Antes de desenvolvida a tecnologia de controle do fogo, a luz solar era a referência luminosa determinante para todas as atividades humanas de coleta de alimentos e organização social. O fim do dia, marcado pela diminuição da luz natural, era também a advertência para que os indivíduos se preparassem e se mantivessem a salvo dos perigos da noite. Depois, a luz do fogo trouxe a segurança e o calor, protegendo os indivíduos da escuridão e do frio das noites. E, com o controle da luz do fogo, um novo elo de visibilidade antes desconhecido se instituiu a partir das cintilações e sombras provenientes das luzes das chamas, das penumbras – ampliou-se o mundo do lúdico e do imaginário.

Com o domínio da luz, de quando e onde iluminar, novos modos de organização das atividades produtivas e das interações sociais foram possíveis, além de outras formas de simbolização e da ampliação do exercício da imaginação. As coletividades desenvolveram percepções culturais sobre e a partir da luz, as quais são materializadas nas formas de simbolização social, como nas interações que acontecem por meio do uso das linguagens.

Como seres culturais, simbolizamos não só a luz, mas todos os elementos do mundo natural por meio de nossas linguagens, que traduzem, interpretam, comunicam, codificam, dão significado e expressam nossas experiências e interações com os fenômenos naturais e culturais.

As linguagens – especificamente, aquelas ligadas à visualidade – não se esgotam em um único uso prático e objetivo de seus elementos. Somos seres imaginativos e criativos e, como tais, precisamos do aspecto poético das imagens em nossas vidas.

 

Luz como linguagem

Com o surgimento da fotografia e do cinema, ainda no século 19, a preocupação com a luz é determinante para a própria existência dessas novas tecnologias. Mas, além da própria sensibilização material dos suportes e das películas – a qual torna possível a representação material do mundo nas imagens –, o uso da luz demandou a preocupação com outros aspectos que não apenas os técnicos, mas, sim, subjetivos, relacionados ao uso da luz como forma de linguagem, como portadora de significados culturais, indicando desde aspectos simples – como se uma cena acontecesse durante o dia ou à noite – até aqueles mais sutis, de comportamento – por exemplo, o estado de espírito de uma personagem.

O gabinete do Dr. Caligari
Uma marca dos filmes do expressionismo alemão era usar luz e sombra para dar dramaticidade. Na foto, cena de ‘O gabinete do Dr. Caligari’, de 1920, dirigido por Robert Wiene. (foto: Wikimedia Commons)

Como forma de expressão, o cinema sempre explorou esses aspectos estéticos da luz, cujos usos foram tão característicos em algumas tradições de filmes como nos efeitos dramáticos de luz e sombra do expressionismo alemão e, depois, dos filmes noir. Por se sobressaírem, esses efeitos passaram a servir de parâmetro para identificar as estéticas filmográficas desses filmes.

Junto com o desenvolvimento técnico dos equipamentos de iluminação – os quais permitiram maior controle sobre a luz e suas características físicas –, esse outro aspecto do uso da luz – ou seja, o conceitual, como elemento narrativo, como linguagem – também se ampliou. E, desse modo, ganhou corpo um conjunto de usos e leituras da luz historicamente construídos, um modelo de produção e observação da representação da luz no cinema.

Assim, a luz no cinema, mais do que um elemento da chamada linguagem do cinema, pode ser pensada e discutida como uma linguagem própria, caracterizada pelo conjunto ideológico de usos e percepções da luz em um filme.

Mas como opera essa linguagem da luz no cinema? Podemos responder à questão com base em, pelo menos, três aspectos: referencialidade, ação criativa e o que denomino transparência cultural.

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Luís Carlos dos Santos
Departamento de Comunicação Social,
Universidade Federal do Paraná

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