A vazante na amazônia e o aquecimento global

 
 

A vazante de 2005 na Amazônia transformou muitas regiões antes alagadas – na imagem, área em Cachoeira do Arari, na ilha de Marajó – em paisagens quase totalmente secas.
(Foto: Carlos Silva/ Imapress/ Agência O Globo)
A floresta amazônica pode desaparecer? A grande vazante ocorrida na região no final de 2005 assustou não só seus habitantes, mas o mundo inteiro. Como outras secas e vazantes na Amazônia, esta também foi provocada por um fenômeno climático cíclico, mas sua intensidade indica que algo vem mudando no clima da região. O aquecimento global da atmosfera (efeito estufa) vem intensificando diversos eventos climáticos, de nevascas a furacões e ondas de calor. A Amazônia não está imune a esse processo, e para ajudar a protegê-la o Brasil precisa lutar para reduzir as emissões dos gases envolvidos no efeito estufa, seja controlando o desmatamento ou defendendo, nos órgãos internacionais, limites mais rígidos para todas as emissões.

Em outubro e novembro do ano passado, a água dos rios amazônicos baixou a níveis considerados críticos, isolando municípios e comunidades que dependiam da navegação fluvial. As imagens da vazante, recorde em muitos rios, correram o mundo e deixaram muitas pessoas chocadas. Mas será que as lições trazidas por esse evento foram aprendidas?

As lições que a história pode nos ensinar nem sempre são compreendidas porque, entre outros problemas, buscam-se respostas para as perguntas erradas. Pode-se citar o exemplo de alguém que fuma cigarros durante toda a vida e depois morre de câncer no pulmão. Se perguntarmos a um médico se ele morreu por fumar, este provavelmente responderá: “Não se pode saber, já que algumas pessoas que não fumam também têm câncer.” A pergunta importante nesse caso é se fumar causa câncer e se as pessoas deveriam mudar seu comportamento diante desse fato, e não se um evento específico tem uma determinada causa. O mesmo se aplica à afirmação de que o nível muito baixo de água nos rios amazônicos em 2005 teria sido provocado pelo chamado ‘efeito estufa’ (o aquecimento global da atmosfera terrestre), até porque grandes vazantes ocorreram ocasionalmente antes que as conseqüências desse fenômeno se tornassem evidentes. A questão importante, nesse caso, é se o efeito estufa torna tais eventos mais extremos – e a resposta é, claramente, ‘sim’.

O culpado habitual para as secas na Amazônia é o fenômeno climático El Niño, decorrente do aquecimento da água superficial no oceano Pacífico, que altera o clima na região tropical, com reflexos em todo o mundo. Os El Niño intensos causaram a seca e os incêndios em 1982 e 1983 na Amazônia e o grande incêndio florestal de Roraima em 1997 e 1998 (ver ‘Roraima: o incêndio visto do espaço’ em CH nº 157). Um El Niño menor causou incêndios adicionais em 2003. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), criado há quase 20 anos pela Organização Meteorológica Mundial e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, deixou claro em 1995, em seu segundo relatório de avaliação, que a freqüência dos El Niño aumentou significativamente desde 1976. Isso significa que algo mudou no sistema climático global.

Em 2005, porém, a temperatura da água superficial no oceano Pacífico estava dentro da faixa ‘normal’. Portanto, não era um ano de El Niño. Havia, entretanto, uma área de água mais quente que o normal no oceano Atlântico, e acredita-se que esta foi a causa da falta de chuvas, principalmente no sul da Amazônia, e da queda drástica no nível de água nos rios nesta parte da região. As chuvas diminuíram muito em outubro nas áreas das bacias hidrográficas dos afluentes do Amazonas que vêm da área central do Brasil, resultando na redução das vazões. Os níveis dos rios foram os mais baixos desde 1963, quando uma causa diferente (a erupção do Monte Abung, um vulcão da Indonésia) afetou o clima mundial e provocou uma vazante ainda mais drástica.

Mas por que isso ocorreu em 2005? Sabe-se que o regime de chuvas na Amazônia (e no Nordeste brasileiro) é afetado pela chamada ‘zona de convergência intertropical’, região climática situada sobre o oceano Atlântico, pouco ao norte da linha do Equador. Nessa zona, os ventos vindos dos hemisférios Norte e Sul se encontram, recebem calor da água do mar e, aquecidos, sobem para camadas a cerca de 1.800 m de altitude, onde se dividem em duas ‘células’ – uma delas carrega massas de ar em direção ao norte e a outra em direção ao sul. As massas de ar que rumam para o sul descem novamente à superfície do planeta, ao longo do ano, em uma faixa situada, em média, 30 graus abaixo da linha do Equador. Como esse ar descendente é seco, ele inibe a chuva na faixa atingida. Em outubro, esse retorno à superfície acontece em uma faixa ao sul da bacia amazônica, justamente sobre as cabeceiras das bacias hidrográficas de todos os afluentes da margem direita do rio Amazonas. Em 2005, a presença de uma mancha de água mais quente que o normal no oceano Atlântico, na zona de convergência intertropical, levou à movimentação de uma massa maior de ar que, ao descer, já seca, no sul da bacia amazônica, provocou maior inibição de chuva e uma enorme vazante nos rios dessa região. O pico da vazante de 2005 na Amazônia ocorreu justamente em outubro, mas as chuvas já tinham sido inferiores ao normal nos meses anteriores.

Philip M. Fearnside  
Coordenação de Pesquisas em Ecologia,
Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia

 

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