Levitação brasileira

Quando o assunto é transporte público no Brasil, é difícil encontrar boas notícias. Mas aqui temos uma: entrou em fase de testes ontem (01/10) o primeiro trem de levitação magnética desenvolvido com tecnologia nacional. É o Maglev-Cobra.

Trata-se de um veículo que, em vez de rodas, usa um sistema de levitação. Vantagens: não há atrito entre as estruturas, o movimento é silencioso e os trilhos podem ser bem mais leves do que os usados para sustentar trens convencionais.

Trata-se de um veículo que, em vez de rodas, usa um sistema de levitação. É como se o Maglev-Cobra flutuasse no ar

É como se o Maglev-Cobra flutuasse no ar. “Imagine dois ímãs que se repelem: é essencialmente esse o princípio de funcionamento da tecnologia de flutuação magnética”, explica o coordenador do projeto, o engenheiro Richard Stephan, do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Mas não é tão simples assim. Na verdade, não estamos falando da repulsão entre dois ímãs; e sim da repulsão entre um ímã – presente no trilho – e um material supercondutor – incorporado à estrutura principal do novo veículo.

“A levitação acontece porque esse supercondutor tem uma interessante propriedade, que é a capacidade de espelhar campos magnéticos e assim simular a ação de um ímã”, diz Stephan.

Supercondutividade voadora

Afinal, que material supercondutor é esse? Estamos falando de uma cerâmica – composta por ítrio, bário e cobre. “A repulsão entre dois ímãs tende a ser muito instável, enquanto a repulsão entre um ímã e esse supercondutor é bastante estável”, diz o pesquisador da Coppe.

Já existem veículos de levitação magnética na Ásia, na Europa e na América o Norte. Mas eles usam tecnologias diferentes. “O que destaca o projeto da Coppe é exatamente o uso, para levitação, desse material supercondutor”, comenta Stephan. Segundo ele, o método é mais eficiente do que os usados atualmente pelos trens de levitação magnética em operação.

Além disso, os três elementos químicos usados na construção da cerâmica supercondutora – ítrio, bário e cobre – são abundantes no Brasil. “Ainda assim, no entanto, importamos o material já beneficiado”, lamenta Stephan.

“Temos não só as matérias-primas para a cerâmica usada em levitação; temos também a mão-de-obra qualificada e a tecnologia necessária para produzir esse supercondutor”, afirma o pesquisador. “Nossa organização social, industrial e política é tão retrógrada que repetimos os mesmos erros desde 1500”, completa ele, fazendo referência à prática histórica do Brasil de enviar matéria-prima ao exterior.

Assista a um vídeo sobre o Maglev-Cobra

Outra diferença em jogo é o fato de que a maioria dos trens de levitação magnética atuais é usada para transitar entre estações separadas por grandes distâncias – e podem, portanto, atingir velocidades de até 500 km/h. Já o Maglev-Cobra, concebido como um projeto urbano, deve movimentar-se com velocidades entre 70 km/h e 100 km/h.

Em tempo: a levitação do Maglev-Cobra não depende de eletricidade. Mas a movimentação dos vagões, sim. Um tipo de motor elétrico deve dar conta dessa tarefa. A emissão de poluentes durante a movimentação do novo veículo é zero.

Trem das onze

O início da fase de experimentação do Maglev-Cobra foi parte da programação da 22ª Conferência Internacional sobre Levitação Magnética, que este ano aconteceu no Brasil. Cerca de 60 pesquisadores brasileiros e estrangeiros percorreram a bordo do trem os 200 metros da linha experimental que conecta dois setores do Centro de Tecnologia da UFRJ, na ilha do Fundão (RJ).

Maglev-Cobra
O início da fase de experimentação do Maglev-Cobra foi parte da programação de uma conferência internacional sobre levitação magnética, que este ano aconteceu no Brasil. O trem transportou cerca de 60 pesquisadores por uma distância de 200 metros. (foto: Divulgação/ Coppe)

O Maglev-Cobra é fruto de um longo caminho de pesquisas – iniciado 15 anos atrás. Até o momento, cerca de R$12 milhões foram investidos. A maior parte do financiamento vem de instituições públicas. Mas também estão na empreitada as empresas OAS (interessada na parte de construção civil e infraestrutura); a Vallourec (com experiência em estruturas metálicas); a White Martins (dedicada à tecnologia de gases); a AkzoNobel (produtora de tintas especiais para superfícies de metal); e a WEG (que participa do desenvolvimento de dispositivos eletrônicos).

Os testes devem ser encerrados em 2015 – sem datas precisas em vista. Até lá, engenheiros discutem alguns ajustes finais. “Ainda podemos aperfeiçoar a parte de automação”, comenta Stephan. Além disso, a equipe da Coppe deve estudar questões concernentes à segurança e também se debruçar sobre processos de certificação da tecnologia.

Se o projeto for concluído com êxito – e se financiamento existir –, a ideia dos pesquisadores é construir uma rede de trens de levitação magnética para incrementar o transporte público no campus da UFRJ da ilha do Fundão. “Ainda é cedo, porém, para esse tipo de previsão”, ressalva Stephan. Somente após a conclusão de todos os testes é que governos e empresas poderão decidir pela adoção ou não dessa tecnologia em contextos urbanos mais abrangentes.

Equação do caos

É claro que uma tecnologia como o Maglev-Cobra traz consigo boas doses de otimismo para o país e para a comunidade científica em especial. Entretanto, o discurso tecnocrata deve ser visto com cautela. Afinal, o drama da mobilidade urbana – no Brasil e no mundo – requer soluções sociais e urbanísticas que transcendem o desenvolvimento isolado de uma tecnologia específica, seja ela qual for.

“O Maglev-Cobra surge como uma alternativa válida para cidades entupidas de carros”

“Trabalhamos para combater os problemas de uma equação complicada chamada ‘caos urbano’”, lembram os pesquisadores da Coppe, em texto disponível na página virtual do projeto. “O Maglev-Cobra surge como uma alternativa válida para cidades entupidas de carros.”

Segundo Stephan, a discussão é necessária para um mundo viciado em petróleo. “E em qualquer crise econômica que apareça, a primeira coisa que políticos fazem é diminuir impostos sobre automóveis”, diz.

Mais da metade da população mundial vive em aglomerados urbanos. E as previsões não animam: estima-se que, até 2030, mais de dois bilhões de automóveis estejam em circulação pelas cidades em todo o mundo. É o futuro sinistro dos centros urbanos que se avizinha.

Levitação magnética para toda obra
Não é só para trens mais eficientes que se pensa em levitação magnética. Essa promissora tecnologia também é usada em aplicações mecatrônicas – para evitar o atrito entre partes específicas no interior de equipamentos como rotores, por exemplo. É disso que trata, aliás, o livro Mancais magnéticos: mecatrônica sem atrito, publicado em 2013 pela editora Ciência Moderna.
Outro uso interessante da levitação magnética é em transporte vertical. Em outras palavras: elevadores. O conceito ainda é novo, mas grupos de pesquisa já desenvolvem protótipos que, em um futuro próximo, poderão ser aplicados nos edifícios que reinarão cada vez mais altos na paisagem cinzenta das grandes metrópoles.


Henrique Kugler

Ciência Hoje On-line

Matéria publicada em 02.10.2014

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