Extrato de picão tem efeito anticancerígeno

O picão ( Bidens alba ), originário do México e encontrado no litoral paulista, mostrou-se eficaz na inibição do crescimento de células cancerígenas (fotos: Gilberto Franchi).

Um extrato fitoterápico obtido da planta Bidens alba , encontrada no litoral paulista e popularmente conhecida como picão, revelou, em estudos in vitro , eficiência para tratamento de três tipos de câncer e cinco tipos de leucemia. A planta, estudada pela botânica Maria Tereza Grombone Guaratini, vem sendo pesquisada por médicos, químicos e farmacêuticos do Centro Integrado de Pesquisas Onco-hematológicas da Infância (Cipoi), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Em seu pós-doutoramento para o Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Estado de São Paulo (Biota), financiado pela Fapesp, Grombone pesquisou a variabilidade genética de outra espécie da família Asteraceae, a Bidens pilosa (picão-preto), praga da soja conhecida por propriedades antimicrobianas e antiulcerogênicas.

Nesse estudo, ela identificou, por meio de técnicas moleculares, a Bidens alba , originária do México e possivelmente trazida para o litoral paulista através do porto de Santos, percebendo que a composição química dessa espécie ainda não havia sido descrita. Amostras do extrato de Bidens alba foram enviadas ao Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu, onde foi observado que, aplicado em camundongos com úlcera gástrica, o líquido da planta formava uma proteção da mucosa estomacal. O processo de obtenção da composição teve sua patente internacional depositada em 2006.

Para descobrir se o extrato fitoterápico apresentava também efeitos anticancerígenos, Grombone passou a trabalhar juntamente com o médico Alexandre Eduardo Nowill, o farmacêutico Gilberto Carlos Franchi Júnior, ambos do Cipoi, e com a química Carmen Lucia Queiroga, do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas (CPQBA), também da Unicamp, que separou quimicamente o extrato.

A química Carmen Lucia Queiroga separou quimicamente o extrato e o farmacêutico Gilberto Franchi realizou uma série de testes in vitro para checar sua eficácia.

Em seguida, Franchi começou uma série de testes para checar a eficácia do extrato e de grupos químicos sobre neoplasias in vitro . “Fizemos testes in vitro para cinco tipos de leucemia e para três tipos de adenocarcinoma (câncer): de próstata, de ovário e de mama. Em todas as investigações, as frações selecionadas se mostraram eficazes, inibindo o crescimento das células cancerígenas”, diz o farmacêutico.

Testes in vivo
Atualmente, novos testes in vitro estão sendo realizados. A próxima etapa incluirá testes in vivo , ou seja, com animais que apresentem tumores e leucemias. Franchi alerta para a responsabilidade de se lançar um novo fármaco no mercado: “Muitos quimioterápicos utilizados em diversas neoplasias são derivados de plantas. Substâncias químicas produzidas a partir desses vegetais são habilmente separadas e nomeadas por químicos e encontram-se nas prateleiras de todos os hospitais que tratam o câncer”.

O cientista considera muito boas as perspectivas para o desenvolvimento de fármacos à base do extrato de Bidens alba . “O caminho da pesquisa na busca de um novo fármaco deve ser pavimentado com paciência e muita responsabilidade até que se chegue a um composto final”, conclui.

Fabíola Bezerra
Ciência Hoje/RJ

 

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