Produtores rurais poderão usar método mais seguro – ou melhor, menos perigoso – para pulverizar suas lavouras com agrotóxicos, graças ao desenvolvimento de um novo gel, produzido pela química Patrícia Dantas, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em Sorocaba.

“A substância demonstrou ser capaz de aprisionar o princípio ativo do herbicida no interior de pequenos polímeros”, diz Dantas, que realizou a pesquisa durante seu mestrado. “É como uma esponja.” Assim, após aplicado, o veneno é liberado aos poucos na plantação – processo que os cientistas chamam de liberação controlada –, protegendo o agricultor dos inúmeros riscos oferecidos pelo contato direto com o agrotóxico.

Procedimento comum dos trabalhadores do campo é diluir o herbicida em água e, em seguida, aspergilo sobre os cultivos. Esse contato traz problemas graves, como, por exemplo, a contaminação do agricultor (e, muitas vezes, de sua família), a dispersão do veneno por meio do vento e a drenagem do agrotóxico para os cursos d’água, entre outros. Com o gel desenvolvido na UFSCar, os danos poderão ser minimizados de forma prática e eficiente.

Aplicação de fungicida
Agricultores aplicam fungicida em parreirais nos arredores do município de Caxias do Sul (RS). (foto: Luiz Chaves/ Correio Riograndense)

O agrotóxico estudado por Dantas foi o Paraquat, um dos herbicidas mais usados no Brasil para controle de ervas daninhas. De toxicidade elevada, já causou milhares de mortes no campo ao redor do mundo – a partir da década de 1980, foi banido na Dinamarca, Suécia, Finlândia e Áustria.

Agricultura envenenada

O Brasil é o maior consumidor mundial de defensivos agrícolas. Enquanto o país comemora números positivos na economia – boa parte por mérito do agronegócio –, a realidade no campo é a de uma agricultura envenenada do Norte ao Sul.

O Brasil é o maior consumidor mundial de defensivos agrícolas

Segundo o geógrafo Ronaldo Decicino, da Universidade de São Paulo (USP), que estuda a questão dos agrotóxicos, o Brasil ainda não desenvolveu uma política eficiente para garantir saúde e educação a seus trabalhadores rurais. Um exemplo “está nas próprias faculdades de medicina, que muitas vezes não incluem em seus currículos a disciplina de toxicologia, que poderia ensinar a diagnosticar envenenamentos e garantir orientação adequada aos pacientes da zona rural que apresentassem quadros de intoxicação”.

O gel desenvolvido na UFSCar acena com solução parcial e viável para o drama dos agrotóxicos no país. “É a primeira vez que a capacidade de absorção dos géis, já explorada na indústria farmacêutica, é testada no segmento agrícola”, diz Vagner Botaro, orientador do estudo.

Em laboratório, a liberação controlada do herbicida funcionou muito bem. A pesquisadora pretende agora, em seu doutorado, levar o gel às lavouras para ser testado na prática. “Estamos otimistas”, diz Botaro. “O projeto ainda é muito recente, mas várias empresas nos procuraram. Agora trabalhamos para patentear a ideia.”

Henrique Kugler
Ciência Hoje/ RJ

Texto originalmente publicado na CH 292 (maio de 2012).

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