Ciência na tv

Alguém gastaria seu tempo livre assistindo vídeos sobre teoremas matemáticos ou comidas apodrecendo? “Depende da maneira de contar”, disseram os palestrantes do Seminário Internacional de Ciência na TV em entrevista exclusiva à CH On-line.

O produtor executivo da BBC, o britânico Paul Overton, e o apresentador da série Isto é matemática, o lusitano Rogério Martins, vieram ao Brasil a convite da mostra Ver Ciência para falar sobre suas experiências em contar boas histórias científicas pela televisão.

É curioso notar o contraste entre os dois profissionais. Eles simbolizam mundos muito distintos. De um lado, temos a BBC – com grandes equipes, tecnologia de ponta, uma referência mundial em comunicação. Os documentários de ciência para TV feitos pela BBC estão entre as melhores produções do gênero.

Um dos segredos é apresentar o tema de maneira dinâmica e divertida. E, sempre que possível, por meio de situações reais que acontecem na vida do espectador

De outro, temos um quase anônimo – que, com produções quase caseiras, também chega a resultados de excelente qualidade e notável impacto. A série portuguesa Isto é matemática, apresentada por um entusiasmado professor universitário descoberto em um show de talentos e transmitida pelo canal SIC Notícias, faz enorme sucesso fora da sala de aula.

Segundo ambos, um dos segredos é apresentar o tema de maneira dinâmica e divertida. E, sempre que possível, por meio de situações reais que acontecem na vida do espectador.

“Outra dica é ser honesto na criação dos roteiros”, afirmaram eles. “Se você acha algo curioso, mas não acredita na explicação, por que espera que o público acredite?”, indagou Overton.

Para ele, um dos segredos para o sucesso dos programas de ciência da BBC é aliar bons conteúdos com uma narração carregada de tensão. O drama central da narrativa é o que mantém o espectador atento, sempre se perguntando “e agora?”.

Assista ao trailer de um dos documentários de ciência para TV feitos pela BBC

Em seus programas, Martins também usa a estratégia de aliar conteúdos interessantes sobre ciência com uma narração dinâmica. O cenário das histórias geralmente é Lisboa; e cenas cotidianas com pessoas comuns são o plano de fundo para explicações dinâmicas e divertidas sobre matemática.

Veja um episódio da série portuguesa Isto é matemática

Embora os programas da BBC possam ser o sonho de muitos apresentadores, o programa português é um ótimo exemplo de como é possível produzir programas de ciência interessantes com pouquíssimos recursos.

“Não é raro que nossa equipe seja confundida com um pequeno grupo de turistas brincando no meio da rua”, contou Martins.

Ciência contada por cientistas

Uma das fórmulas de sucesso em divulgação científica é quando um cientista bem articulado dedica-se à popularização do conhecimento.

Antes de ser contratado como apresentador de TV, Martins era professor universitário e pesquisador. “Para mim, não foi exatamente uma novidade falar de maneira acessível sobre um tema de que gosto; sempre tive o prazer de contar histórias nas minhas aulas.”

Pesquisadores falando diretamente ao público, por meio de um programa de TV, por exemplo, ajudam a naturalizar a figura caricata que muitas pessoas ainda têm dos cientistas e da ciência.

O interesse dos cientistas pelos assuntos que pesquisam pode ser, em muitos casos, contagiante – ao ponto de transformar temas complexos em entretenimento palatável.

Programas apresentados por cientistas, como Cosmos – uma viagem pessoal (Carl Sagan) e Life on Earth (David Attenborough), fazem sucesso há mais de 30 anos e ainda hoje são exibidos na TV.

Confira episódio do documentário Afterlife, da BBC

Sobre a iniciativa de cientistas produzirem seu próprio material de divulgação, Overton contou um interessante caso: “Um de nossos episódios só foi possível graças a filmagens realizadas por uma cientista que estudava erupções vulcânicas no Congo”, disse. “Teria sido muito difícil enviar nossas grandes equipes de filmagem para lá; foi uma surpresa ver como a própria pesquisadora fez imagens incríveis!”

Caetano Dable
Especial para CH On-line/ RJ