Mal de Chagas: a misteriosa doença de Darwin?

Bem-vindos a 2009! Duas vertentes principais dominarão o cenário comemorativo das ciências biomédicas este ano: por um lado o bicentenário do nascimento de Charles Darwin (1809-1882) e os 150 anos de publicação da Origem das espécies e, por outro, os 100 anos da descrição por Carlos Chagas da doença que hoje leva o seu nome.

A comunidade científica brasileira já está aquecendo as turbinas para celebrar ambas as efemérides com pompa e circunstância. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz, da qual Carlos Chagas foi presidente) organiza um grande simpósio internacional para julho (ver figura) e, em agosto, o Brasil sediará o Encontro Internacional de Protozoologia. Com relação a Darwin, dezenas de conferências e simpósios ocorrerão em todo o país ao longo de 2009.

Página inicial do histórico artigo de 1909 de Carlos Chagas intitulado “Nova tripanossomíase humana”. O logo acima é do simpósio internacional que a Fundação Oswaldo Cruz realizará em julho de 2009 (clique na imagem para ampliá-la).

Ao contemplar as carreiras de Darwin e Chagas, alguns incautos poderiam imaginar que os festejos internacionais do primeiro poderão eclipsar os do segundo. Mas a história da ciência não é uma competição, como um concurso de beleza. Cada cientista deve ser avaliado e valorizado em sua área. Mais darwinianamente falando, cada macaco em seu galho!

O genial Carlos Chagas
A descoberta do mal de Chagas pelo médico nascido em Oliveira, Minas Gerais, foi um exemplo primoroso de como fazer ciência. Nunca antes na história da medicina um mesmo pesquisador, em um curto período de tempo, descrevera uma nova doença infecciosa, descobrindo também seu agente etiológico (Trypanosoma cruzi) e caracterizando toda sua história natural, inclusive com a identificação do vetor (o barbeiro) e dos reservatórios silvestres.

A publicação de Carlos Chagas teve enorme impacto internacional e, em 1921, ele foi o único concorrente ao Nobel de Medicina, havendo expectativa de que fosse laureado. Só havia um obstáculo entre Chagas e o Nobel: seus colegas brasileiros. Dentro do próprio Instituto de Manguinhos (da Fiocruz) e da Academia Nacional de Medicina havia indivíduos invejosos que formaram um batalhão “anti-Chagas”.

Há evidências de que esses elementos agiram nos bastidores para minar a candidatura do cientista mineiro, inclusive argumentando que a doença descrita por ele não existia. É especialmente significativo que em 1921 ninguém tenha recebido o Nobel de Medicina. Para saber mais detalhes desse imbróglio, clique aqui.

O nexo Darwin-Chagas
As vertentes de uma montanha se encontram no cume. Há um evento concreto que une Darwin e Chagas (além do fato de ambos terem o nome Carlos). Vamos lá.

De 1831 a 1836, Charles Darwin participou de uma expedição cartográfica ao redor do mundo, viajando como naturalista convidado no veleiro Beagle, da marinha inglesa. Em 1834 o navio chegou ao Chile, ali permanecendo por um ano, mapeando detalhadamente toda a sua costa. Com tempo de sobra, Darwin fez uma série de incursões terrestres pela região, inclusive uma à província de Mendoza, na Argentina, em março de 1835.

Frontispício do exemplar da biblioteca do colunista do diário de Darwin em sua viagem de volta ao mundo a bordo do navio Beagle. Esse volume, de 1890, é baseado na versão corrigida e aumentada de 1845, que foi publicada com um título diferente da 1ª edição de 1839: Journal of researches into the natural history and geology of the countries visited during the voyage of H.M.S. “Beagle” round the world under the command of Capt. Fitz Roy, R.N. (clique na imagem para ampliá-la).

Darwin registrou todas as suas viagens em um célebre livro publicado em 1839 e comumente chamado de The voyage of the Beagle (Viagem do Beagle) – em verdade, a obra tinha o quilométrico título de Narrative of the surveying voyages of His Majesty’s Ships Adventure and Beagle between the years 1826 and 1836, describing their examination of the southern shores of South America, and the Beagle’s circumnavigation of the globe. Journal and remarks. 1832-1836, III. Assim ele descreveu os eventos da noite de 25 de março de 1835 (minha tradução):

“Dormimos no vilarejo de Luján, que é um lugar pequeno e cercado por jardins e forma a parte cultivada mais austral da província de Mendoza; está localizada a cinco léguas ao sul da capital. À noite, sofri um verdadeiro ataque (pois este é o nome que merece) de benchucas, uma espécie de Reduviídeo, o grande percevejo preto dos Pampas [ver figura]. É uma sensação revoltante sentir esses insetos macios, sem asas, com cerca de uma polegada de comprimento, caminhando sobre o nosso corpo. Antes de sugar eles são bem magros, mas após [se alimentarem] eles se tornam arredondados e inchados com sangue e, nesse estado, são facilmente esmagados. Um, que eu capturei em Iquique (pois eles também são encontrados no Chile e no Peru), estava bem vazio. Quando colocado em uma mesa, se um dedo era apresentado o inseto imediatamente fazia a protrusão de sua probóscide, atacava e, se permitido, sugava sangue.”

O inseto ao qual Charles Darwin se referia como benchuca (o nome mais usado na Argentina hoje em dia é vinchuca) é o mesmo que chamamos no Brasil de barbeiro, o vetor do Trypanosoma cruzi. O episódio relatado indica que Darwin foi picado na Argentina e possivelmente também no Chile. Poderia ele ter assim contraído a doença de Chagas?

A misteriosa doença de Darwin
Em 1841, cinco anos após seu retorno à Inglaterra, Darwin começou a manifestar sintomas cardíacos e gastrointestinais que pioraram até mantê-lo praticamente recluso em sua residência rural (Down House) no condado de Kent. Em cartas a amigos ele frequentemente queixava-se de palpitações e lassidão, acompanhadas por tremores, vômitos, às vezes diários, e flatulência. Ele consultou os maiores médicos da Inglaterra na época, sem que qualquer diagnóstico fosse estabelecido. Darwin faleceu aos 73 anos de idade com insuficiência cardíaca.

Triatoma infestans, o principal vetor do Trypanosoma cruzi no Brasil, onde é chamado de barbeiro, e na Argentina, onde é chamado de vinchuca. Darwin relata em seu diário que em 1835 foi picado por vários desses insetos que ele chamou de “benchuca, o grande percevejo preto dos Pampas”.

Diversos autores modernos tentaram fazer um diagnóstico retrospectivo em Darwin e sugestões foram feitas de problemas psicossomáticos, intolerância à lactose e doença de Crohn. Em 1959, no centenário da Origem das espécies, o parasitologista Saul Adler, russo radicado em Israel, propôs na revista Nature que os sintomas de Darwin eram devidos à doença de Chagas.

A hipótese levantada por Adler foi baseada em dois pontos principais: (1) houve uma oportunidade clara de infecção pelo Trypanosoma cruzi no episódio de Luján em 1835 e (2) os sintomas apresentados por Darwin eram compatíveis com a doença de Chagas, que pode acometer tanto o coração quanto o sistema digestivo (esôfago e intestino grosso).

Há, entretanto, elementos contrários à hipótese. A meu ver, o principal deles é que Darwin teve apenas um contato bem documentado com barbeiros, enquanto há evidências de que vários contatos são necessários para que uma pessoa seja infectada. Outro grande médico tropicalista mineiro – Aluízio Prata – citou em uma revisão sobre a doença de Chagas que a probabilidade de infecção humana por contato único com um reduviídeo infectado existe, mas é de apenas uma chance em mil (0,1%).

É provável que fiquemos no território das especulações e que não saibamos nunca se Darwin teve ou não a doença de Chagas. Mas a mera possibilidade já cria uma ligação entre ele e Carlos Chagas, ambos grandes homens da ciência, nossos homenageados nesta primeira coluna de 2009! 


Sergio Danilo Pena
Professor Titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia
Universidade Federal de Minas Gerais
09/01/2009

 

Matéria publicada em 09.01.2009

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