Robert Boyle nasceu em uma família irlandesa de grande prestígio e fortuna, o que lhe permitiu formação que incluiu uma longa viagem à Europa continental. Aí teria entrado em contato com a então nova ‘filosofia natural’ e a oportunidade de discutir o trabalho de laboratório, que parece ter sido seu interesse maior.

De volta às Ilhas Britânicas, despertou a atenção de grupos que dariam origem à Royal Society de Londres. Um deles, ainda na década de 1640, se organizou em torno de Samuel Hartlib (c.1600-1662), responsável por constituir uma rede de correspondentes com metade da Europa.

Chamado ‘Colégio Invisível’, um de seus objetivos era destacar o papel da nova ciência para o desenvolvimento da humanidade. Os seus ‘encontros’ se davam por correspondência.

Um segundo grupo, estabelecido em Oxford, se tornaria, na década de 1650, um porto seguro para professores e pensadores envolvidos com a nova ciência. Denominado por alguns ‘Sociedade Filosófica’, esse grupo convidou Boyle a se mudar para Oxford e instruí-los nas artes do laboratório. Boyle aceitou o convite, fixando-se em Oxford por longo período.

Os dois grupos tiveram grande importância no trabalho de Boyle, em particular na elaboração de O químico cético. Do primeiro, ele recebeu a incumbência de compor uma obra que expusesse a base da filosofia experimental. No segundo, Boyle encontraria ambiente ideal para reelaborar suas ideias sobre a experimentação.

Concepções corpusculares

Boa parte das obras que publicou nos anos 1660 teve sua primeira forma ainda nessa fase inicial em Oxford e circulou em manuscrito. É o caso de O químico cético, cuja versão preliminar está nos arquivos da Royal Society.

Descoberto e comentado pela historiadora de química Marie Boas Hall (1919-2009) na década de 1950, esse texto tem sua única cópia conhecida no caderno de anotações do filósofo natural alemão Henry Oldenburg (c.1619-1677), mais tarde secretário da Royal Society.

O químico cético, de Roberto Boyle
Frontispício da primeira edição de ‘O química cético’, publicada em 1661. (foto: Wikimedia Commons)

Segundo Boas, embora as ideias fundamentais da obra estejam presentes em ambas as versões, há diferenças não só de estilo como também de conteúdo entre os dois textos. Enquanto a versão preliminar é um texto corrido, a obra publicada em 1661 apresenta-se sob a forma de diálogo, como era comum na época.

Logo de início um narrador introduz os participantes do encontro ocorrido nos jardins de Carnéades. Este representaria o filósofo natural (o próprio Boyle, segundo alguns), a que se juntam Eleutério (representando o ‘livre pensador’), Filopono (defensor das ideias químicas, ou espagíricas) e Temístio (nome de um comentador de Aristóteles).

O diálogo só existe no início do texto, e Carnéades está livre para refutar tanto a teoria aristotélica dos quatro elementos (água, terra, fogo e ar), quanto os três princípios espagíricos (enxofre, mercúrio e sal), presentes nas teorias do médico e alquimista suíço Teofrasto Paracelso (1493-1541).

Ao mesmo tempo, Carnéades/Boyle propõe suas concepções corpusculares sobre a matéria, que explicariam melhor os processos ocorridos no laboratório.

Segundo Carnéades, corpúsculos de diferentes tipos, combinados entre si, dariam origem aos corpos conhecidos. Sua classificação dos corpúsculos iniciava-se pela prima naturalia, entidade muito pequena, sólida e indivisível, embora a mente divina a pudesse dividir infinitamente.

Ao mover-se no vácuo, a prima naturalia formaria aglomerados homogêneos, tão firmes e coesos que persistiam em soluções e demais operações químicas. Tais aglomerados, denominados corpúsculos secundários, eram responsáveis por características imutáveis da matéria.

Vários graus de complexidade podiam ser reconhecidos nos corpúsculos secundários, mas estava sempre garantida a propriedade de atuarem como entidade única.

A última classe dos corpúsculos seria constituída pelas substâncias de fato compostas, assim consideradas por se apresentarem como heterogêneas e se recombinarem com facilidade.

Essas ideias estão tão resumidas em O químico cético que o próprio Carnéades menciona a promessa feita por “Mr. Boyle” de desenvolvê-las no futuro, o que ocorrerá em A origem das formas e qualidades, de 1666.

Problemática, mas popular

Boyle buscava, assim, oferecer uma teoria articulada para resolver inconsistências notadas em situações em que a teoria se encontrava desconectada das observações da natureza e da prática laboratorial.

Essa seria uma forma de aproximar o filósofo natural do trabalho dos chamados espagíricos (ou químicos), de quem não se sentia de modo algum ‘inimigo’, como declara logo nas primeiras páginas do prefácio de O químico cético.

Embora O químico cético não tenha sido a primeira publicação de Boyle e esteja longe de ser a mais primorosa, a obra se tornou a mais popular, pois resume suas principais ideias

Embora O químico cético não tenha sido a primeira publicação de Boyle e esteja longe de ser a mais primorosa, a obra se tornou a mais popular, pois resume suas principais ideias.

Em termos de edição, talvez tenha sido a mais problemática. Sua forma de diálogo não vai além da primeira parte, apresentando problemas de sequência ou sobreposições apressadas.

Além disso, coroam a primeira edição uma longa errata e a promessa de uma nova edição, corrigida. Isso só ocorreria em 1680, junto com uma obra anexa que complementaria as ideias de O químico cético.

Ana Maria Alfonso-Goldfarb
Márcia H. M. Ferraz
Centro Simão Mathias de Estudos em História da Ciência
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

Texto originalmente publicado na CH 288 (dezembro de 2011).

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