampliamos genes sem relação conhecida com doenças; eles não permitem qualquer comparação genética”, explica Stevens Rehen, biólogo idealizador do projeto e cientista à frente do Laboratório Nacional de Células-Tronco Embrionárias (LaNCE), local onde o DNA é manipulado.

A explicação de Rehen, dada antes mesmo de qualquer pergunta mais direta do repórter, tem lógica: é cada vez mais comum a preocupação com a ‘privacidade genética’ – uma breve pesquisa na internet pesca discussões caudalosas sobre o tema.

Não, não seria possível identificar pelo quadro quem é o pai, quem é a mãe, quem tem propensão a determinadas doenças ou – para os afeitos a jogos de tabuleiro – quem é o assassino. “Nossa ideia é fazer arte, o que importa aqui é que cada um terá sua impressão única e exclusiva do DNA”, intera o biólogo.

O passo a passo para conseguir um quadro desses exige mínimo empenho de quem estiver interessado: primeiro, escolhem-se tamanho e cor da arte na loja virtual da DNA Brasil. Em poucos dias, recebe-se um kit de coleta de saliva e as orientações necessárias para o procedimento, que é simples e indolor. A amostra é enviada para o laboratório.

“A empresa foi criada com o princípio de doar parte de seu faturamento bruto para as pesquisas científicas”

“Há duas empresas com propostas similares, uma nos Estados Unidos e outra na Austrália”, diz Rehen. “Só que a nossa é a única que foi criada com o princípio de doar parte de seu faturamento bruto para as pesquisas científicas.”

Explica-se: por uma série de burocracias, Rehen não é sócio da DNA Brasil, mas parceiro. A empresa contrata o laboratório do biólogo, terceirizando o processo de manipulação do material genético do cliente.

Nesse primeiro momento, 5% da receita bruta da venda dos quadros serão doados para o próprio LaNCE. Se a empreitada der certo, a proposta é que até 30% do faturamento da DNA Brasil sejam diretamente repassados para pesquisas científicas. “Existe uma série de entraves legais para que pessoas físicas invistam em pesquisa científica; uma forma de criar fontes alternativas de renda é com doações”, defende Rehen. “A ideia dos quadros é também uma forma de jogar luz sobre essa alternativa financeira, além de, é claro, ajudar a divulgação científica.”

DNA, casal
Nos quadros com genes de mais de uma pessoa, será possível identificar quem é o ‘dono’ do DNA. “As cinco colunas da esquerda são do meu DNA, a outra metade é da minha mulher”, diz Rehen. (foto: divulgação)

Do laboratório à parede de casa

É importante ressaltar que o processo de extração de DNA e a ampliação de alguns de seus genes de nada têm a ver com o sequenciamento completo do DNA do homem – algo muito, muito mais trabalhoso, que levou 11 anos para ser concluído. O que a DNA Brasil faz é ‘apenas’ destacar alguns genes – o genoma humano conta com mais de 20 mil.

No entanto, não deixa de impressionar – sobretudo os não especialistas – a descrição do caminho que o material genético faz até ser ‘enquadrado’. No LaNCE, o fragmento de DNA presente na amostra de saliva é destacado por meio de uma técnica de ampliação chamada reação em cadeia de polimerase, que ressalta os genes de interesse.

Esses genes são submetidos a um campo elétrico que faz com que migrem, de acordo com tamanho e massa, para uma matriz gelatinosa. Um corante altamente sensível é aplicado quando a matriz é exposta à luz ultravioleta. Nesse momento, a imagem das barras reluzentes do DNA – os genes amplificados – é capturada.

Feito! Agora basta digitalizar a imagem e produzir a tela de acordo com a customização do cliente. A impressão é realizada em papel de fibra de algodão, considerado no meio das artes plásticas um suporte de alta qualidade.

Uma vez recebida a amostra de saliva, o processo até o envio do quadro leva duas semanas. O custo varia, pois é possível fazer arte com o DNA de até quatro pessoas. Essa opção é a mais cara: R$ 2.390. Quem quiser a imagem do DNA de apenas uma pessoa pagará R$ 990.

Rehen tem quadro na parede de sua casa com dois DNAs: o dele e o de sua mulher (R$ 1.590). Segundo o biólogo, outras quatro telas já foram encomendas e estão sendo produzidas. Autorretrato do nosso tempo?

Assista, em inglês, a cenas de um episódio da série de televisão CSI. A trama gira em torno de uma tela com o DNA da suspeita


Thiago Camelo
Ciência Hoje On-line