‘sleep dealer’, racismo e nós mesmos

Por indicação de colega, assisto (tardiamente) ao filme de ficção científica Sleep dealer, do diretor Alex Rivera (roteiro deste e de David Riker). Não é novo. Coisa de 2008. Produção francesa. A obra ainda não foi lançada no Brasil.

Os mexicanos executam tarefas como controlar máquinas ou mesmo tomar conta de crianças

A ideia central me pareceu ótima. No futuro, os norte-americanos mantêm a mão de obra dos mexicanos (para eles, chicanos), mas não a presença destes. Esses latinos agora são mantidos em baias, no México, de onde executam tarefas como controlar máquinas ou mesmo tomar conta de crianças. 

Para isso, os chamados sleep dealers devem ter, enxertadas ao corpo, entradas para cabos de conexão, como aquelas em que se espetam os pendrives nos computadores. Feitas as devidas conexões, esses trabalhadores passam a exercer, de seu país, suas funções lá nos Estados Unidos.

O lado norte-americano não é mostrado no filme – mas imagino que, para um povo que é treinado, desde a mais tenra idade, para ver, na diferença, uma ameaça, uma solução sleep dealer seria bem razoável.

 

Assista ao trailer do filme (em inglês)

O tema de Sleep dealer é atual. Vejamos:

Assisto, em jornal na TV, que time de futebol de meninas brasileiras na Suíça (Suécia, talvez) é xingado de “macacas” (detalhe: são todas brancas!) quando joga fora de sua cidade, e a torcida adversária atira bananas no campo quando elas jogam.

Um colega físico viveu na Espanha. Ele me diz que lá qualquer problema na sociedade espanhola, no final das contas, acaba sendo culpa do imigrante ou do filho deste.

A direita radical, com discurso xenófobo, está ganhando espaço na Europa. Faturou as últimas eleições na França e faz carreira promissora na Bélgica e até na Holanda.

O Brasil faz passar resolução na ONU contra o racismo no futebol; e a Fifa diz que promoverá atos contra o racismo na Copa (soa tão atual, anódino e deslocado quanto “ONU e Fifa irão combater a queima de bruxas nas fogueiras”).

Na Itália, dá nojo quando as torcidas de futebol começam a manifestar atitudes racistas.

No Japão, os trabalhadores brasileiros são tratados com tremenda intolerância (certa vez, li que, quando brasileiros entravam em supermercados, alguém anunciava a chegada deles ao estabelecimento, com medo de possíveis furtos).

Resumo: eles nos odeiam – “nos”, no caso, somos os latinos, africanos etc., ou seja, pobres e diferentes em geral. Quando puderem, se livram de nós, gente, para eles, malcheirosa, desdentada, suspeita, bandida – na Espanha, nós brasileiros ou somos traficantes, ou somos putas (ou ambos). Na última vez em que estive em Portugal, percebi que aquele clima de ‘pátrias irmãs’ já havia ido pelo ralo.

Tolerância não existe. Eles fingem nos suportar, porque a lei os impede de nos expulsar ou linchar. Quando puderem, será um tipo de Pol Pot II – a missão. Mas, em vez de gente que usa calçados, óculos e fala mais de uma língua, será o massacre ou expulsão do imigrante e de sua família.

Tolerância não existe. Nem aqui. Uma das coisas que mais me chocam no Brasil é a falta de respeito com o trabalhador nordestino, geralmente humilde. ‘Paraíbas’, no Rio; ‘baianos’, em São Paulo… escolha seu preconceito. O tal brasileiro cordial é farsa. Das grandes.

Somos um povo de merda. A última versão do Big Brother Brasil recebeu mais de 150 milhões de votos para eleger um vencedor homofóbico e machista ao extremo. Nas palavras de Ricardo Boechat, semana passada na Band News FM, “somos isso aí”. O brasileiro elegeu a si mesmo: intolerante, homofóbico, machista e ignorante.

Somos um país de merda. Em que situação demos milhões de telefonemas para resolver um problema da violência, da educação ou da saúde.

Axioma: todo preconceito é baseado em ignorância; a pior das ignorâncias é o o racismo.

Também sou intolerante. Sou de opinião de que deveríamos ser (muito) intolerantes com nazistas e racistas, por exemplo.

Quanto aos chatos (entre os quais me incluo), precisamos só de paciência.


Cássio Leite Vieira
Ciência Hoje / RJ