Contadores de história (da ciência)

“Vetor, empuxo, despreze o atrito aqui, considere o atrito ali!”. Vida de professor de física não é fácil, tudo bem. Mas de aluno também não: muitas vezes para se entender uma teoria ou resolver um exercício é necessário muita abstração. Afinal, pense na vida do estudante que precisa fazer contas imaginando uma seta empurrando um quadradinho que pode – ou não – sofrer resistência da superfície, da gravidade e de outras forças mais.

Foi com este espírito de relativizar e tentar entender a vida do aluno que, em 1993, surgiu o Grupo Teknê. Professores interessados não só em ensinar física, mas em contextualizar a disciplina filosófica e historicamente. Em longa conversa com o Alô, Professor, dois dos fundadores do grupo, Andreia Guerra e Marco Braga, explicaram em detalhes como acontecem as aulas e por que acreditam que o ensino da história da ciência desperta a curiosidade pela disciplina e, com isso, forma melhores alunos.

Assista ao vídeo abaixo com o depoimento dos dois professores:

 

Interesse comum pela educação surgiu na faculdade

Os fundadores do Teknê se conheceram quando cursavam a faculdade de física, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Era meados da década de 1980 e já ali Andreia, Braga e outros colegas de licenciatura perceberam que o ensino da matéria poderia ser mais interessante do que as aulas que estavam aprendendo a dar na universidade ou, mesmo, aquelas que tiveram nos colégios onde estudaram. Começaram a se reunir e a traçar ementas que abarcassem o ensino tradicional da física, mas enxergaram além: criaram um panorama em que a física servia de pano de fundo para entender um mundo maior, partilhar a história, filosofia, arte, política e cultura da época em que foram criadas determinadas teorias ou invenções.

“Parece que há uma dicotomia entre o que o aluno vê em casa em revistase séries de TV e o que ele lê na escola.”

Nascia, assim, uma missão para a vida desses professores, ideia que carregam até hoje: estudar e se especializar no ensino de história e filosofia da ciência. “Parece que há uma dicotomia entre o que o aluno vê em casa em revistas e séries de TV e o que ele lê na escola: esse nosso trabalho é para mostrar que não estamos falando de coisas dicotômicas, que estamos falando sobre a mesma física”, explica Andreia Guerra, que dá aula de física no ensino médio do Cefet e no Colégio de São Bento, ambos no Rio de Janeiro.

Contadores de história
Primeiro livro do Grupo Teknê, lançado em 1997. A ideia era contextualizar filosófica e historicamente para os alunos as teorias de Galileu Galilei.

O “método Teknê” foi sendo testado em sala de aula e elaborado em discussões semanais entre os professores. Logo, houve a necessidade de colocar aquilo que estavam ensinando aos alunos no papel. Saía, em 1997, a primeira série de livros de história da ciência voltada para os estudantes, com o título Galileu e o nascimento da ciência moderna.

Daí em diante o voo aconteceu. Foram mais sete livros para alunos, aulas lotadas para professores interessados no método na UFRJ  e mais uma coleção de cinco livros – agora para professores – chamada Breve história da ciência moderna.

“Nas nossas aulas, avançamos no tempo e no currículo de física, que tradicionalmente acaba na metade do século 19; talvez seja a matéria mais atrasada de todo currículo escolar”, conta Marco Braga, que dá aula no Cefet e no Colégio Santo Agostinho, também no Rio de Janeiro.

Avançar no currículo de física exigido no vestibular, mostrar filmes, pinturas, apresentar livros, tentar ser multidisciplinar sem perder o foco na física: Braga e Andreia revelam um pouco do segredo de suas aulas. E, mais que isso, deixam escapar uma satisfação. Agora, com o curso de Pós-graduação em Ensino de Ciência e Matemática que dão no Cefet, eles enxergam novo horizonte para o Teknê: “Ensinamos história da ciência no curso e os primeiros filhotes-professores estão nascendo e aplicando os métodos com os seus próprios alunos”, diz, com indisfarçável ânimo, Marco Braga.

 

Leia mais:

Artigo: A história da ciência no processo ensino-aprendizagem [PDF], por JoãoRicardo Quintal e Andreia Guerra de Morares. Revista A Física naEscola. Maio/2009.

Resenhas na CH On-line sobre os volumes 1, 2 e 3 da coleção Breve história da ciência moderna


Thiago Camelo
Ciência Hoje On-line