Nunca é tarde

Pais preocupados se apressam em ensinar uma segunda língua a seus filhos o mais cedo possível. Em parte, a corrida se deve à ideia de que a primeira década de vida seria um período crítico para a aquisição de um segundo idioma. Um estudo de pesquisadores ingleses pode dar certo alívio para quem perdeu essa fase de aprendizado. Eles mostraram que mesmo pessoas que aprenderam uma segunda língua tardiamente, a partir dos 10 anos, adquirem os benefícios cerebrais de ser bilíngue.

Estudos anteriores já tinham demonstrado que aprender uma segunda língua cedo, junto com a língua nativa, provoca alterações positivas em áreas do cérebro ligadas à linguagem, que passam a ser mais eficientes na transmissão do sinal elétrico. Pesquisadores da Universidade de Kent, na Inglaterra, buscaram ver se o mesmo ocorre quando o aprendizado se dá mais tardiamente.

Os cientistas olharam especificamente para a chamada substância branca, um conjunto de células responsáveis por tornar possível a transmissão de informação entre os neurônios

Para testar a hipótese, recrutaram 30 pessoas com cerca de 30 anos de idade que aprenderam o inglês como segunda língua por volta da primeira década de vida e passaram a usar o idioma ativamente depois de adultos, quando se mudaram para o Reino Unido.  

O cérebro dos voluntários foi analisado com técnicas de imagem. Os cientistas olharam especificamente para a chamada substância branca, um conjunto de células responsáveis por tornar possível a transmissão de informação entre os neurônios. 

Em comparação com um grupo de 25 nativos da língua inglesa monoglotas que também tiveram seus cérebros analisados, os voluntários bilíngues mostraram maior atividade nas regiões da substância branca relacionadas ao aprendizado de linguagem e processamento semântico – mesmo tendo exercitado a segunda língua com mais frequência somente na vida adulta. 

Estudantes
Os pesquisadores sugerem que a experiência imersiva em um ambiente onde se fala a segunda língua é decisiva para que a mudança cerebral ocorra. (foto: Valeer Vandenbosch/ Freeimages)

“Isso significa que os poliglotas transferem informação no cérebro de modo mais eficiente”, diz o psicólogo Christos Pliatsikas, autor principal do estudo, publicado hoje no periódico PNAS. “Sabemos que bilíngues precisam suprimir a sua língua nativa quando querem falar a segunda língua e vice-versa. Essa tarefa, não desempenhada pelos monoglotas, requer um sistema mais eficiente de transmissão de informação no cérebro que acreditamos que ocorre pela melhoria da substância branca, o que independe de o indivíduo ter aprendido o segundo idioma cedo.”

Essa capacidade de mudar de um idioma para outro requer o uso do chamado sistema de controle executivo do cérebro. Cientistas acreditam que, por ser exercitado com mais frequência, esse sistema fique mais fortalecido e decline mais tardiamente entre bilíngues. Um estudo publicado recentemente no periódico Neurology sugere, inclusive, que aprender uma segunda língua retarda em até quatro anos e meio o aparecimento da demência resultante do envelhecimento. 

 

Experiência imersiva 

Os pesquisadores sugerem que a experiência imersiva em um ambiente onde se fala a segunda língua é decisiva para que a mudança cerebral ocorra. “É improvável que esses efeitos sobre a substância branca sejam observados em bilíngues que não tiveram uma experiência imersiva”, comenta Pliatsikas. “Efeitos semelhantes só foram observados anteriormente em estudos que analisaram pessoas que estavam fazendo aulas de inglês e, mesmo assim, os efeitos não foram permanentes.”

O pesquisador não sabe ainda se a mudança na estrutura cerebral observada em seu experimento é permanente ou se ocorre somente quando o bilíngue está praticando a segunda língua ativamente. Mas avisa que já planeja conduzir estudos longitudinais, analisando pessoas bilíngues assim que elas chegam ao Reino Unido e a cada três anos para verificar quando o efeito ocorre. 

Por via das dúvidas, as viagens de intercâmbio se apresentam como um bom negócio para o cérebro!

 

Sofia Moutinho
Ciência Hoje On-line

Matéria publicada em 12.01.2015

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