Vilã redimida

A agropecuária é apontada como uma das grandes vilãs das mudanças climáticas. De acordo com dados do Ministério do Meio Ambiente, o setor é responsável por 25% dos gases do efeito estufa lançados anualmente na atmosfera pelo Brasil. Mas a lavoura e a pecuária têm sua chance de redenção. Segundo estudo divulgado hoje pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a ampliação de sistemas agropecuários integrados em áreas desmatadas da Amazônia pode aumentar o estoque de carbono e garantir que o país cumpra sua meta de redução de emissões para a agricultura.

A agropecuária é responsável por 25% dos gases do efeito estufa lançados anualmente na atmosfera pelo Brasil

A conclusão é fruto de um levantamento que mediu a quantidade de carbono estocado no solo amazônico e o seu potencial para redução de emissões. De acordo com o trabalho, se sistemas que unem a pecuária, a lavoura e a floresta forem implantados em aproximadamente 110 mil km2 de território amazônico hoje já devastados, o país conseguirá reduzir cerca de 150 mil toneladas de suas emissões de carbono até 2020 – valor compatível com a meta estipulada pelo governo no plano Agricultura de Baixo Carbono (ABC).

A área indicada pelos pesquisadores para a adoção dos sistemas integrados parece grande, mas não se comparada ao total de regiões devastadas ocupadas por pastagens atualmente na Amazônia: 447 mil quilômetros quadrados, de acordo com dados do projeto Terraclass, da Embrapa e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Nesse tipo de manejo integrado do solo, a floresta, a lavoura e a criação de gado são associados de modo a obter um maior aproveitamento dos recursos. Uma das estratégias adotadas, por exemplo, é usar os resíduos da plantação para alimentar o gado e recuperar o solo esgotado dos pastos com o plantio de grãos e árvores.

Manejo integrado
Nos sistemas de manejo integrado do solo, gado, floresta e lavoura são associados em um só espaço para que haja um maior aproveitamento de recursos. (foto: Lourival Vilela/ Embrapa)

Além de aumentar a produtividade do negócio rural, esses sistemas ajudam a reduzir emissões e aumentar a absorção de carbono. “O manejo integrado do solo faz com que o gado tenha uma dieta melhor e se desenvolva mais rapidamente, assim o abate é menos demorado, o que diminui a emissão de metano provocada pelo processo digestivo dos animais”, explica um dos coordenadores do estudo, o engenheiro agrônomo Hilton Silveira Pinto, da Unicamp. “Além disso, a recuperação das áreas de pasto e o plantio de árvores capturam mais carbono.”

Cavando respostas

O trabalho mediu os estoques de carbono do solo amazônico em 68 pontos do Acre, do Pará, de Rondônia, de Roraima e de Tocantins. Para isso, os pesquisadores cavaram buracos de até 1,60m de profundidade em busca de raízes, que são eficientes absorvedores de carbono.

Os cientistas compararam o carbono acumulado em áreas de vegetação nativa, de pasto tradicional e onde foram implantados sistemas integrados de manejo. Em geral, o manejo integrado se mostrou mais eficiente para armazenar carbono que o pasto sozinho. No Pará, a pastagem convencional apresentou um estoque médio de 296 toneladas de carbono por hectare, enquanto o sistema integrado registrou 356 t/ha.

Brando: A floresta estoca mais carbono que as áreas de pasto e lavoura. Mas é possível que um sistema integrado consiga atingir um acúmulo considerável de carbono se bem estruturado

O ecólogo Paulo Brando, do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Ipam), que não participou do estudo, explica que, por ter raízes maiores, mais profundas e em maior quantidade, a floresta estoca mais carbono que as áreas de pasto e lavoura. No entanto, segundo o pesquisador, é possível que um sistema integrado consiga atingir um acúmulo considerável de carbono se bem estruturado.

“Normalmente, a floresta é mais eficiente em absorver carbono o ano inteiro, enquanto as pastagens, que têm raízes menores, quase não absorvem carbono durante a seca”, afirma. “Mas, com um manejo avançado, é possível estender um pouco esse período produtivo das pastagens, usando, por exemplo, fertilizantes que aumentem a capacidade das plantas de absorver carbono sem perder água.”

Para os autores do relatório, os resultados mostram que é preciso haver uma mudança imediata de paradigma, saindo de um modelo agropecuário extensivo e subaproveitado para a ampla implantação dos sistemas de integração pecuária, lavoura e floresta.

“Já é sabido que esses sistemas são vantajosos do ponto de vista econômico, agora apresentamos, pela primeira vez no Brasil, uma avaliação de carbono no solo que mostra também a sua eficiência ambiental e seu poder de contribuir para a redução de emissões”, diz Silveira Pinto. “Nossa esperança é que o manejo integrado seja cada vez mais ampliado.”

Crédito parado

Com o objetivo de incentivar o manejo integrado, o governo criou uma linha de crédito rural no programa ABC voltada especificamente para financiar essas estratégias. Mas o projeto não tem tido a repercussão esperada. A procura tem sido baixa, longe do número que seria necessário para recuperar as áreas de pasto degradado do país.

Agricultor
Os sistemas de manejo integrado do solo ainda encontram resistência entre pequenos e médios agricultores que carecem da assistência técnica necessária para sua implantação. (foto: Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo)

Para o engenheiro agrícola da Embrapa Eduardo Assad, um dos autores do levantamento de carbono na Amazônia, faltam investimentos financeiros e pessoal qualificado para que o projeto de crédito funcione.

“Ainda é um projeto precário”, diz o pesquisador. “Temos até visto uma importante movimentação do setor financeiro em busca de mecanismos mais eficientes para aplicação dos recursos da agricultura de baixo carbono, mas o grande problema está na formação do pessoal necessário para definir as tecnologias mais adaptadas e fazer os projetos para buscar o financiamento.”

O ecólogo Paulo Moutinho, diretor do Ipam, concorda e ressalta a necessidade de se criarem iniciativas mais eficientes voltadas para o pequeno e médio produtor rural. “Precisamos de uma política de baixo carbono que vá além do plano ABC, com recursos de longo prazo para que essas atividades sejam implementadas e, sobretudo, com assistência técnica”, pontua. “Ainda há certa resistência ao uso desses consórcios entre lavoura e pecuária e a assistência técnica é fundamental para que os pequenos produtores possam realmente adotar esses sistemas.”

Apesar das dificuldades, Assad é otimista. “O caminho é longo, mas temos a tecnologia, conhecemos os impactos das mudanças climáticas e a ciência brasileira é capaz de apresentar soluções”, diz. “A agricultura de baixo carbono é um dos melhores programas do mundo em mitigação de emissões de gases de efeito estufa se bem gerenciada.”

Sofia Moutinho
Ciência Hoje On-line

Matéria publicada em 25.03.2014

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