Lixo eletrônico: gestão e sustentabilidade

Os resíduos eletrônicos poderiam deixar de ser uma ameaça ao ambiente e se tornarem um modelo de negócio, com geração de emprego e renda, dentro do conceito de economia circular?

Até o próximo dia 30 de agosto encontra-se em consulta pública o documento para o acordo setorial entre os agentes participantes do sistema de logística reversa de equipamentos eletroeletrônicos no Brasil. Este documento especifica os requisitos para a gestão dessa categoria de resíduos e representa um marco em um segmento cuja regulamentação teve início em 2010. Estamos falando de lixo eletrônico: algo que produz impacto ambiental, mas também tem possibilidade de retorno financeiro, a partir da recuperação de materiais valiosos como ouro, platina e terras raras. O Centro de Tecnologia Mineral está desenvolvendo uma pesquisa a respeito do potencial de recuperação de terras raras. A proposta tem como ponto forte a proposição de um modelo de mineração urbana, sinalizando que tanto a pesquisa quanto os instrumentos regulamentadores podem convergir para a sustentabilidade de processos produtivos, o estabelecimento de novos modelos de negócio e geração de emprego e renda dentro do conceito de economia circular. Qual a sua opinião sobre este assunto? Têm dúvidas? Participe do chat da Ciência Hoje. Use a seção abaixo para interagir com a cientista Lucia Xavier!

Lucia Xavier
Centro de Tecnologia Mineral – CETEM

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Matéria publicada em 07.08.2019

COMENTÁRIOS

  • Alicia Ivanissevich

    Uma de minhas preocupações é como será feita a coleta do lixo eletrônico, pois a maior dificuldade hoje, na minha opinião, é conscientizar a população sobre a necessidade de separar o tipo de lixo para reciclagem, além de a prefeitura providenciar esse tipo de coleta seletiva.

    Publicado em 7 de agosto de 2019 Responder

    • Lúcia Xavier

      Alicia, muito importante a sua questão.
      De fato, há pesquisas que mostram a importância da conscientização dos consumidores (pessoa física ou empresas) para o sucesso da gestão de resíduos.
      Por ser classificado como residuos com potencial de risco, os eleteoeletrônicos não seriam passíveis de coleta por meio seletivo. Assim, a princípio, há três formas de se coletar os resíduos eletrônicos: em pontos de entrega voluntaria (PEVs), campanhas ou coleta in loco. Todas em vigor no país, mas muito pouco difundidas ainda.

      Publicado em 7 de agosto de 2019 Responder

  • Ana Maria

    Qual a situação atual na gestão de resíduos eletrônicos no Brasil?

    Publicado em 7 de agosto de 2019 Responder

    • Lúcia Xavier

      Ana Maria, uma questão bem ampla. Vou tentar sintetizar aqui.
      Os resíduos eletroeletrônicos estão regulamentados no Brasil desde 2010 a partir da Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS (Lei 12.305 e Decreto 7.404). No entanto, apenas a partir do Acordo Setorial (http://consultaspublicas.mma.gov.br/eletroeletronicos/) serão definidos prazos e metas.
      De acordo com a Lei, os produtores, importadores, comerciantes e distribuidores são responsáveis por implementar o Sistema de Logística Reversa, ou seja, a coleta e destinação ambientalmente adequada dos resíduos eletroeletrônicos.
      Estima-se que mundialmente, apenas 20% dos resíduos tecnológicos sejam destinados de forma adequada. Seguramente no Brasil o percentual é ainda menor, mas não temos informações precisas sobre o tema. Estimativa da Universidade das Nações Unidas (UNU) afirma que o Brasil gera cerca de 1,5 milhão de toneladas de resíduos eletrônicos anualmente. O que equivale a cerca de 7 quilos por habitante por ano.
      Estamos com duas pesquisas neste sentido no CETEM. Estimando-se os valores de geração pode-se implementar técnicas de coleta e processamento mais eficientes e sustentáveis.

      Publicado em 8 de agosto de 2019 Responder

  • João Raphael

    Qual o impacto do lixo eletrônico no meio ambiente? Quais as principais consequências?

    Publicado em 8 de agosto de 2019 Responder

    • Lúcia Xavier

      João Raphael, agradeço a pergunta!
      Os resíduos dos equipamentos eletroeletrônicos possuem uma grande diversidade de materiais como plástico, vidro e metais. São os diferentes tipos de metais que apresentam maior potencial de impacto ao meio ambiente e à saúde humana. Os metais com potencial tóxico ou contaminante podem bioacumular no organismo causando o comprometimento de funções vitais. Por isso, são classificados internacionalmente como resíduos perigosos. Era procedimento usual no passado, por exemplo, a quebra de lâmpadas fluorescentes para compactação de carga. Hoje é amplamente informado, inclusive nas embalagens de algumas lâmpadas, sobre a presença de vapor de mercúrio em sua composição.
      Em 2014, com vários colaboradores, publicamos um livro que apresenta mais detalhes sobre o tema: https://www.sciencedirect.com/book/9788535271829/gestao-de-residuos-eletroeletrônicos.

      Publicado em 8 de agosto de 2019 Responder

  • Marita Alves

    Existe um site com informações de postos de coleta ou serviço de coleta por estado? Já procurei e não encontrei. Seria muito importante

    Publicado em 8 de agosto de 2019 Responder

    • admin

      Prezada Marita.
      Sim, temos algumas iniciativas nesse sentido
      Foram publicados Manuais para a Destinação de Resíduos nos estados de Pernambuco (http://www.semas.pe.gov.br ) e no Rio de Janeiro (https://cetem.gov.br/livros).
      Ainda é uma proposta pioneira e que merece aprofundamento e ampliação da abrangência. Estamos, nesse momento, estabelecendo parcerias para concretizar a cobertura das regiões Sul e Sudeste do país, onde se concentra mais de 50% do consumo de equipamentos eletroeletrônicos.
      Espero ter ajudado, mas a equipe do CETEM fica a disposição (www.cetem.gov.br) para ajudar no que for possível.

      Publicado em 9 de agosto de 2019 Responder

  • Leandro Nunes

    Acho fundamental que iniciativas relacionadas aos resíduos eletrônicos saiam do papel. Tenho acumulado coisas velhas, q não funcionam ou não têm mais utilidade aqui em casa, por não saber o que fazer. De cabos a laptop quebrado há mais de uma década…. Sem falar de celulares. É uma pena q os produtos tenham se tornado tão descartáveis também

    Publicado em 8 de agosto de 2019 Responder

    • Lúcia Xavier

      Prezado Leandro,
      Fizemos um estudo preliminar recente e identificamos que o índice de retenção do brasileiro (percentual de indivíduos que retêm os esquipamos fora de uso) é estimado em 84% (https://www.researchgate.net/publication/331357472_E-WASTE_MANAGEMENT_IN_BRAZIL_Preliminary_results-Brazil2018_Questionnaire_5_Questions_in_5_Minutes).
      Um percentual bastante alto e que reflete, a princípio, dois importantes fatores. O primeiro é que o brasileiro percebe o risco da destinação inadequada de um resíduo com potencial perigoso e o outro fator é que a informação sobre as técnicas de destinação ainda não estão suficientemente difundidas.
      Por isso, a importância da sua questão quanto a sua experiência pessoal de manutenção do equipamento pós-consumo. Por outro lado, você também coloca a questão da obsolescência. Um aspecto que tem reduzido o tempo de vida útil dos eletroeletrônicos ao longo do tempo e, por outro lado, incentivado novos modelos de negócio como a manufatura reversa e o recondicionamento.

      Publicado em 8 de agosto de 2019 Responder

  • Re

    O lixo eletrônico é reciclado no Brasil? Em quais estados existe a coleta desses materiais?

    Publicado em 8 de agosto de 2019 Responder

    • Lúcia Xavier

      Re, sim.
      Há unidades de reciclagem no país, mas ainda não estão presentes de forma a viabilizar o tratamento de todo volume gerado no país e atendem demandas diferenciadas. Por exemplo, há empresas especializadas em plásticos, outras apenas em vidro ou metal. Poucas trabalham toda a cadeia de suprimentos no sentido de atender a logística e manufatura reversas.
      A coleta, de acordo com nossa pesquisa, tem acontecido já em todos os estados do país. Mas não para todas as categorias de resíduos. No manual que publicamos recentemente para o estado do Rio de Janeiro (https://cetem.gov.br/livros) indicamos sete categorias de resíduos, mas já entendemos que seriam oito, considerando painéis fotovoltaicos que já estão sendo descartados.
      Nesta publicação ainda verificamos que muitas empresas de São Paulo, por exemplo, atendem o estado do Rio e outros estados. Ou seja, há movimento entre os estados (inclusive entre Norte e Sudeste ou Sul) para o tratamento.Algumas categorias de resíduos estão sendo inclusive exportadas para processamento na Europa.

      Publicado em 8 de agosto de 2019 Responder

  • Re

    Já vi reportagens sobre a contaminação em bijuterias por cádmio. A China ou o Brasil utilizam lixo eletrônico para fazer bijuterias?

    Publicado em 8 de agosto de 2019 Responder

    • Lúcia Xavier

      Olá Re, novamente.
      Agradeço sua pergunta. Este é um assunto extremamente delicado e que já tivemos a oportunidade de discutir com outros órgãos governamentais.

      Empresas formais no Brasil não teriam como colocar no mercado tais produtos. No entanto, há uma preocupação a respeito de produtos importados legalmente (em razão dos procedimentos de amostragem que precisam ser revisitados) e, especialmente, os que entram de forma ilegal.
      De modo informal, digo que é o barato que sai caro. A contaminação do organismos por metais com potencial tóxico pode ter efeitos irreversíveis de médio e longo prazo.
      Desta forma, o consumidor deve desenvolver seu comportamento crítico na aquisição de produtos (não exclusivamente bijuterias) que possam ter procedência duvidosa.

      Publicado em 8 de agosto de 2019 Responder

  • Ricardo Athayde

    Não acha que deveriam existir grandes centros de coleta em todo o bairro, talvez com as Prefeituras cedendo espaço em muitas sedes como a Comlurb, e com a ajuda de trabalhadores informais que já trabalham com recolhimento (catadores de latinha, por exemplo), poderíamos criar uma rede de fácil acesso à todos de recolhimento e distribuição desses lixos eletrônicos? Seriam centros em que todos teriam acesso, qualquer cidadão poderia ir lá por conta própria e deixar seus excedentes eletrônicos, e os catadores poderiam negociar e receber nesse mesmo local, ou criarem uma “conta” em que ele acumularia e receberia no fim do mês. Não deveria haver uma integração maior que deveria começar nas prefeituras, talvez sendo gerido por algumas ONGs e “executado” pelos catadores como os de latinha?

    Publicado em 8 de agosto de 2019 Responder

  • Lúcia Xavier

    Prezado Ricardo,
    Penso que a descentralização da gestão é um fator de grande potencial. Países europeus investiram nesse modelo, especialmente para a gestão de resíduos eletrônicos, e foram extremamente felizes. No entanto, enfatizo que para àquele modelo foram alocados servidores de carreira, ou seja, sem a descontinuidade por razão de troca de governo.
    No sentido de qualificar catadores de materiais, a Universidade de São Paulo atuou de modo pioneiro e com grande sucesso na capacitação de catadores, em parceria com o Instituto GEA. Uma iniciativa que foi replicada ao longo de anos.
    A proposta que você acaba de estruturar encontra-se hoje em vigor em pouquíssimas prefeituras, com parcerias de ONGs em outros modelos e por iniciativa da própria cooperativa, como já verifiquei em São Paulo e Pernambuco.
    Concordo com seu ponto de vista sobre descentralizar e estabelecer parcerias locais. No entanto, há especificidades regionais ou locais que devem ser verificadas e respeitadas. Ou seja, um mesmo modelo pode ser ou não bem sucedido em municípios brasileiros. De toda forma, repito que o Acordo Setorial motivará o surgimento, amadurecimento e consolidação de vários modelos de negócio que venham a atender um propósito sustentável.
    Espero ter colaborado.

    Publicado em 8 de agosto de 2019 Responder

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