O castigo de morfeu

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(arte: Tiago Carvalho)

“Não há nada como um dia após o outro, com uma noite bem dormida entre eles.” O ditado pode parecer desculpa de preguiçoso, mas deve ser seguido à risca por aqueles que desejam manter-se em forma, segundo indica uma pesquisa na Universidade de Chicago, nos EUA. Cientistas chegaram à conclusão de que dormir pouco causa alterações hormonais que podem levar ao ganho de peso.

As conclusões foram tiradas a partir da avaliação de 1024 pessoas, entre 30 e 60 anos, participantes do Wisconsin Sleep Cohort Study. Esse projeto foi iniciado em 1989 e busca, por meio de testes e entrevistas com voluntários, compreender melhor os distúrbios do sono e encontrar soluções para eles.

Os participantes do estudo sobre a influência da quantidade do sono no aumento do índice de massa corpórea tiveram seu sono monitorado por uma técnica chamada polissonografia, na qual eletrodos e sensores não-invasivos são ligados ao paciente enquanto dorme. Em seguida, amostras sangüíneas foram retiradas em jejum, para que os níveis de hormônios fossem testados. Além disso, os voluntários responderam a questionários sobre seus hábitos de sono.

Os pesquisadores mediram nas amostras de sangue a concentração de leptina, grelina, adiponectina, glicose, insulina e lipídios. A análise dos resultados mostrou que há uma relação de proporcionalidade entre a duração do sono e os níveis dessas substâncias.

“A leptina é um hormônio produzido no tecido adiposo que age principalmente no sistema nervoso central para inibir a fome e provocar a sensação de saciedade”, explica Clarissa Monteiro, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz. Essa substância atua também em outros tecidos ‐ nos músculos, por exemplo, ela estimula a produção de proteínas que aumentam o gasto energético. “Já a grelina é produzida no estômago e atua, no cérebro, nos mesmos locais que a leptina, só que de forma contrária, de forma a estimular a fome.”

Entre os pacientes monitorados, quando o tempo de sono foi curto, de 5 horas, os testes mostraram uma diminuição de 15,5% nos níveis de leptina e aumento de 14,9% nos níveis de grelina em relação ao tempo de sono de 8 horas. Estas alterações nos níveis de grelina e leptina são suficientes para levar a um aumento do apetite. E aí está a chave da relação entre o tempo que alguém dorme e o aumento de seu índice de massa corporal.

Os resultados indicam que um curto período de sono contribui para o aumento de apetite, que pode levar ao aumento de peso. Segundo os pesquisadores, nas sociedades onde há maior incidência de indivíduos com costume de dormir pouco, há também maior fartura de alimentos, o que fatalmente contribui para o aumento dos índices de obesidade nos grandes centros urbanos.

Isso significa que dormir pouco engorda? Os pesquisadores são cautelosos ao interpretar seus resultados. “Nossos resultados demonstram uma importante relação entre o sono e os hormônios metabólicos”, afirma a conclusão do estudo, publicado na edição de dezembro de 2004 da revista PLoS Medicine . “O efeito da falta de sono sobre o consumo de alimentos e a obesidade precisa agora ser explorado.”

Aline Boueri 
Ciência Hoje On-line
02/02/05