Festa no cariri

Dotada de um verde exuberante em meio ao semiárido nordestino, a cidade de Santana do Cariri é conhecida como a capital cearense da paleontologia. O título cai muito bem a esse município do sul do Ceará, localizado na base da chapada do Araripe, região de importante valor paleontológico mundial: lá há um fóssil para cada dois habitantes.

Mas não é pela quantidade que a região leva fama, e sim pela qualidade. Nesse território afloram rochas do período Cretáceo (de 145 milhões a 65 milhões e 500 mil anos atrás) que revelam fósseis em excelente estado de conservação, como esqueletos de animais intactos e até suas partes moles. Esse grau de preservação deve-se ao fato de os animais terem sido soterrados em um processo muito rápido por meio da deposição de um mineral chamado calcita, que forma uma espécie de cimento em rochas sedimentares.

O grande destaque da coleção do museu – e da região em si – são os pterossauros. Santana do Cariri é conhecida como o berço desses animais

Parte da riqueza paleontológica da região está preservada e acessível ao público no Museu de Paleontologia de Santana do Cariri, que completou 25 anos em julho. A instituição abriga duas mil peças encontradas na bacia sedimentar do Araripe, entre plantas e animais de pequeno, médio e grande porte.

O grande destaque da coleção do museu – e da região em si – são os pterossauros. Santana do Cariri é conhecida como o berço desses animais: 21 dos 25 fósseis completos dessa ordem já descobertos no mundo foram encontrados lá.

Fragmentos ósseos de uma das mais antigas famílias de pterossauros, a Tapejaridae, estão expostos no museu. Por causa do crânio mais curto e do bico voltado para baixo, os paleontólogos acreditam que o animal se alimentava de frutos. Além do Araripe, a família só foi encontrada na China, onde provavelmente se originou.

Fósseis de pterossauro
Os fragmentos de um pterossauro da família Tapejaridae estão expostos no museu, junto com outras espécies desses répteis voadores. (foto: Museu de Paleontologia URCA)

Mas a coleção não se restringe aos pterossauros. “A exposição é bastante variada, com trinta espécies de peixes, arraias e tartarugas, além de gastrópodes, plantas e insetos”, conta o sociólogo Plácido Cidade Nuvens, fundador do museu. “Também temos penas, algumas tão grandes quanto rabos de pavão, mas não temos dados concretos de que espécies elas são.” O pesquisador acredita que algumas dessas penas tenham pertencido a pterossauros.

Outro destaque do museu é o Santanaraptor placidus, animal de pequeno porte conhecido por um único espécime que teve seus fragmentos de ossos e tecido mineralizado coletados na região. Os fósseis desse dinossauro estão expostos junto com uma réplica do seu esqueleto.

Fonte de conhecimento

A ideia de criar o museu surgiu quando Plácido Nuvens era prefeito de Santana do Cariri. Na tentativa de preservar e divulgar os fósseis descobertos na chapada do Araripe, ele resolveu adaptar um antigo chalé existente na cidade para receber as peças. “A iniciativa surgiu no âmbito da programação do centenário da cidade, com o objetivo de construir um memorial que ultrapassasse os limites dessa comemoração”, conta.

Desde então, o museu tem uma ligação muito direta com as escavações da Bacia Sedimentar do Araripe. “Tudo o que é descoberto ali fica na nossa reserva, onde passa por processos de limpeza datação e estudos. Depois, algumas peças seguem para o acervo do museu”, explica Nuvens.

Tronco petrificado
O museu também expõe fósseis de plantas, como esse tronco petrificado de um pinheiro. (foto: Museu de Paleontologia URCA)

O museu faz parte da Universidade Regional do Cariri. “Durante a cerimônia de inauguração, a prefeitura doou o museu para a universidade, que possuía alguns fósseis na época, mas não tinha cursos de geologia ou paleontologia”, conta Nuvens. O objetivo da integração foi incentivar a exploração do conhecimento dentro das duas instituições e dar à universidade subsídios para seu desenvolvimento intelectual.

Os fósseis da universidade, no entanto, não foram integrados ao museu. As primeiras peças do acervo da instituição foram doadas por escavadores clandestinos e pela arquidiocese de Fortaleza. “Não sabemos quantos fósseis chegaram naquela época, contratamos estudiosos para fazer a seleção dos exemplares mais bonitos e só depois da primeira exposição começamos a contar”, lembra o sociólogo. Os últimos fósseis a completar a primeira exposição vieram das escavações feitas durante estudos da chapada do Araripe.

A todo vapor

Desde a sua inauguração, o número de visitantes do museu só aumentou. Hoje, a média é de 25 mil por ano. “Muitos universitários do Nordeste vêm aqui para estudar”, diz Nuvens, que atualmente é coordenador geral do museu. “Durante o final de semana é uma loucura, recebemos até catorze excursões escolares em um único dia.”

Hoje o museu recebe em média 25 mil visitantes por ano

Além de manter o acervo permanente, o museu também promove semestralmente cursos de capacitação de profissionais das áreas de geologia, paleontologia e estratigrafia.

A instituição recebe ainda exposições temporárias, com duração média de dois a três meses. Até 25 de novembro, data do aniversário de Santana do Cariri, está em cartaz uma mostra com todos os fósseis de pterossauros retirados da chapada do Araripe.

Camille Dornelles
Ciência Hoje On-line