A enxaqueca, também chamada no Brasil de migrânea, é uma doença que afeta o sistema nervoso central. Cerca de 15% das mulheres e 5% dos homens, em todo o mundo, sofrem desse mal, que atinge predominantemente adolescentes e adultos jovens. As crises prejudicam bastante o bem-estar dos pacientes, com graves consequências para o trabalho, o estudo e o lazer.

O conhecimento da causa e dos mecanismos envolvidos na enxaqueca é o primeiro passo para determinar a melhor forma de tratamento. De início, pensava-se que a doença era causada pela dilatação exagerada das artérias existentes dentro e fora do crânio. Por isso, ela foi chamada, por muito tempo, de ‘cefaleia vascular’.

O conhecimento da causa e dos mecanismos envolvidos na enxaqueca é o primeiro passo para determinar a melhor forma de tratamento

Essa noção surgiu na década de 1930, quando os médicos norte-americanos John R. Graham (1909-1990) e Harold G. Wolff (1898-1962) injetaram ergotamina, substância que contrai os vasos sanguíneos, em pacientes com ataques de enxaqueca. Ao notar que a dor de cabeça desaparecia em cerca de 10 minutos e, ao mesmo tempo, diminuíam as pulsações da artéria temporal, na lateral da cabeça, Graham e Wolff concluíram que a dilatação arterial seria a causa do problema.

Essa ideia perdurou até 1981, quando o neurologista dinamarquês Jes Olesen e seus colegas mediram cuidadosamente as variações do fluxo sanguíneo cerebral de pacientes ao longo de crises de enxaqueca e demonstraram que a dor de cabeça não refletia exatamente essas variações. Graças a esse e a outros estudos, sabe-se hoje que a doença é mais neurológica do que vascular. Outra hipótese que chegou a ser considerada, a de uma origem psicológica da enxaqueca, também não se sustenta mais. Trata-se de uma doença orgânica que não depende, como fator causal, do estado emocional dos pacientes.

Doença do cérebro

Então, por que ela ocorre? A primeira coisa que deve ser dita é: não sofre de enxaqueca quem quer, só quem pode. Há formas raras que são completamente genéticas. Mutações nos cromossomos 19, 1 e 2 provocam uma variante chamada enxaqueca hemiplégica familiar, na qual os pacientes apresentam, como parte da doença, paralisia transitória em um lado do corpo. Podem ocorrer casos isolados (em que não há outros na família) e, nessas condições, a doença é chamada de enxaqueca hemiplégica esporádica.

Se o pai ou a mãe tem enxaqueca, a chance de o filho desenvolver a doença é 2,5 vezes maior que a de pessoas com pais sem a doença

A forma mais comum, porém, é dividida em dois tipos básicos: enxaqueca com aura e enxaqueca sem aura. Embora essas variantes não dependam de mutações específicas, a influência genética também é muito forte em ambas. A propósito, se o pai ou a mãe tem enxaqueca, a chance de o filho desenvolver a doença é 2,5 vezes maior que a de pessoas com pais sem a doença. Já passam de 30 os genes apontados, em estudos científicos, como relacionados de alguma forma à tendência para a doença.

Durante a crise de enxaqueca, o mal-estar é muito grande. Os pacientes têm náuseas, vomitam e se tornam intolerantes a sons, luzes, odores e toques, sobretudo na cabeça. O incômodo tátil deve-se a um fenômeno chamado alodínia, quando estímulos não dolorosos passam a ser percebidos como dor. Na enxaqueca com aura, além da dor de cabeça intensa, intermitente, latejante e com localização variada, existem sintomas transitórios decorrentes do mau funcionamento de alguma região específica do cérebro, que em geral antecedem a dor e duram de 20 a 60 minutos. Na maioria das vezes, essa região é relacionada ao processamento da visão, no lobo occipital do cérebro.

Por isso, os pacientes percebem flashes ou bolas de luz, raios em zigue-zague, visão embaçada, estrelas ou brilhos. Podem também perder uma parte do campo visual. Existem casos mais raros de alucinações visuais complexas, como, por exemplo, a perda da capacidade de reconhecer rostos (condição denominada prosopagnosia –, perceber o próprio corpo ou objetos ao redor pequenos ou grandes demais (visões liliputiana e brobdingnagiana, respectivamente)

Prosopagnosia
Alguns pacientes com enxaqueca podem sofrer durante a crise uma perda da capacidade de reconhecer rostos humanos (denominada prosopagnosia). Esses pacientes veem as pessoas como ilustrado na figura. Essa anormalidade visual provavelmente decorre de efeitos da depressão alastrante em regiões cerebrais, como a área fusiforme facial (FFA, na sigla em inglês). (foto cedida pelo autor)

A noção da passagem do tempo pode ser momentaneamente perdida, com sensação de que tudo passa rápido demais ou muito devagar. A noção de distância pode se perder, ou podem surgir percepções alteradas sobre si mesmo, como braços muito longos, corpo dividido ao meio ou a nítida sensação de que o próprio braço pertence a outra pessoa (‘síndrome da mão alienígena’). Essas alterações complexas da percepção sensorial e visual são conhecidas como ‘síndrome de Alice no País das Maravilhas’.

A enxaqueca é uma doença do cérebro, e só dele. A riqueza de alterações neurológicas evidencia que a doença não é provocada por anormalidade do fígado, sinusite ou disfunções da articulação temporomandibular, entre a mandíbula e o crânio. Esse tipo de erro é costumeiro, como também é comum imaginar que a enxaqueca tem causa ocular, psicológica, alérgica ou alimentar.

Chocolate, queijos ou vinhos não causam enxaqueca, embora possam favorecer algum ataque (como desencadeantes) em pacientes suscetíveis. Da mesma forma, a poeira não causa asma, mas existe maior chance de uma crise quando o indivíduo asmático entra em um ambiente empoeirado. Isso significa que, se alimentos não causam enxaqueca, sua suspensão não é eficiente como tratamento.

Você leu apenas o início do artigo publicado na CH 325. Clique aqui para acessar uma versão parcial da revista e ler o texto completo.

Maurice Vincent
Faculdade de Medicina e Serviço de Neurologia,
Hospital Universitário Clementino Fraga Filho,
Universidade Federal do Rio de Janeiro

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