As alterações na biodiversidade da Amazônia provocadas pelos desmatamentos vêm sendo estudadas de muitas formas. Um grande projeto de pesquisa investiga o que acontece em fragmentos florestais, de diferentes tamanhos, remanescentes da derrubada da mata ao seu redor. Estudos sobre as respostas de espécies de moscas e de outros animais revelam que a fragmentação da floresta leva à perda de espécies locais e a alterações na abundância de outras, além de facilitar a entrada de espécies exóticas. Também foi constatado que as pastagens são mais danosas à diversidade de espécies das áreas florestadas restantes nas proximidades do que as atividades agrícolas ou silviculturais.

Considerada o maior reduto de vida no planeta, a Amazônia está mudando. Essa mudança na paisagem amazônica vem ocorrendo, em ritmo crescente, nos últimos 50 anos. Qualquer pessoa que sobrevoasse a Amazônia nos anos 50 veria a paisagem como uma floresta contínua, com algumas clareiras nas margens dos rios e nas vizinhanças das principais cidades. Hoje, um vôo por certas áreas da Amazônia brasileira, principalmente em suas partes nordeste e sul, mostrará imensas manchas provocadas pelo desmatamento, com terra desnuda ou recoberta com pastagens e cultivos agrícolas. Enquanto o Amapá tem 95% de sua floresta preservada, o nordeste do Pará e o oeste do Maranhão, segundo o Projeto Biota do Pará, conservam apenas 23% da vegetação amazônica, divididos em fragmentos, revelando índices de desmatamentos semelhantes aos registrados na mata atlântica, na região Sudeste.

Plantação de eucaliptos em Monte Alegre, no norte do Pará, onde os fragmentos florestais remanescentes têm sido estudados por cientistas. (Foto cedida pelos autores)

Tal imagem causa desolação a muitos, mas é motivo de orgulho para outros. Os desolados pensam na floresta perdida, nas milhares de espécies extintas (muitas antes de serem conhecidas), no imenso patrimônio biológico e evolutivo desperdiçado (e, com ele, as oportunidades perdidas de novos conhecimentos, produtos e negócios). Pensam ainda no povo da floresta desprovido do seu modo de vida, sem oportunidade de materializar sua cultura, suas crenças e sua arte. Já os orgulhosos argumentam que isso significa progresso e vislumbram a Amazônia finalmente inserida no processo nacional de desenvolvimento, produzindo grãos, exportando minérios para o mundo e energia para o país.

Mas afinal o que essa mudança no uso da terra significa para a biodiversidade? Como a biodiversidade responde a essa nova Amazônia?

A biodiversidade amazônica é ainda muito mal mensurada. Não sabemos quantas espécies existem, conhecemos muito pouco sobre o papel de algumas espécies na sustentação da floresta e conhecemos menos ainda sobre as interações entre espécies e como elas respondem às variações do meio ambiente. Esse quadro de desconhecimento torna necessários estudos urgentes sobre as mudanças no uso da terra e suas conseqüências sobre a biodiversidade.

Antes dos anos 80 o termo biodiversidade não era conhecido. Esse termo, que une as palavras ‘diversidade’ e ‘biológica’, foi popularizado pelo livro Biodiversity , de 1988, organizado pelo biólogo norte-americano Edward O. Wilson, um dos pioneiros da ecologia, a partir dos debates do Fórum Nacional de Biodiversidade, realizado dois anos em Washington (Estados Unidos) — o livro foi publicado no Brasil em 1997. No conceito de biodiversidade estão incluídos todos os seres vivos e as relações que esses organismos têm entre si e com o meio físico, transformando e construindo florestas, lagos e todos os elementos da paisagem que normalmente chamamos de natureza. Assim, plantas, animais e ecossistemas passaram a ser entendidos como um complexo integrado, que dá forma e funcionamento à vida no planeta.

A biodiversidade, portanto, não se refere exclusivamente aos organismos em si, mas também ao ambiente criado a partir da presença deles. É como um jogo de xadrez. De que valem as peças se não forem realizadas boas jogadas? Precisamos compreender as complexas regras desse jogo, para evitar ou minimizar nossas interferências nefastas. No caso da Amazônia, precisamos apreender a biodiversidade da região em toda a sua complexidade e dinâmica, entender os efeitos dos processos de mudança e buscar as melhores soluções para a manutenção dessa diversidade. Como responder a tal desafio?

Marlúcia Bonifacio Martins e Catarina de Lurdes Praxedes
Coordenação de Zoologia, Museu Paraense Emilio Goeldi
Ronildon Miranda-Santos
Coordenação de Ciências da Terra e Ecologia, Museu Paraense Emilio Goeldi
Alessandra Azevedo Rodrigues da Silva
Secretaria Executiva de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente (PA)
Joana Evangelista Costa
Museu Paraense Emilio Goeldi

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