Vírus chikungunya: uma nova ameaça

Vários fatores têm contribuído para a ocorrência de surtos localizados ou amplas epidemias causadas por arbovírus – termo derivado da denominação, em inglês, dos vírus transmitidos por artrópodes (arthropod-­borne virus). São exemplos o enorme deslocamento de pessoas em todo o planeta, a rapidez das viagens, a expansão da ocupação humana, a destruição de ambientes naturais e o aquecimento global. Além disso, o genoma dos arbovírus, composto por ácido ribonucleico (RNA), apresenta alta taxa de erros em sua replicação, aumentando a frequência de mutações que podem facilitar a adaptação desses vírus a variadas condições.

O chikungunya, um arbovírus de origem africana, é uma dessas novas ameaças à saúde humana. O primeiro surto documentado causado por esse vírus ocorreu em 1952 e 1953, na Tanzânia. Periodicamente, pequenos surtos são registrados na África, na Índia e no Sudeste Asiático, mas, a partir de 2004 e 2005, grandes epidemias ocorreram no Quênia (também na África), em diversas ilhas do oceano Índico e na Índia. Os últimos 10 anos mostraram uma dispersão global do vírus: nesse período, mais de 6,5 milhões de casos foram notificados. De doença tropical negligenciada, a febre chikungunya tornou-se um risco global à saúde. 

Desde a chegada do vírus às Américas, a Organização Panamericana da Saúde contabiliza 1,3 milhão de casos suspeitos, com 29,7 mil casos confirmados e 184 mortes

No final de 2013 foram detectados os primeiros casos, nas Américas, de infecção autóctone – quando a transmissão ocorre por meio de mosquitos nativos. A partir do final de 2014, a febre chikungunya se dispersou para a maior parte das ilhas do Caribe e para países da América Central, do Norte e do Sul, incluindo o Brasil. Desde a chegada do vírus às Américas, a Organização Panamericana da Saúde contabiliza 1,3 milhão de casos suspeitos, com 29,7 mil casos confirmados e 184 mortes.

No Brasil, Amapá, Bahia, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal, Minas Gerais e Roraima já notificaram casos autóctones. O alto índice de infestação pelos principais mosquitos transmissores (Aedes aegypti e Aedes albopictus), a falta de imunidade da população brasileira e o alto número de vírus no sangue na fase aguda da doença em humanos não permitem descartar a probabilidade de grandes epidemias no país.

O vírus e a transmissão

O vírus chikungunya (ou VCHIK) pertence ao gênero Alphavirus e à família Togaviridae. Seu genoma do tipo RNA tem uma cadeia simples de cerca de 11,7 mil nucleotídeos (as unidades das moléculas genéticas), que contêm instruções para a síntese de proteínas, tanto as necessárias à replicação viral quanto as que formam os envoltórios virais (o capsídeo, interno, e o envelope externo).

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Transmissões autóctones do vírus foram registradas em diversos países das Américas, inclusive no Brasil. A transmissão é facilitada pela grande presença do seu vetor, o ‘A. aegypti’. (imagem: Reprodução)

O VCHIK tem dois ciclos de transmissão. No ciclo silvestre, a transmissão ocorre entre mosquitos do gênero Aedes e macacos ou pequenos mamíferos. No ciclo urbano (endêmico ou epidêmico), a transmissão se dá entre mosquitos e humanos. Acreditava-se, até recentemente, que apenas o A. aegypti transmitia o chikungunya, mas o A. albopictus também adquiriu essa capacidade, graças a uma mutação no gene associado a uma das proteínas do envelope (detectada em estudos genéticos). 

No Brasil, essas duas linhagens do vírus já foram encontradas, o que amplia sua capacidade de dispersão, já que o A. albopictus tem ampla distribuição e hábitos diurnos, como o A. aegypti, mas é mais agressivo, vive mais tempo, resiste a temperaturas mais baixas e pode ocorrer em cidades ou áreas rurais.

Este artigo foi publicado na CH 325. Clique aqui para acessar uma versão parcial da revista e ler o texto completo, além de outros artigos da mesma edição.

 

Claudia Nunes Duarte dos Santos 
Instituto Carlos Chagas/ Fiocruz PR

 

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