A sempre atenta The Scientist traz texto cuja essência é resumida na seguinte questão: pornografia seria boa para a sociedade? O autor é Milton Diamond, professor do Departamento de Anatomia, Bioquímica e Fisiologia da Universidade do Havaí (Estados Unidos).
Ele escreve que poucos trabalhos ainda tentam entender a relação entre disposição de pornografia e comportamento antissociais e crimes sexuais. A grande maioria desses estudos não aponta relação casual entre esses dois fatores.
Ou seja, a exposição à pornografia não leva à criminalidade ou comportamentos considerados anormais. Diamond cita dados intrigantes: de 1975 a 1995, nos Estados Unidos, o número de estupros diminuiu nas faixas etárias de 20 a 24 anos e 35 a 34 anos (justamente, diz ele, quem mais usa a internet).
Cita estudo que classifica como bem-feito: nas décadas de 1970 e na seguinte, na Dinamarca, Suécia, Alemanha Oriental e nos Estados Unidos, à medida que a disponibilidade de pornografia aumentou, o número de estupros caiu. Ele segue: estudos posteriores no Japão, na Croácia, Polônia, Finlândia e República Tcheca corroboraram essa relação.
E mais surpreendente: em países que permitem a posse de pornografia infantil, os abusos contra crianças vêm diminuindo. Outros dados citados: estupradores e pedófilos parecem usar menos pornografia que homens não criminosos. Porém, para esta coluna, a relação mais intrigante (e reveladora): há alta relação causal direta entre crimes sexuais e educação religiosa repressiva.
Diamond também cita resultados que mostram que homens que assistiram a filmes pornográficos parecem ser mais tolerantes com as mulheres. Diamond é enfático: não há evidência de relação entre exposição à pornografia e abusos ou crimes contra mulheres.
Dados extras: a pornografia movimenta cerca de US$ 4 bilhões/ano nos Estados Unidos, país em que são feitos cerca de 10 mil filmes pornográficos/ano; um quarto dos usuários da internet baixa pornografia; em setembro de 2003, 9,4 milhões de mulheres norte-americanas acessaram sítios pornográficos.
Para quem acha que pornografia deveria ser ilegal, Diamond relata estatística que dá o que pensar: nos Estados Unidos, um em cada 138 residentes está preso; se pornografia se tornasse ilegal, haveria mais gente nas cadeias do que fora delas. O texto de Diamond é adaptado de artigo de revisão publicado em International Journal of Law and Psychiatry. Vale a leitura.
Cássio Leite Vieira
Ciência Hoje / RJ
[Publicado originalmente na edição 271, na seção Mundo de ciência]