Eis experimento engenhoso, mostrando que, em ciência, criatividade conta muito.

Fêmeas das vespas Polistes dominulus – no Brasil, conhecidas pela designação genérica de vespas-caboclas, famosas pelos vespeiros que parecem feitos de papel – se engajam em brigas com companheiras para mostrar quem é que manda no pedaço. Essa agressividade (ou capacidade de luta) está demonstrada visualmente no padrão facial, reflexo da quantidade de hormônio. Ou seja, as mal-encaradas têm comportamento agressivo.

Mas o que acontece quando uma boazinha ganha cara da malvada? Ou passa, mesmo com cara de calma, a se comportar agressivamente? E o que ocorre quando a boazinha ganha maquiagem de malvada e boa dose de hormônio?

O que acontece quando uma vespa boazinha ganha cara da malvada?

Isso foi o que investigaram a bióloga Elizabeth Tibbetts e a doutoranda Amanda Izzo, ambas da Universidade de Michigan (Estados Unidos), em estudo publicado no fim de setembro na revista Current Biology.

O experimento concebido por ambas respondeu a essas perguntas. As pesquisadoras adotam três engenhosas estratégias em fêmeas com baixa agressividade: i) pintaram a face delas para que parecessem valentonas; ii) aplicaram nelas hormônio da agressividade; iii) fizeram maquiagem e reposição hormonal.

Feitas as transformações, as fêmeas alteradas foram postas cara a cara com rivais e filmadas por duas horas. Resultados por grupos: i) as boazinhas maquiadas foram punidas severamente; ii) as sem maquiagem, mas com hormônio aumentado, apanharam pouco (mas as adversárias se recusavam a se render a elas); iii) as maquiadas e com hormônio não foram incomodadas.

Conclusão: a coisa fica feia para a fêmea se aspecto e comportamento não batem. 

Vespas 'boazinhas' e agressivas
Quem é quem na foto: as vespas de baixa agressividade são a 1ª da primeira coluna e a 2ª da segunda coluna e também a 2ª da terceira coluna – sendo a mais boazinha a que está no centro do mosaico. As outras sinalizam alta capacidade de luta. Entre estas, a 3ª da segunda coluna (aquela com três manchinhas) é a mais valentona (foto: Elizabeth Tibbetts).

Vantagem evolutiva

Mas qual a vantagem de ter sinais de agressividade se a rival vai encarar essa falsa fêmea de qualquer modo? Para as pesquisadoras, a resposta em relação a essas fêmeas tingidas e alteradas depende do contexto.

A punição social pode ter se desenvolvido para manter a honestidade da sinalização

Tibbetts explica para a CH. Se, em jogo, estão recursos de baixo valor (por exemplo, comida quando não se está com muita fome ou um vespeiro com poucos ovos), elas podem passar como valentonas sem serem incomodadas.

Mas, se algo de valor está sendo disputado (vespeiro com muitas larvas e pupas, comida quando se está com fome etc.), então vale encarar para conferir se a cara corresponde ao comportamento.

Para as autoras, ao longo da evolução, a punição social pode ter se desenvolvido para manter a honestidade da sinalização.

Cássio Leite Vieira
Ciência Hoje / RJ

Texto originalmente publicado na CH 275 (outubro/2010).

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