A Rainha Vermelha e o Bobo da Corte

Ilustração: Fernando Chamarelli.

Em 1859, Charles Darwin, um dos idealizadores da teoria da evolução por seleção natural, publicou seu livro mais famoso, A origem das espécies. Para esse naturalista inglês, explicar a multiplicação das espécies – segundo ele, “o mistério dos mistérios” – era um desafio.

Como parte das comemorações pelo bicentenário de nascimento de Darwin, o prestigioso periódico científico Science trouxe uma seção especial de artigos que reveem diferentes aspectos do que conhecemos hoje sobre a especiação, o processo que levou à formação de tantas espécies de seres vivos. Em um dos trabalhos, dois modelos, o da Rainha Vermelha e o do Bobo da Corte, são confrontados. Qual deles é o responsável por moldar a diversidade de seres vivos?

Breve contexto histórico. A teoria da evolução por seleção natural – talvez, a mais influente de todas as teorias científicas – foi criada pelos britânicos Charles Darwin (1809-1882) e Alfred Russel Wallace (1823-1913). Um primeiro esboço geral dessa teoria foi divulgado em 1º de julho de 1858, em uma reunião da Sociedade Lineana de Londres. No ano seguinte, Darwin publicaria mais detalhes em seu mais famoso livro, A origem das espécies, versão abreviada e simplificada de um manuscrito inacabado.

E a biologia e o mundo nunca mais seriam os mesmos.

Ao contrário do que o título possa sugerir, A origem das espécies não resolveu de todo o problema da multiplicação das espécies ou especiação (como uma população dá origem a duas ou mais populações evolutivamente divergentes). O melhor que Darwin fez foi insinuar possibilidades, a partir das quais esse e outros aspectos do darwinismo (corpo de conhecimento estruturado em torno da evolução por seleção natural, teoria que vê as mudanças na composição de populações como resultado de diferenças no sucesso reprodutivo de seus integrantes) vêm sendo explorados por seus sucessores.

Primeiro, o darwinismo original teve de se livrar dos resquícios do lamarckismo (teoria evolutiva que levava em conta mecanismos – hoje, desacreditados – como o uso e desuso dos órgãos e a transmissão de caracteres adquiridos), surgindo daí o chamado neodarwinismo. Nas décadas de 1910 e 1920, o darwinismo aproximou-se gradativamente da genética. Nas duas décadas seguintes, com a chamada síntese evolutiva, os padrões macroevolutivos, relacionados ao surgimento de grupos taxonômicos acima do nível de espécie (gêneros, famílias, ordens etc.), passaram a ser vistos como desdobramentos das mesmas forças microevolutivas que atuam no interior de espécies e populações.

E as coisas continuaram mudando. Na década de 1950, as inovações da incipiente genética molecular começaram a ser incorporadas à teoria da evolução. Em seguida, a abordagem molecular encontrou os biólogos de campo (ecólogos, pesquisadores do comportamento animal etc.), e dessa conjunção surgiram inovações importantes, incluindo definições mais rigorosas para vários conceitos da biologia. Atualmente, há quem já fale, por exemplo, em uma síntese evolutiva expandida. Mas essa é outra história…

Como parte das comemorações pelo bicentenário e também pelos 150 anos da primeira edição de A origem das espécies, a Science de 5/2/2009 trouxe uma seção especial com cinco artigos de revisão sobre diferentes aspectos do processo de especiação. Por limitação de espaço, vamos comentar aqui apenas um desses trabalhos, embora a edição como um todo traga algumas das discussões mais efervescentes da biologia evolutiva contemporânea.

Fatores bióticos e abióticos
O artigo escolhido tem um título peculiar: ‘A Rainha Vermelha e o Bobo da Corte: diversidade de espécies e o papel de fatores bióticos e abióticos ao longo do tempo’. Nele, Michael J. Benton, da Universidade de Bristol (Inglaterra), examina até que ponto fatores bióticos (modelo Rainha Vermelha) e fatores abióticos (modelo Bobo da Corte) seriam responsáveis por moldar a diversidade de espécies.

O primeiro modelo, cujo nome faz alusão à Rainha Vermelha, personagem do livro Alice através do espelho, de Lewis Carroll (1832-1898), foi sugerido pelo biólogo norte-americano Leigh Van Valen, em 1973. Segundo esse modelo, as interações entre os seres vivos seriam os principais condutores da mudança evolutiva. É o que ocorre, por exemplo, quando um novo tipo de defesa surge em uma população de presas. Com isso, o surgimento de todo e qualquer tipo de contra-ataque por parte dos predadores passa a ser algo extremamente vantajoso.

Não há soluções propriamente definitivas para essas ‘corridas armamentistas’, pois a evolução de novos tipos de defesa (ou de ataque) produz repercussões que vão e voltam. Assim, a exemplo do que ocorre no livro de Carroll, as espécies estão sempre ‘correndo para permanecer no mesmo lugar’, isto é, as linhagens mais bem-sucedidas simplesmente persistem, enquanto as outras vão desaparecendo.

O modelo Bobo da Corte [Court Jester, no original em inglês], proposto pelo paleontólogo norte-americano Anthony D. Barnosky, em 2001, ressalta a importância evolutiva das perturbações ambientais promovidas por fatores abióticos, como mudanças climáticas e soerguimento de montanhas. Mais especificamente, a história das linhagens dependeria, em boa medida, de suas respostas às mudanças imprevisíveis que ocorrem no ambiente físico, lembrando o comportamento caprichoso dos bobos da corte dos tempos medievais.

Cabe ressaltar, porém, que não há ‘corridas armamentistas’ entre linhagens de seres vivos e elementos não-vivos do ambiente, pois estes últimos são evolutivamente inertes – fótons de luz e moléculas de água, por exemplo, não mudam, ao longo do tempo, em função de serem ou não consumidos por seres vivos. Perturbações no ambiente físico podem exigir a evolução de novos níveis de tolerância, mas isso não desencadeia uma sucessão de ajustes mútuos entre seres vivos e elementos não-vivos.

E quem seria, portanto, o grande responsável por moldar a diversidade das espécies, a Rainha Vermelha ou o Bobo da Corte? Na opinião de Benton, os dois modelos não são necessariamente excludentes. Eles apenas parecem operar em escalas (espaciais e temporais) distintas. Assim, enquanto competição, predação e outros fatores bióticos moldariam a evolução no interior de ecossistemas locais por períodos relativamente curtos de tempo, fatores abióticos, como mudanças climáticas e eventos tectônicos ou oceânicos, poderiam moldar padrões de evolução em larga escala e por milhares ou milhões de anos.

Como afirma o autor, resta saber se essa visão pluralista do processo evolutivo vai facilitar o diálogo entre as diferentes escolas de pensamento envolvidas com o estudo da diversidade biológica.

Felipe A. P. L. Costa
Biólogo e autor de Ecologia, evolução & o valor das pequenas coisas (2003) e
A curva de Keeling e outros processos invisíveis que afetam a vida na Terra (2006)

 

Outros conteúdos desta edição

Outros conteúdos nesta categoria

614_256 att-22975
614_256 att-22985
614_256 att-22993
614_256 att-22995
614_256 att-22987
614_256 att-22991
614_256 att-22989
614_256 att-22999
614_256 att-22983
614_256 att-22997
614_256 att-22963
614_256 att-22937
614_256 att-22931
614_256 att-22965
614_256 att-23039