O francês Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, Chevalier de Lamarck (1744-1829), foi um importante personagem na história da ciência. Sua contribuição para o desenvolvimento do que conhecemos hoje como teoria da evolução é bem divulgada, mas alguns autores, ao tentar resumir as ideias desse naturalista, omitem algumas informações e distorcem outras, criando assim ‘boatos’ sobre seu verdadeiro papel.

Os dois maiores boatos criados a respeito de Lamarck são: 1. suas ideias evolutivas se resumiam a duas leis, e 2. o inglês Charles Darwin (1809-1882), um dos autores da moderna teoria da evolução, se opôs a essas leis.

Assim, diante da pergunta “Quem foi Lamarck?”, um aluno de ensino médio pode responder “Foi o cara do pescoço da girafa”, ou até “Foi o cara que dizia o contrário de Darwin”. Essas respostas, e outras com conteúdo semelhante, permanecem vivas não apenas na boca dos alunos, mas também na de certos professores e no texto de alguns livros didáticos. Este ensaio, ao revisitar o legado de Lamarck, tenta desfazer esses boatos.

Teoria lamarckiana

A ‘progressão dos animais’ é o nome da teoria que Lamarck desenvolveu. No livro Philosophie zoologique (Filosofia zoológica, de 1809), ele fundamentou sua teoria em duas leis, conhecidas como ‘uso e desuso’ e ‘herança dos caracteres adquiridos’.

Já em Histoire naturelle des animaux sans vertèbres (História natural dos animais invertebrados, lançado em partes de 1815 a 1822), as leis passaram a ser quatro. Para melhor compreender a teoria lamarckiana, é preciso analisar essa última versão.

A primeira das quatro leis (‘tendência para o aumento da complexidade’) surgiu apenas no segundo livro e foi enunciada como uma tendência, de todos os corpos, para aumentar de volume, estendendo as dimensões de suas partes até um limite que seria próprio de cada organismo.

Jean-Baptiste Lamarck
Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829).

Lamarck, tentando fornecer evidências empíricas para essa lei, fez uma analogia entre organismos mais simples e mais complexos e as fases de desenvolvimento de um organismo (do ovo ao adulto), visando demonstrar que, assim como um ovo se modifica e se torna um embrião, evidenciando um aumento da complexidade, os organismos mais complexos também teriam surgido a partir dos mais simples. Portanto, segundo o naturalista, a vida tinha o poder de aumentar o volume e as estruturas do corpo.

Sobre a segunda lei (‘surgimento de órgãos em função de necessidades que se fazem sentir e que se mantêm’), Lamarck disse, em Filosofia zoológica, que os hábitos e as circunstâncias da vida de um animal eram capazes de moldar a forma de seu corpo.

Em História natural, afirmou que as antenas dos gastrópodes (como os caracóis) teriam surgido por ação dessa lei. Gastrópodes mais simples, explicou, diante da necessidade de sentir os objetos à sua frente, teriam concentrado ‘fluidos nervosos’ na região anterior do corpo, e estes, juntamente com outros fluidos corporais, estimularam a formação de novas estruturas, tecidos e órgãos.

Essa segunda lei gerou uma discussão sobre o sentido em que Lamarck usou a palavra francesa volonté. Esta é muitas vezes traduzida como ‘desejo’, mas uma melhor tradução seria algo como ‘ação gerada por uma necessidade’, e não ‘ação gerada por um desejo’.

Parece claro que Lamarck não se referia a um ‘desejo’, porque ele mesmo afirmava que “nem todos os animais têm a faculdade de sentir” (referindo-se a esponjas e águas-vivas, que não têm sistema nervoso) – se não sentem, não podem ter desejo. Se, para Lamarck, a diferenciação dos animais mais simples não ocorria por desejo, mas por uma necessidade fisiológica, essa última tradução para volonté seria mais apropriada.

Sobre uso e desuso

A terceira lei da teoria lamarckista (‘desenvolvimento e atrofia de órgãos em função de seu emprego’, ou ‘uso e desuso’) tinha sido apresentada como primeira na Filosofia. Lamarck disse que essa lei seria inútil, assim como a segunda, se os animais estivessem sempre nas mesmas condições.

No entanto, se em determinado local ocorressem mudanças e estas criassem, para os indivíduos que viviam ali, a necessidade de modificar seu comportamento, então esses indivíduos teriam que usar mais ou menos certas estruturas e isso levaria a alterações físicas.

Lamarck disse que essa lei seria inútil, assim como a segunda, se os animais estivessem sempre nas mesmas condições

Nesse caso, indivíduos da mesma espécie que habitassem ambientes diferentes, nos quais as mudanças fossem desiguais, não teriam as mesmas necessidades, o que levaria à formação de grupos também diferentes, gerando as raças. Portanto, essa lei explicaria como as mudanças no ambiente produziriam a diversidade observada nos seres vivos.

Evidências da operação dessa lei foram apontadas por Lamarck. A ausência de dentes nos tamanduás, por exemplo, seria explicada pela falta de uso e consequente atrofia e desaparecimento, assim como os vestígios de dentes em fetos de baleias (exemplos de ‘desuso’).

Já as girafas, que passam longos períodos se alimentando de folhas das copas de árvores altas, esticariam as pernas e o pescoço para alcançar seu alimento, o que teria levado ao crescimento dessas estruturas, e os quadrúpedes que pastam por longos períodos de tempo adquiririam cascos para sustentar um corpo muito pesado (exemplos de ‘uso’).

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Rodolfo Fernandes da Cunha Rodrigues
Instituto de Biologia
Universidade Federal Fluminense

Edson Pereira da Silva
Departamento de Biologia Marinha
Universidade Federal Fluminense

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