Departamento de Filosofia
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Ciência Hoje/RJ

No dia em que a ciência no Brasil for tão popular quanto o samba e o futebol, aí sim o físico alemão naturalizado brasileiro Ernst Wolfgang Hamburger (para os amigos, Ernesto) vai se sentir realizado. Pelo menos é o que ele costuma dizer sempre que surge uma oportunidade. A meta, inalcançável ou não, tem servido de inspiração para Hamburger nas últimas cinco décadas, nas quais se dedicou ao ensino de física e à divulgação científica.

Nascido em 1933, em Berlim, Alemanha, Hamburger veio para o Brasil com a mãe, o pai e os irmãos quando tinha apenas três anos. A família, de origem judaica, fugia do regime nazista, que começava a ganhar força no país. Aqui se tornou Ernesto. “Minha mãe só me chamava de Wolfgang, o restante das pessoas dizia Ernst, mas os brasileiros não conseguiam pronunciar direito meu nome, e então resolvi desde cedo aportuguesar para Ernesto”, conta.

Depois de uma infância marcada pelas brincadeiras nas ruas residenciais da zona oeste de São Paulo, Hamburger ingressou no curso de física na Universidade de São Paulo (USP) em 1951, onde assistiu ao nascimento da física nuclear no Brasil e se tornou professor. A partir daí, trilhou uma carreira acadêmica de pesquisa e concluiu o doutorado na área nuclear pela Universidade de Pittsburgh (EUA) em 1959, na companhia da esposa e também física Amélia Império Hamburger – falecida em 2011 em decorrência de um câncer contra o qual lutava desde 2005.

A paixão por comunicar falou mais alto e o físico enveredou de vez pelo caminho da divulgação da ciência

Em 1970, durante o regime militar, foi preso com sua esposa por abrigar em seu lar perseguidos políticos. Decepcionado com o clima político do país e insatisfeito com os interesses bélicos que pairavam sobre a física nuclear na época, a paixão por comunicar falou mais alto e o físico enveredou de vez pelo caminho da divulgação da ciência. Passou a se dedicar ao desenvolvimento de novas estratégias de ensino de física baseadas em experimentos práticos e novas tecnologias. Deu aulas públicas de física, organizou diversas exposições sobre ciência na USP e participou da produção de programas de televisão educativos exibidos no canal Cultura.

A partir da década de 1990, se dedicou à divulgação em museus: entre 1994 e 2003, como diretor da Estação Ciência, centro de ciências interativo da USP e, em 1998, como um dos fundadores da Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciência (ABCMC). Hoje, é do Conselho do museu de ciências mais visitado em São Paulo e no Brasil, o Catavento Cultural e Educacional.

Sua atuação na área foi reconhecida com uma longa lista de premiações, entre elas o prêmio José Reis de Divulgação Científica, concedido anualmente pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Kalinga de Popularização da Ciência, concedido anualmente pela Unesco, o Palmes Académiques do governo da França e o Prêmio Latino-americano de Popularização da  Ciência e Tecnologia, concedido a cada dois anos pela Rede Latino-americana de Popularização da Ciência (RedPop). Em 2012, recebeu da Câmara Municipal de São Paulo o título de Cidadão Paulistano.

Aos 81 anos, viúvo e pai de cinco filhos adultos (todos atuantes nas áreas de humanidades e comunicação) e avô de seis netos, Hamburger não sossega. Atualmente, se dedica a projetos como a organização do acervo histórico do Instituto de Física da USP e colabora no Setor de Educação e Difusão do Conhecimento do Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) em Neuromatemática. “Até os 100, ainda tenho muito para fazer”, justifica.

Hamburger e físicos
Hamburger conversa com os físicos Mário Schenberg (à esquerda), Iuda Dawid Goldman vel Lejbman e Alberto Luiz da Rocha Barros, em 1984. (foto: Acervo pessoal)

Como foi o processo de migração da sua família para o Brasil?
Ernst: Minha mãe contava que ela e meu pai estavam muito preocupados com um político chamado Hitler que tinha chegado ao poder. Era uma época de crise política no cenário da Alemanha e mesmo mundial. Mas eu lembro pouco da Alemanha, pois vim para o Brasil muito cedo. Meu pai foi soldado alemão na Primeira Guerra, quando foi gravemente ferido. Ele perdeu um dos braços, que teve de ser amputado, e o outro quase não movia. Naquela época, havia um cirurgião alemão que tinha descoberto vários modos de melhorar o efeito das amputações introduzidas pela guerra. Ele inventou um braço artificial que permitia fazer alguns movimentos controlados por dois pinos presos ao músculo que restava. Eram movimentos limitados, como pegar um copo de água, mas meu pai se beneficiou com um desses braços.

Ele estudou direito e, em 1935, já era um juiz avançado na carreira, próximo a se aposentar. Nesse momento, todos os funcionários judeus estavam sendo demitidos e ele, por ser herói de guerra, foi um dos últimos a serem dispensados, em dezembro de 1935. De certo modo, foi uma sorte para nós, porque ele decidiu sair da Alemanha imediatamente. Escolheu sair na época das Olimpíadas de Berlim, em 1936, porque achava, com razão, que os alemães estariam querendo mostrar uma face mais civilizada para o mundo.

Nós conseguimos deixar a Alemanha por meio de uma emigração normal. Levamos os nossos pertences, apesar de haver um imposto de fuga a pagar ao Reich, que tirava praticamente todo o dinheiro dos emigrantes. Meu pai conseguiu, por intermédio de amigos, transferir parte do dinheiro para o Chile e trazer duas caixas com nossos pertences para o Brasil. Chegamos em outubro de 1936, meu pai, minha mãe e quatro filhos, inclusive eu, o caçula.


Por que a família escolheu o Brasil como destino?
Pela dificuldade de obter visto de entrada em muitos países, como Estados Unidos e Inglaterra. Era muito difícil conseguir emprego também. Meu pai tinha um amigo da época de estudante que tinha vindo morar no Brasil. Ele percebeu, antes de muita gente, que os judeus deviam sair da Alemanha e ficava insistindo para que meu pai viesse e conseguiu o visto para ele. No Brasil, havia uma ordem secreta de Getúlio para não deixar os judeus entrarem no país, mas essa ordem não era cumprida. Nos anos seguintes, vieram muitos outros judeus da Europa, tanto que esse amigo do meu pai acabou organizando, com e para os recém-chegados, a Congregação Israelita Paulista (CIP), que foi importante para ajudar os imigrantes.

Minha mãe, por exemplo, foi cofundadora de um lar de crianças, para que as mães pudessem deixar os filhos lá durante o dia enquanto trabalhavam. Esse lar existe ainda hoje e é ocupado por uma maioria de crianças brasileiras não judias. É uma instituição modelo, que faz um acompanhamento detalhado de cada criança e ajuda na colocação profissional dos jovens, após os estudos.


Parece que havia uma união forte com a comunidade israelita quando vocês chegaram. Como era a relação com os brasileiros? O senhor chegou a aprender português assim que chegou?
Eu brincava muito com a molecada na rua. São Paulo era muito diferente de hoje. Morava no que hoje é o Jardim América, perto da Rua Augusta, que não era um bairro rico. Aprendi português brincando. Quando chegou a hora de estudar, fui para escola inglesa, porque meus pais queriam uma educação próxima da europeia e, obviamente, não alemã, muito influenciada então pelo nazismo. Com nossos pais, falávamos alemão. Mas, entre os irmãos, lembro de falar português. Fui alfabetizado em alemão, em casa, antes de ir para escola, aos sete anos. A escola era bilíngue, de manhã tínhamos aulas em português e, à tarde, em inglês.


O senhor e sua família sentiram alguma discriminação por serem alemães aqui no Brasil durante a guerra?
Sim, mas só de forma anedótica. Era proibido falar alemão na rua, uns conhecidos nossos estavam falando o idioma e um delegado que passava quis prendê-los. A desculpa que deram foi que estavam falando em alemão para o bem de um brasileiro. Então não foram presos. Na verdade, senti muito pouca discriminação seja por ser judeu ou alemão; fomos muito bem recebidos no Brasil.


Sua vida escolar teve influência sobre a escolha de se tornar físico?
No ginásio, não. Só pensei na carreira depois, quando fui para o Colégio Estadual Presidente Roosevelt, um dos poucos estaduais que havia em São Paulo. Lá havia uma espécie de vestibulinho para entrar, porque havia mais candidatos que vagas. Entrava um de quatro candidatos. Como eu era bom aluno, não tive dificuldade de entrar. Lá fiz vários amigos, um deles o hoje físico Moysés Nussenzveig. Ficamos muito próximos; tínhamos o interesse comum pela física. Foi isso de certa forma o que me levou a escolher a carreira.


A família aceitou bem sua escolha?
A família recomendava agronomia, engenharia, comércio ou algo que desse dinheiro. Mas meus pais não tiveram influência suficientemente forte sobre mim. Meu irmão mais velho fez engenharia e minha irmã fez sociologia, que naquele tempo era uma novidade. Meu outro irmão teve sucesso em uma carreira comercial.

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Antonio Augusto Passos Videira
Departamento de Filosofia
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Sofia Moutinho
Ciência Hoje/ RJ

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