2001, uma odisséia além do teatro filmado

Uma homenagem a Arthur Clarke  

O mundo da ficção científica perdeu em 19 de março um de seus maiores expoentes: o escritor britânico Arthur Charles Clarke (1917-2008), conhecido sobretudo como autor do romance 2001: Uma odisséia no espaço,  de 1968. Em sua homenagem, reproduzimos um artigo publicado originalmente em 1998, por ocasião dos trinta anos do lançamento do livro e de sua adaptação para o cinema. O artigo analisa a parceria de Clarke com o cineasta americano Stanley Kubrick (1928-1999) para elaborar o roteiro do filme.

 

2001, uma odisséia além do teatro filmado

 

O roteiro de 2001 – uma odisséia no espaço resultou da curiosa associação entre o escritor inglês Arthur C. Clarke e o cineasta norte-americano Stanley Kubrick. Otimista, Clarke sempre viu a tecnologia como uma salvação para o mundo. Já Kubrick, de formação humanista, tinha medo de máquinas. O resultado dessa união foi um filme povoado por máquinas eficientes, belas e sofisticadas, que, no entanto, se comportavam como saídas do laboratório do Dr. Frankestein. Três décadas após o lançamento do filme, os aparelhos eletrônicos não amedrontam mais ninguém, mas 2001 permanece como uma obra-prima do cinema.

O ‘olho’ do computador inteligente HAL 9000, personagem central de 2001 (fotos: reprodução).

O computador inteligente HAL 9000 foi o produto mais típico dessa ambigüidade da produção. Clarke queria que HAL fosse uma visualização das idéias do pesquisador Marvin Minsky, um dos papas da inteligência artificial. O computador seria um cérebro artificial, capaz de pensar e ter sentimentos. Kubrick optou por fazer de HAL uma criatura sem alma e, portanto, maligna, calcada no Golen, gigante de barro vivificado da lenda hebraica. Era o velho mito de Prometeu, do homem punido por tentar imitar os deuses, roubando o segredo da criação de seres sensíveis. Tudo jogado no século 21.

Hoje essa concepção ‘medieval’ já está superada. O computador não é mais um bicho-papão. Virou uma maquininha simpática, que usamos no trabalho e no lazer. Enquanto isso, os pesquisadores ainda discutem se poderemos criar uma máquina capaz de ter consciência de si mesma, como HAL. O físico teórico inglês Roger Penrose, um dos principais especialistas em buracos negros, diz que não. Marvin Minsky continua batendo o pé e dizendo que é apenas uma questão de tempo.

Roteiro original
Dois contos escritos por Clarke, na década de 1940, serviram de arcabouço para a história: O sentinela fala de um artefato extraterrestre encontrado por astronautas na Lua. Uma pirâmide de cristal que, ao ser quebrada, envia um sinal para as estrelas, informando a seus criadores que uma inteligência capaz de viajar pelo espaço tinha surgido na Terra. Já Encontro na alvorada trata de um extraterrestre que ajuda homens-macacos na pré-história.

O primeiro roteiro de 2001 mostrava extraterrestres ajudando uma tribo de homens pré-históricos a escapar da fome. Depois, saltaria para o futuro, quando os astronautas achariam o artefato alienígena na Lua. Esse objeto emitiria um sinal de rádio para Saturno, e a agência espacial do futuro mandaria uma nave investigar. Entre as luas de Saturno, os astronautas encontrariam uma passagem através da curvatura do espaço-tempo, o que hoje se chama de wormhole ou buraco-de-minhoca. Por esse túnel astral, eles chegariam a outro Sistema Solar para encontrar os extraterrestres que visitaram a Terra há milhões de anos.

Vários problemas levaram à alteração desse esboço inicial. O alvo da missão virou o planeta Júpiter, dada a dificuldade dos técnicos em efeitos especiais para criar os anéis de Saturno. Kubrick também concluiu que seria impossível mostrar E.T.s convincentes com a tecnologia de 1968. E a inteligência extraterrestre passou a ser representada de forma simbólica pelo monolito negro, uma espécie de sonda mandada por inteligências incorpóreas das estrelas.

Propaganda na tela
2001 contou com uma vasta assessoria técnica, um caso raro no cinema de ficção científica. Organizações e empresas como a Nasa, IBM, Bell Telephone e Pan American Airways deram conselhos e apoio ao diretor-roteirista Stanley Kubrick. Em troca, as naves e computadores do filme ostentavam logotipos da companhia aérea e da indústria de computadores, no que foi uma das primeiras ações de merchandising (propaganda inserida no roteiro) da história do cinema.

A sonda interplanetária Discovery One, palco de boa parte da ação de 2001 (fotos: reprodução).

O emblema da Pan Am aparecia nas naves Orion e Ares, que levam o cientista até a Lua. E a marca IBM era visível no painel de comando do ônibus espacial Orion e nas televisões em forma de prancheta, usadas pela tripulação da sonda inter-planetária Discovery. Além disso, é claro, a sigla HAL, do computador consciente, é formada pelas letras anteriores às que compõem a sigla da IBM.

O principal consultor técnico de 2001, no entanto, foi um cientista: Frederick Ordway III, na época, chefe do setor de sistemas espaciais do Centro Marshall, da Nasa. Ordway é autor de dois livros básicos sobre astronáutica: Basic Astronautics e Applied Astronautics – An Introduction to Space Flight (Ed. Prentice-Hall, 1963-64). Foi Ordway quem projetou as naves de 2001, seus casulos de trabalho extraveicular e a centrífuga, onde os tripulantes da Discovery evitavam os males da ausência de peso em vôos longos.

Quando 2001 estava em fase final de produção, em 1964, Kubrick queria que a Discovery fosse uma nave de propulsão nuclear pulsante. Esse tipo de nave, projetada pelo Laboratório Nacional de Los Alamos (EUA), usa explosões nucleares sucessivas para ser acelerada no espaço. A idéia depois foi abandonada e a Discovery ganhou motores de plasma, mais convencionais. Ordway supervisionou todas essas mudanças e trouxe para a produção do filme o desenhista especializado Harry Lange, ilustrador do livro Applied Astronautics, que fez os esboços iniciais dos trajes usados pelos astronautas.

Mas o que tornou 2001 uma obra de arte não foi a história ou os detalhes técnicos. Foi o modo como tudo foi apresentado. Um filme de três horas de duração com apenas 20 minutos de diálogos, nos quais a história é contada com imagens. Um retorno à concepção original do cinema, em oposição ao conceito de teatro filmado. 

Jorge Luiz Calife
Especial para Ciência Hoje/RJ
Publicado na CH 142 (setembro de 1998) 

 

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