No rastro dos mamíferos: um safári na savana brasileira

 
 

Lagoa temporária próxima de Lagoa Santa (MG). As margens de lagos e lagoas são locais adequados para observação dos rastros deixados pelos animais que ali vão tomar água. As pegadas ficam impressas no substrato por muito tempo (foto: Ana Carolina Neves).

Quando pensamos nas savanas africanas, imediatamente imaginamos manadas de grandes pastadores cobrindo os descampados a perder de vista, em meio a bandos de carnívoros e herbívoros colossais. Entretanto, ao pensar na savana brasileira – o cerrado –, muitos imaginam uma paisagem monótona devido à escassez de animais, sobretudo grandes mamíferos. Mas, se olharmos com atenção, veremos rastros desses animais, por meio dos quais é possível vislumbrar a riqueza da fauna desse bioma.

As formações vegetais savânicas, caracterizadas por campos com árvores e arbustos esparsos, ocorrem em regiões cujo clima é definido por estações seca e chuvosa bem demarcadas. Seus solos são pobres, com baixa capacidade de retenção de água, e estão sujeitos a intensa lixiviação causada pelas chuvas. Folhas grossas, órgãos subterrâneos bem desenvolvidos e troncos revestidos por cortiça são adaptações das plantas para evitar perda de umidade, armazenar nutrientes e água ou resistir ao fogo, que é comum nesse ambiente.

As maiores áreas de savana do mundo estão na África, mas esse tipo de vegetação se estende também pela zona neotropical (América do Sul e Central) e pela Austrália. No Brasil, onde recebe a denominação de cerrado, ocupa 22% do território e representa o segundo maior bioma do país, perdendo apenas para a Amazônia.

Embora Brasil e África tenham paisagens semelhantes, sua fauna e flora apresentam diferenças marcantes. Nas savanas africanas vivem rebanhos de herbívoros pastadores, como gnus, búfalos e zebras, além de carnívoros, como leões, hienas e guepardos. Já no cerrado, a observação de animais, sobretudo mamíferos, é difícil, o que cria a falsa impressão de que sua fauna é pobre. Mas nem sempre foi assim. Em pelo menos dois momentos África e América do Sul possuíram faunas semelhantes, tendo o Brasil abrigado muitas espécies de mamíferos de grande e médio porte.

Pegadas de um gambá. O hálux, que se opõe aos outros dedos, permite que o animal se prenda em galhos, uma adaptação necessária à vida nas árvores (foto: José Eugênio Figueira)

Riqueza na savana brasileira
Embora o cerrado tenha hoje uma fauna de grandes mamíferos menor do que a que existiu no passado e com menos espécies do que a savana africana, não é justo nem correto considerá-lo um bioma pobre. Essa concepção se mantém a despeito das pesquisas que revelam sua riqueza paisagística, com formações vegetais que vão de campos a florestas.

Esses hábitats abrigam grande número de organismos, aproximadamente 110 espécies de mamíferos e 3 mil espécies de plantas, muitas exclusivas de pequenas áreas e portadoras de inestimável potencial alimentício e medicinal. Diante do elevado número de espécies exclusivas que abriga e das ameaças que vem sofrendo, o cerrado é considerado uma das 25 áreas críticas para a biodiversidade no mundo e tem prioridade de conservação.

No cerrado, o uso de binóculos não é suficiente para a observação de mamíferos. Isso não se deve à sua ausência, já que alguns dos maiores e mais belos animais da fauna brasileira vivem ali, como onças (parda e pintada), tamanduá-bandeira, lobo-guará, veado e anta. Sua observação é difícil porque, ao contrário dos africanos, esses animais têm hábitos solitários, são discretos e geralmente apresentam atividade noturna ou crepuscular. Mas é possível fazer um safári de forma mais sutil, ‘observando’ os mamíferos através dos rastros que eles deixam durante suas ações.

Tocas, trilhas, restos alimentares, fezes e pegadas nos permitem conhecer os mamíferos de uma área. Vale lembrar que o estudo da megafauna extinta foi feito com base em vestígios (ossadas, fezes fósseis e pegadas). Até indícios indiretos da existência de animais, como os deixados pelo homem pré-histórico na forma de inscrições rupestres, nos contam sobre os mamíferos do cerrado há milhares de anos.

Ana Carolina Neves,
Centro de Ciências Biológicas e da Saúde
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul,
Fabiana Mourão, Luísa Krettli,
José Eugênio Figueira
e Paulina Maia Barbosa,
Departamento de Biologia Geral
Universidade Federal de Minas Gerais.

 

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