O plantio de árvores da família das leguminosas em áreas degradadas na Amazônia pode ajudar os pequenos agricultores da região a recuperar terras abandonadas e com solo enfraquecido para novos cultivos. Estudos da Embrapa Roraima no município de Cantá (RR) avaliaram sete espécies arbóreas de leguminosas de rápido crescimento e demonstraram que a utilização de folhas e galhos podados dessas árvores em terrenos alterados promove melhoria da fertilidade do solo através, entre outros fatores, da fixação neste do nitrogênio, nutriente importante para todos os vegetais.
 
As leguminosas constituem o grupo mais importante (com maior número de gêneros e espécies) entre as famílias de vegetais lenhosos da flora nativa da Amazônia. Esse grupo é composto por árvores, arbustos e plantas herbáceas que produzem sementes em vagens (com raras exceções).
 
A característica que torna muitas espécies desse grupo importantes em termos agronômicos é a capacidade de se associar a bactérias fixadoras de nitrogênio (dos gêneros Rhizobium , Bradyrhizobium e Azorhizobium , principalmente). Essas bactérias alojam-se nas raízes de leguminosas e promovem a transformação do nitrogênio gasoso, presente no ar (que penetra nos poros do solo), gerando substâncias assimiláveis pelas plantas e os demais seres vivos. O processo, chamado de fixação biológica do nitrogênio, pode inclusive suprir toda a demanda desse nutriente, como foi constatado na cultura da soja, que assim dispensaria a necessidade de aplicação de fertilizantes nitrogenados.
 
Entre os vegetais cultivados pelo homem há várias leguminosas. No Brasil, as mais importantes para produção de grãos são a soja ( Glycine max ), o feijão ( Phaseolus vulgaris ), o amendoim ( Arachis hypogaea ) e a ervilha ( Pisum sativum ). Na produção de alimentos para animais de criação podem ser citados o estilosante (gênero Stylosantes ) e a puerária ( Pueraria phaseoloides ). Algumas espécies arbóreas de leguminosas amazônicas são os ingás (gênero Inga ), o taxi-branco ( Sclerolobium paniculatum ) e o pau-rainha ( Centrolobium paraense ).
 

Material obtido na poda da leguminosa A. auriculiformis , realizada um ano após o plantio da muda – as culturas de alimentos serão plantadas sobre esse material.

Na busca de alternativas para aproveitamento em áreas degradadas e em processo de abandono, os estudos realizados em Cantá revelaram que, entre as espécies avaliadas, o Inga edulis (encontrado na própria Amazônia), a Acacia holoserica e a Acacia auriculiformis (árvores exóticas) foram as que produziram os maiores volumes de matéria seca para ser acrescentada ao solo, melhorando as suas condições químicas.

 
As árvores são plantadas em fileiras e, ao desenvolverem ramagem de tamanho adequado, são podadas e o material obtido é depositado sobre o solo. No terreno assim enriquecido são plantados os cultivos anuais, de espécies utilizadas como alimento pelo homem. O uso desse ‘adubo verde’, obtido na própria propriedade, pode evitar a necessidade do emprego de fertilizantes químicos nas lavouras, trazendo vantagens econômicas e ecológicas.
 
Portanto, essas espécies – e provavelmente outras ainda não estudadas com esse objetivo – podem exercer papel relevante no manejo e recuperação das áreas enfraquecidas por atividades agrícolas. A utilização das leguminosas com essa finalidade pode reduzir o desmatamento de áreas de floresta e abrir novos caminhos para a sustentabilidade da pequena propriedade agrícola.

Jane Maria Franco de Oliveira
Embrapa Roraima,
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
Armando José da Silva
Departamento de Solos e Irrigação,
Universidade Federal de Roraima.

 

 

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