Quem é o Grande Irmão?

Li recentemente que, depois de Edward Snowden, ex-funcionário da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA, sigla em inglês), ter vazado informações  sobre programas de inteligência do país, a venda de exemplares do livro 1984, de George Orwell, cresceu mais de 7.000% no site da Amazon.

Achei curioso. Não pela relação, algo óbvia, entre o best-seller escrito em 1948 e publicado pela primeira vez, coincidentemente, no dia 8 de junho, quando estourava o escândalo, e o evento do mês. Afinal, 1984 é justamente a história de uma sociedade na qual o controle total é exercido pelo Grande Irmão, o Big Brother.

Nós mesmos alegremente abrimos mão da nossa privacidade, continuando a usar os serviços dos gigantes da internet. Ou você viu por aí alguém protestando contra o uso do gmail?

Embora inspirado diretamente nos regimes totalitários das décadas de 1930 e 1940, no livro, a história se passa em uma sociedade liberal-democrática, na qual Winstom Smith, o personagem principal, representa o cidadão comum vigiado o dia inteiro pelas teletelas e pelo Partido.

No romance, Smith sabe que toda atitude suspeita é passível de denúncia à Polícia do Pensamento e que qualquer ato considerado dissidente pode originar uma denúncia. O que Snowden está mostrando é que, ao usar serviços de empresas como o Skype, o Google (“don’t be evil”), o Facebook e a Verizon (esta última, empresa de telefonia norte-americana), nossas conversas podem ser ouvidas em tempo real, nossos e-mails podem ser lidos, nossas ligações telefônicas podem ser rastreadas. A diferença é que ninguém precisa denunciar. Nós mesmos alegremente abrimos mão da nossa privacidade, continuando a usar os serviços dos gigantes da internet. Ou você viu por aí alguém protestando contra o uso do gmail?

Big Brother
Cartaz do Grande Irmão (Big Brother), personagem que exerce controle total sobre a sociedade no romance distópico de George Orwell, ‘1984’. No livro, o protagonista Winstom Smith representa o cidadão comum vigiado o dia inteiro pelas teletelas e pelo Partido. (imagem: reprodução)

Ironias da história

Orwell imaginou um mundo de vigilância total, mas ele mesmo viveu uma realidade totalmente diferente desta. Ao mesmo tempo em que publicava 1984, Orwell mandava sua própria lista de suspeitos de comunismo a sua amiga Celia Kirwan, que trabalhava no Information Research Department (IRD) do Foreign Office inglês. A lista contém 38 nomes de jornalistas e escritores que, segundo sua opinião, “eram cripto-comunistas” ou simpatizantes.

Claro que, como todo texto tem seu contexto de produção, a lista de Orwell também tem sua época. Ele era um importante liberal antissoviético e, em 1949, muito doente, quatro anos depois da publicação de seu libelo A revolução dos bichos, estava convencido de que a Inglaterra e os demais países ocidentais perderiam a guerra ideológica contra a União Soviética. O que, evidentemente, não o desculpa. Ainda mais ao sabermos que seu caderninho de anotações continha várias outras observações, como as variações pejorativas do termo “judeu” (“judeu polonês”, “judeu inglês”), chegando mesmo a se perguntar se Charlie Chaplin seria um deles (não era).

A lista e o caderninho de Orwell só tornam mais irônico o fato de ter se tornado, post mortem – ele faleceria no início de 1950 –, o símbolo da independência política e da defesa da liberdade de pensamento contra os excessos de qualquer Estado. Quem lê 1984 hoje, “um livro péssimo”, segundo o já bastante deprimido Orwell, procura essa reflexão.

Na era da conexão total, nós nos tornamos informantes de nós mesmos

Mas irônico mesmo é saber que Orwell foi genial ao imaginar e descrever uma sociedade que ele de fato não chegaria a conhecer, mas não teria como antever que seu caderno de anotações e suas listas de suspeitos seriam hoje desnecessários: na era da conexão total, nós nos tornamos informantes de nós mesmos.

Em tempo: a lista de Orwell pode ser consultada no Arquivo Nacional inglês, em Londres, arquivada sob o número FO 1110/189. Um bom texto sobre o assunto foi escrito por Timothy Ash na revista New York Review of Books, em 2003.

Keila Grinberg
Departamento de História
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

Matéria publicada em 21.06.2013

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