(Foto: Luciano Saraiva/ Folha Imagem)

O exsudato de cajueiro pode diminuir a pressão arterial, segundo estudo feito na Escola de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Instituto de Biologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Essa substância é liberada pelo caule da planta, caso ela sofra alguma agressão do meio externo. É uma espécie de resina, inodora, na cor entre o amarelo e o âmbar. Testes constataram que cobaias de laboratório que apresentavam hipertensão (pressão arterial alta), quando alimentadas durante 25 semanas com a goma de cajueiro (exsudato processado), tiveram 20% de redução na sua pressão arterial.

A engenheira química Cheila Gonçalves Mothé, responsável pela pesquisa, explicou que o composto pode se tornar um alimento funcional – com características terapêuticas – após processamento em laboratório. “Atualmente, a tendência é pensar em alimentos terapêuticos, em vez de remédios”, afirma. Segundo a pesquisadora, esse efeito provavelmente é produzido pelos polissacarídeos e proteínas presentes na goma, pois sua presença aumenta o número de macrófagos (células do sistema imunológico), tornando o organismo mais saudável. “Dessa forma, o corpo elimina as gorduras ou outras substâncias nocivas de maneira mais eficiente, o que influencia a pressão arterial, do mesmo modo que os exercícios físicos, por exemplo. Entretanto, precisamos estudar as reações do organismo ao composto para podermos ter certeza quanto a essa explicação”, pondera.

No Brasil, as doenças cardiovasculares (DCV) são responsáveis por cerca de 300 mil mortes por ano, ou seja, aproximadamente 820 pessoas por dia, segundo dados do Sistema Único de Saúde (SUS). Mothé defende a implantação de políticas públicas de tratamento da hipertensão com base em alimentos funcionais. “O governo deveria dar incentivos para que esse tipo de alimento fosse disponibilizado pelo SUS”, diz.

A goma não apresentou efeitos colaterais nos estudos feitos até agora, além de ter um custo muito baixo. “Analisamos as funções dos órgãos vitais nas cobaias e não encontramos problemas. Diante disso, vale a pena utilizá-la com a intenção de evitar as doenças cardiovasculares”, afirma. No entanto, ainda é necessário testar o alimento em seres humanos, para verificar se os resultados se mantêm. “Há uma empresa interessada em produzir a goma em escala industrial, mas antes disso precisamos passar por uma nova fase de testes”, diz a química. A transformação do exsudato em goma purificada é feita de forma natural, sem adição de substâncias agressivas ao organismo. “O único solvente que utilizamos no processo de purificação é o álcool etílico, que é retirado no final do processo”, garante a pesquisadora.

A utilização do exsudato também é benéfica do ponto de vista socioeconômico, pois o aproveitamento desse material pode gerar mais empregos. “O Brasil não aproveita quase nada dessa substância, que é utilizada apenas em escala de laboratório. O agronegócio do caju gera 45 mil empregos diretos e 250 mil indiretos, movimentando cerca de R$ 175 milhões por ano”, diz. Além da goma purificada, o grupo da UFRJ, que trabalha há 10 anos com o aproveitamento de exsudato de cajueiro, já produziu maionese light e sucos tropicais. “Os polissacarídeos presentes no composto funcionam como a gordura necessária à maionese”, explica a pesquisadora, que já entrou com pedido de patente da substância e do processamento para produção da goma purificada no Brasil.

Franciane Lovati
Ciência Hoje/RJ

 

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