O passado submerso

Orientados por paleontólogos, mergulhadores resgataram fósseis de 14 espécies diferentes de animais submersos na caverna do poço Azul, na chapada Diamantina (BA). (fotos: Daniel Carneira / Grifa Mixer)

Chapada Diamantina, Bahia. Um local conhecido por suas belezas naturais é agora palco de uma verdadeira aventura paleontológica. Fósseis submersos de vários animais estão sendo resgatados a mais de 15 m de profundidade na caverna do poço Azul, no município de Nova Redenção. Já foram identificadas 14 espécies diferentes. Entre os achados, chama a atenção o de um esqueleto quase completo de um mamífero herbívoro gigantesco que viveu em todas as Américas até cerca de 11 mil anos atrás: a preguiça terrícola, que chegava a medir 6 m de comprimento.
 
Durante o trabalho, coordenado pelo paleontólogo Cástor Cartelle, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), também foram coletados fósseis de outra preguiça terrícola, que permitirão ao pesquisador fazer uma nova descrição dessa espécie, hoje classificada de forma equivocada. A expedição fará parte de um documentário, filmado também no Canadá e no Peru, sobre a vida e a extinção desses grandes mamíferos.
 
A descoberta desse sítio paleontológico no poço Azul ocorreu em 1995, quando mergulhadores encontraram um crânio que mais tarde seria identificado como o de uma preguiça gigante. Dois anos depois, o mergulhador e cinegrafista Túlio Schargel, durante trabalho de mapeamento da caverna, achou, a 15,5 m de profundidade, uma costela desse mamífero medindo 1,20 m. Então, ele entrou em contato com Cartelle para iniciar um projeto de retirada dos fósseis e realização do documentário, que conta ainda com a participação de outros dois paleontólogos, o canadense Gerry de Iuliis e o francês François Pujos, dedicados ao estudo da história das preguiças gigantes nas Américas. Mais tarde, a equipe descobriu outros sítios submersos no poço.
 
Os três paleontólogos e uma equipe de cerca de 30 pessoas (incluindo pesquisadores, mergulhadores e diretores e produtores do documentário) se reuniram em julho na Chapada Diamantina para o resgate dos fósseis. Foi retirado um esqueleto praticamente completo de uma preguiça terrícola da espécie Eremotherium laurillardi , a maior desse grupo de mamíferos que habitou as Américas até o final de um período conhecido como Pleistoceno, há cerca de 11 mil anos. Esse animal chegava a medir 6 m e ter o volume de um elefante, com cerca de cinco toneladas (ver ‘Preguiças terrícolas, essas desconhecidas’, em CH 161 ).
 
Cartelle calcula que o espécime encontrado tinha cerca de 4,5 m e era jovem, pois seus ossos não estavam totalmente solidificados. “Estamos interpretando que provavelmente era uma fêmea, por causa de algumas características de seu crânio e pela proporção de seus ossos, talvez 30% menores que os de outros indivíduos, que seriam os machos”, adianta. O paleontólogo brasileiro conta que essa espécie tinha os dentes formados somente por dentina, sem esmalte (ao contrário do que acontece com outros mamíferos), sendo alguns com lâminas e outros com cunhas cortantes separadas por um vale na superfície de mastigação. “Os dentes superiores e inferiores se encaixavam perfeitamente, permitindo que o animal picotasse a grama, seu principal alimento, de forma eficiente”, acrescenta.
 

À esquerda, a mão direita da maior espécie de preguiça terrícola já encontrada ( Eremotherium laurillardi ). À direita, tíbia, vértebra, úmero e outros fósseis de outra espécie de preguiça terrícola, do gênero Scelidotheriinae .

Nova descrição

Os pesquisadores também resgataram um osso do braço e outro da bacia de uma espécie menor de preguiça terrícola (do porte de um jegue) já conhecida, que, segundo Cartelle, não está classificada corretamente. Há 10 anos o paleontólogo encontrou fósseis do crânio e da mandíbula desse animal e aguardava a descoberta de outras peças para confirmar suas suspeitas. Agora, com o material recém-coletado, ele pretende fazer uma nova descrição da espécie, que deve, inclusive, ser alocada em outra família.
 
Além dessas duas preguiças gigantes, a equipe encontrou nos sítios do poço Azul fósseis de um toxodonte (animal semelhante a um rinoceronte) da mesma espécie dos que viveram na Argentina. Por causa de mudanças climáticas, esse e outros grupos teriam vindo para a região intertropical brasileira, onde encontraram temperaturas mais amenas. Também foram resgatados um fêmur de um mastodonte (do porte de um elefante asiático, mas com presas maiores), um par de placas de tatu gigante e ossos de um pequeno carnívoro chamado jaratataca ( Conepatus semiestriatus ), um veado, uma tartaruga, porcos, roedores, morcegos, marsupiais, lagartos, cobras e duas outras espécies de preguiças terrícolas. Segundo Cartelle, uma dessas preguiças era do tamanho de um boi pequeno e tinha um tipo de dente diferente, em formato triangular, e o palato (céu da boca) crescido, com sulcos que lembravam veias. “É possível que essa espécie se alimentasse mais de folhas”, afirma o paleontólogo. No total, os pesquisadores retiraram fósseis de 14 espécies diferentes de animais.
 

Entre os fósseis coletados, chama a atenção o esqueleto quase completo da maior das preguiças terrícolas, extinta há cerca de 11 mil anos. O exemplar encontrado, provavelmente uma fêmea jovem, media cerca de 4,5 m.

Uma explicação para a concentração desses fósseis no poço Azul é que os animais tenham sido carregados por enchentes ou rios até a caverna. O geólogo Ivo Karmann, do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo, explica que a caverna do poço Azul é uma formação de rocha calcária por onde passam rios subterrâneos (chamados condutos) e que se comunica com a superfície em uma área de depressão chamada dolina, formando uma espécie de funil. “Os animais que caem nessa depressão são jogados diretamente para dentro do poço na caverna”, completa. Segundo Karmann, a presença de preguiças terrícolas indica que o clima na região era úmido há 11 mil anos, com as estações seca e chuvosa bem definidas.

 

O esqueleto da preguiça gigante retirado do poço Azul será estudado no Museu de Ciências Naturais da PUC-Minas e, depois de preparado tecnicamente, retornará à chapada Diamantina, seu local de origem. “A idéia é construir um centro de exposições para abrigar o animal”, conta Túlio Schargel. O resgate dos fósseis fará parte do documentário ‘O Brasil da Pré-história – expedição preguiça gigante’, patrocinado pela Petrobrás e co-produzido pelas empresas Grifa Mixer e Gedeon Programmes. O filme deve ser comercializado para emissoras de TV e tem lançamento previsto para março de 2006.

 

 

Thaís Fernandes

Ciência Hoje/RJ
 

 

 

Matéria publicada em 01.08.2005

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