O esporte já era praticado sob diferentes formas (lutas, corridas, saltos, arremessos, natação e outros) em muitas civilizações antigas. Ressurgiu como atividade social na segunda metade do século 19, como resultado do aumento do tempo para o lazer decorrente da revolução industrial e da maior interação da população trazida pela urbanização. A cidade foi o lugar propício para esse reaparecimento, assim como ocorreu no nascimento das disputas esportivas.

Passaram-se mais de 2 mil anos para que a sociedade voltasse a apresentar condições para a prática de atividades físicas como entretenimento. Por muito tempo, tais atividades ficaram relegadas ao treinamento militar e às práticas de adestramento e lazer da aristocracia. A revalorização da educação física nas escolas, a maior circulação de informações sobre os esportes incipientes e a busca de diversão pelas camadas menos favorecidas da população colaboraram para disseminar as práticas esportivas.

A revalorização da educação física nas escolas, a maior circulação de informações sobre os esportes incipientes e a busca de diversão pelas camadas menos favorecidas da população colaboraram para disseminar as práticas esportivas

A segunda metade do século 19 foi um período de profundas transformações na estrutura social. O filósofo alemão Karl Marx (1818-1883) já tinha advertido que um espectro rondava a Europa. Os valores aristocráticos de honra, dignidade e berço estavam sendo solapados pelos valores burgueses de acumulação de riqueza e capital. A burguesia industrial reformava o mundo pela transformação em mercadoria de todas as coisas, entre elas os valores morais e espirituais.

A reação no campo das ideias não demorou, e veio principalmente nas obras de outros filósofos, como os também alemães Arthur Schopenhauer (1788-1860) e Friedrich Nietzsche (1844-1900), que repudiavam aquele admirável novo mundo das massas proletárias e da ascensão burguesa, que não valorizava a cultura clássica, em especial a grega, por ignorância e por necessidade de sobrevivência. 

Para o primeiro desses pensadores, a retomada dos valores tradicionais da civilização clássica exigia uma profunda renúncia a esse mundo de extrema irracionalidade. Para o segundo, dependia do ato de afirmação da vontade do “super-homem”, que imporia seus valores sobre a pobreza espiritual dos proletários e burgueses.

Jogos Olímpicos da era moderna

Esse contexto de reafirmação dos valores clássicos fundamentou as propostas do pedagogo e historiador francês, Pierre de Frédy (1863-1937), conhecido pelo título de barão de Coubertin. Defensor da inclusão do esporte como disciplina escolar em todo o mundo, ele promovia competições de atletismo e se tornaria o idealizador dos Jogos Olímpicos da era moderna.

Tenis
Os Jogos Olímpicos, iniciados com base em uma visão elitista da prática de esportes, hoje são grandes espetáculos que movimentam imenso volume de recursos financeiros. (foto: Sxc. hu)

O renascimento dos Jogos começou a se tornar realidade em um congresso, em junho de 1894, na Universidade de Sorbonne, na França. O sonho do barão de reviver as Olimpíadas, competições que aconteciam na cidade de Olímpia, na Grécia antiga, agradou aos participantes do encontro. Representantes gregos disseram ao barão que seu país se dispunha a retomar a tradição e sediar a primeira Olimpíada da era moderna. Em consequência, a Grécia recebeu 241 atletas, todos homens, vindos de 14 países, para os Jogos de 1896.

O amadorismo, por definição, excluía da prática esportiva – ao menos dos esportes inicialmente considerados olímpicos – as pessoas que precisavam trabalhar para ganhar a vida

O barão de Coubertin procurava, com a criação do movimento olímpico e a realização das Olimpíadas modernas, reforçar os ideais da vida aristocrática que, em sua opinião, estavam desaparecendo em um mundo predominantemente competitivo, sem regras de honra, voltado para o enriquecimento e marcado pela formação de uma enorme massa de proletários ignorantes. Assim, ele propunha o amadorismo como símbolo da nobreza dos atletas e lançava o lema ‘o importante é competir’, desde que respeitadas as regras elevadas do esporte.

O amadorismo, por definição, excluía da prática esportiva – ao menos dos esportes inicialmente considerados olímpicos – as pessoas que precisavam trabalhar para ganhar a vida. 

Os primeiros Jogos Olímpicos quase não se realizaram: a Grécia estava falida, e os recursos necessários foram obtidos com doações da população e com a ajuda de um magnata, o arquiteto Georgios Averof (1815-1899), que bancou a reforma do centro de Atenas e a construção de locais apropriados para as disputas. No dia 6 de abril de 1896, cerca de 60 mil espectadores assistiram à inauguração dos Jogos, com a presença do rei grego, George I.
 

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Luiz Martins de Melo

Instituto de Economia
Universidade Federal do Rio de Janeiro

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