Estudo com células produtoras de dopamina, neurotransmissor relacionado à sensação de prazer e cuja concentração no cérebro aumenta devido ao uso de cocaína, revela que a droga provoca aumento da expressão de uma proteína envolvida na ativação de genes relacionados à morte celular, o NF-kB. Mais: mostra que, quando a atuação do NF-kB é inibida, a morte de células no cérebro provocada pela cocaína aumenta. O resultado sugere que essa proteína protege as células da ação tóxica da droga.

A cocaína é uma das drogas mais consumidas no mundo atualmente. Ela age inibindo a remoção do excesso de dopamina para o interior da célula: com mais dopamina circulante no cérebro, o usuário tem a sensação de prazer exacerbada. No entanto, o acúmulo de dopamina no tecido cerebral pode provocar a morte das células, acarretando danos ao sistema nervoso central.

Uma das células produtoras de dopamina é o neurônio dopaminérgico. A ação da cocaína sobre essas células foi o alvo das pesquisas realizadas por Lucilia B. Lepsch durante seu doutorado no Departamento de Farmacologia, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP), orientado pelo neurofarmacologista Cristoforo Scavone.

No estudo, Lepsch expôs colônias de células dopaminérgicas à droga. “Observamos que a expressão do NF-kB aumentou nas células expostas à cocaína e que, quando usamos inibidores dessa substância, a morte celular aumentou. Esses resultados sugerem que o NF-kB pode ter um papel de proteção nessas células”, afirma a pesquisadora.

Outros envolvidos
Lepsch investigou ainda a ação da cocaína em outros dois tipos celulares: as células estriadas e as células do mesencéfalo, área do cérebro nas quais a droga atua. Nesses casos, a morte parece ter sido causada pelo surgimento de espécies reativas de oxigênio ou radicais livres, o que também pode ser resultado do aumento da concentração da dopamina provocado pela cocaína. O processo é conhecido como estresse oxidativo e está envolvido no surgimento de doenças como o mal de Parkinson.

Os próximos estudos da pesquisadora serão direcionados ao entendimento da influência da cocaína nos processos inflamatórios. “A cocaína pode influenciar o processo inflamatório, por isso, por exemplo, portadores do vírus do HIV que fazem uso da droga são mais suscetíveis a infecções desse tipo.”

Segundo Lepsch, é sabido que o uso de cocaína prejudica o funcionamento das células, podendo levá-las à morte, mas como isso acontece não é plenamente conhecido. “A pesquisa básica aumenta o conhecimento sobre um determinado assunto. Nesse caso, saber mais sobre a ação da cocaína pode, no futuro, levar ao desenvolvimento de melhores tratamentos para dependentes ou para pessoas que já tiveram o tecido cerebral comprometido pelo uso da droga.”

Mariana Ferraz
Ciência Hoje / RJ

 

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