No calor dos acontecimentos

À primeira vista, o prêmio Nobel da Paz deste ano parece ter sido concedido no calor dos acontecimentos. E, de fato, foi mesmo – afinal, a atuação da laureada Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq) na Síria após a utilização desse tipo de armamento nos conflitos civis que tomam o país está em evidência. Porém, não foi fruto de uma escolha irrefletida. Pelo contrário, premia duas décadas de esforços pela desativação dos arsenais de destruição em massa e parece valorizar a atuação plurinacional e a resolução diplomática dos conflitos numa das regiões mais ‘quentes’ do mundo.

Criada em 1997, pouco tempo depois da entrada em vigor da Convenção sobre a Proibição de Armas Químicas, a Opaq conta hoje com quase 200 membros. Sua atuação ganhou destaque no noticiário internacional nas últimas semanas, quando especialistas da entidade, com o apoio da Organização das Nações Unidas, foram à Síria para destruir o estoque de armas químicas do país, depois que um ataque com gás sarin no subúrbio de Damasco matou mais de 1.400 pessoas em agosto.

Kenkel: “O comitê destaca a importância de depositar a resolução desse tipo de situação nas mãos de organismos e entidades internacionais, amparadas por tratados e acordos abrangentes, e não de algumas poucas potências”

Para o especialista na área de relações internacionais Kai Michael Kenkel, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a premiação passa uma mensagem muito clara: a relevância do multinacionalismo para lidar com esse episódio. “O comitê destaca a importância de depositar a resolução desse tipo de situação nas mãos de organismos e entidades internacionais, amparadas por tratados e acordos abrangentes, e não de algumas poucas potências”, afirma. “Não é possível premiar a própria convenção, mas é possível reconhecer a ação da entidade que visa colocá-la em prática.”

A resolução pacífica do episódio, sem o emprego de forças externas de intervenção militar na Síria, foi sem dúvida fundamental para a concessão do prêmio, na opinião do cientista social Gilberto Rodrigues, da Universidade Federal do ABC (São Paulo). Porém, ele defende que o Nobel também é fruto do trabalho de longo prazo da Opaq em prol do desarmamento. “O mundo parece em choque ao perceber que o problema das armas químicas ainda é grave”, avalia. “O episódio retirou o trabalho da entidade do subterrâneo do anonimato, destacando sua ação de fiscalização e, em especial, seu trabalho de convencimento para aumentar a adesão internacional ao acordo.” 

Guerra química
As armas químicas foram muito empregadas nos conflitos militares do século 20, a partir da Primeira Guerra Mundial. Na imagem, forças japonesas usam máscaras contra gás em batalha da segunda guerra sino-japonesa, em 1937. (foto: Wikimedia Commons)

Kenkel também destaca a valorização dos esforços silenciosos da Opaq e de instituições semelhantes. “A questão das armas químicas, assim como a ameaça biológica e nuclear, era um fantasma do qual não se falava, mas que continua ameaçador”, afirma. “O episódio na Síria e o prêmio Nobel fazem a discussão voltar à tona e valoriza o perigoso trabalho de bastidores realizado pela entidade, que tem monitorado e ajudado a desmontar arsenais químicos muito perigosos em diversas partes do mundo.” 

Rodrigues ressalta que a premiação também é uma espécie de ‘volta por cima’ para a Opaq. “Quando o governo de George Bush nos Estados Unidos decidiu invadir o Iraque, desacreditou o trabalho da entidade, que negociava a realização de inspeções no país, uma queda de braço que acabou com a destituição do diretor da Opaq [o brasileiro José Mauricio Bustani]”, relembra. “Dez anos depois, a entidade recebe o Nobel justamente por um trabalho que só pôde ser feito após acordo entre Rússia e o próprio EUA.

Desafios laureados 

Além de um reconhecimento pelo presente, a láurea também é uma apólice para o futuro, como lembra Rodrigues. “O Nobel tem essa característica, ele oferece um voto de confiança, um incentivo – pelo passado, sim, mas também pelo futuro”, avalia. “Afinal, o controle das armas químicas continua sendo uma questão fundamental, uma vez que essas são as armas de destruição em massa mais acessíveis.”

O próprio comitê do Nobel destaca alguns desafios da entidade para o futuro: a manutenção de grandes arsenais de armas químicas em poder dos EUA e, em especial, da Rússia e a existência de países que ainda não assinaram a convenção – grupo que inclui Egito, Israel e Coreia do Norte. Após o recente episódio e a possibilidade de intervenção militar no país, a Síria – outra que não havia aderido ao acordo – decidiu assiná-lo.  

Rodrigues:  “Os países árabes estão sendo pressionados para assinar a convenção, mas Israel não é signatário e não acho possível que o atual governo concorde com um acordo, o que torna a situação instável”

Kenkel vê a premiação como um recado muito claro aos dois grupos de países. “O Nobel pressiona essas nações para que passem a integrar e ratificar essa convenção, além de dar legitimidade às organizações internacionais e força aos esforços diplomáticos nesse sentido”, acredita.

Para Rodrigues, o cenário mais crítico é o Oriente Médio. “Os países árabes estão sendo pressionados para assinar a convenção, mas Israel não é signatário e não acho possível que o atual governo concorde com um acordo, o que torna a situação instável”, analisa. Kenkel concorda: “Se olharmos os últimos episódios em que foi utilizado esse tipo de armamento, destaca-se essa região”, diz. “E é preciso ser muito inocente para acreditar, por exemplo, que a Síria vai cooperar totalmente na situação política atual.”

Como já é comum, o anúncio do prêmio Nobel para a Opaq surpreendeu os ‘apostadores’, que consideravam a jovem paquistanesa Malala Yusufzai como favorita. Para Rodrigues, no entanto, a escolha da Opaq tem uma relevância mundial maior, dada a conjuntura atual. “Não quer dizer que a questão de gênero e liberdade não seja central para a paz, assim como outros trabalhos que ainda podem ser laureados no futuro, como os esforços da Colômbia em pôr fim a 60 anos de conflito civil”, pondera. “Porém, talvez sejam pontos ainda em desenvolvimento, inacabados, enquanto a questão das armas químicas e da desintegração e do neofascismo na Europa – que motivaram a premiação de 2012 – parecem conflitos em plena ebulição.”

Marcelo Garcia
Ciência Hoje On-line

Matéria publicada em 11.10.2013

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