O educador francês Jean Hébrard

O educador francês Jean Hébrard, inspetor-geral do Ministério da Educação da França e pesquisador da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, não se esquece da primeira vez em que pisou em solo brasileiro. Em um dia nublado que acabou em chuva, Hébrard desembarcou em Belo Horizonte, que respirava a atmosfera da eleição presidencial de 1989, a primeira após o golpe militar. Naquela tarde, o candidato do PT, o ex-líder metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva, faria seu último comício na capital mineira antes do primeiro turno, que o levaria ao embate final com Fernando Collor de Mello.

Se a primeira impressão do Brasil já foi forte, a segunda marcou ainda mais, ao conhecer a histórica Ouro Preto. “Foi um deslumbramento só”, define. Após aquele contato, mergulhou de cabeça no Brasil. O primeiro passo foi aprender o português, mas não é de hoje que ele dispensa tradução simultânea nas conferências proferidas pelo Brasil afora. Em agosto passado, ele voltou a Belo Horizonte, para expor suas idéias sobre alfabetização a uma platéia de mais de 400 pessoas que participaram do projeto Ceale debate, promovido pelo Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale) da Universidade Federal de Minas Gerais.

Na oportunidade, Hébrard concedeu esta entrevista a Ciência Hoje , na qual critica os parâmetros curriculares brasileiros, que ajudou a elaborar durante o governo Fernando Henrique Cardoso, contrapondo-os aos franceses, que também têm o seu ‘dedo’. Defensor intransigente da escola em tempo integral como único meio de garantir alfabetização plena e rápida às crianças das camadas populares, ele sustenta que é preciso enfrentar o desafio de pôr em prática um plano de massificação de escolas, erguendo-as em cada bairro do país.

Dados do governo brasileiro revelam que mais da metade das crianças no Brasil chegam à 4ª série com graves dificuldades na leitura e escrita, sendo que 22% são consideradas analfabetas. Onde está o problema: na escola, no preparo dos professores ou na metodologia utilizada?
A questão da alfabetização não é só um problema de metodologia de ensino da leitura e escrita. Tem a ver também com a relação com as culturas do mundo escrito. As culturas do escrito são muito variadas, difíceis. Quando falamos delas, logo imaginamos a literatura, considerada a ‘escrita nobre’. Mas há outras escritas, como a administrativa. Quem não domina a escrita bancária ‐ e este é o meu caso ‐ pode perder dinheiro. Embora saiba ler, sou incapaz de lidar com dados bancários. Para entender esse universo, precisaria ser capacitado por uma pessoa que entendesse do assunto, que me explicasse como funciona um banco. O mesmo raciocínio vale para a literatura. Uma criança precisa de alguém ou de uma instituição que a apresente ao universo da literatura.

Quem poderia desempenhar esse papel?
A escola pública deve suprir esse papel, que, a princípio, seria da família. Os pais gastam um tempo importante para educar seus filhos, conversando com eles. Mas, em muitas famílias pobres, os filhos não têm com quem falar. Imagine uma criança que ouve 20 vezes a história do Chapeuzinho Vermelho. Assim que aprender a ler, ela irá reconhecê-la. Já a criança que nunca escutou essa história certamente fechará o livro e não terá interesse por ela. Antes de ler, é preciso conhecer. Ou seja, a leitura exige uma compreensão prévia do mundo da escrita. Quando eu era criança, meu avô me punha no colo e lia em voz alta. Aos quatro anos, já sabia muitas histórias de cor. Quando chegava alguém, ele me chamava: “Vem cá contar histórias”. E eu contava. Sem saber ler!

É por isso que o senhor defende que a escolarização das crianças deve começar o mais cedo possível?
No Brasil, ocorre um fenômeno curioso. As famílias que não precisam de escolarização precoce têm acesso a ela. Elas pagam creche, jardim e pré-escola para os filhos. A rigor, as crianças não precisam desse aparato, pois os pais oferecem todo o suporte cultural de que precisam. Muitas poderiam até entrar mais tarde na escola. Conheço meninos de classe média no Brasil que aprendem a ler aos cinco anos, sem nunca terem pisado em uma sala de aula. Aprenderam em casa, naturalmente. Já uma criança de família pobre só descobre a escola aos sete anos, o que é uma pena. Ela é que deveria passar mais tempo na escola, para ter acesso a uma cultura que não encontra em casa. É por isso que precisamos investir na pré-escolarização, dando às crianças pobres o que os ricos já recebem. Acho que o Brasil tem condições de dar esse salto. O grande desafio do país não é alfabetizar as crianças, mas prepará-las para a alfabetização. Na França, todas as crianças são escolarizadas aos três anos. Um terço delas, já aos dois anos. Escolarizadas na escola, diga-se, não na creche. Mesmo assim, temos dificuldades com crianças imigrantes, principalmente árabes e africanas, que não falam francês.

Mas existe a idéia de que a criança que entra na escola mais cedo se ‘cansa’ antes da hora…
Ninguém diz: “Coitada da criança rica que vai ao jardim de infância!”. Todo mundo acha lindo. Coitadas são as crianças pobres, de famílias analfabetas, que têm muito mais dificuldade para ser alfabetizadas. É preciso dar às crianças pobres o mesmo tratamento dispensado pelas famílias ricas a seus filhos. Ler livros para elas, contar histórias e outras coisas básicas.

Mas esse disparate entre famílias ricas e pobres não está associado à questão socioeconômica?
Isso não é só um problema de renda. A diferença cultural entre pobres e ricos no Brasil é impressionante. Só poderemos diminuir esse abismo aumentando o tempo de alfabetização.

Um dado do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) mostra que o nível de leitura de alunos da 8ª série de escolas privadas é superior ao de alunos do 3º ano do ensino médio de escolas públicas…
É verdade. Isso porque quem está na oitava série da rede privada tem, além da educação familiar, mais tempo de escola. Ao passo que há muitos filhos de analfabetos que completam sete anos sem qualquer contato com a leitura e a escrita. A deficiência está na ausência de pré-escola na vida dessas crianças.

Então a culpa é toda da escola? A falta de escolarização dos pais não interfere nesse processo?
O problema é a escola e não a escolarização dos pais. Estes só serão úteis na alfabetização dos filhos se tiverem bagagem escolar. É ingenuidade imaginar que o pai ou a mãe em processo de alfabetização ajudará o filho a se alfabetizar. Só pode ajudar a criança o adulto que tenha cursado, no mínimo, o ensino médio, quando já tem intimidade com a cultura escrita. Se os pais são apenas semi-alfabetizados, é quase certo que não terão sucesso na tarefa de ensinar o filho a ler e escrever.

A solução para a criança pobre, então, está na escola?
Sim. Só que não basta oferecer escola. É preciso que ela se apresente como um lugar natural da criança. Um menino de sete anos que entra em sala de aula e sai quatro horas depois não vive a escola. Esta, na verdade, se torna um lugar de passagem, um hotel, uma obrigação. Ao fim das aulas a criança volta à vida normal, junto da família, na rua… A escola em tempo integral deve fazer parte da vida dessas crianças, deve absorvê-las completamente. Uma reforma no sistema educacional do Brasil passa necessariamente pela escola integral. Quatro horas dentro de uma escola são uma miséria. Não vamos mudar nada só com capacitação de professores. Professores bem preparados não farão milagre se as crianças brasileiras continuarem entrando tarde na escola e ficarem pouco tempo em sala de aula.

O que uma boa escola deve oferecer?
A escola também deve ser espaço para práticas culturais e esportivas. Não pode simplesmente reproduzir um movimento mecânico de sai uma turma, entra outra… Ela deve ser aberta aos sábados e domingos. Cada escola deve ter uma boa biblioteca, onde as crianças possam ler histórias para depois contá-las, em voz alta, ao grupo. Os parâmetros curriculares franceses estabelecem que, ao fim de cada ano, o aluno deve ser capaz de contar 10 histórias. Depois de oito anos, ele conheceria, no mínimo, 80 histórias. Com oito anos de escola, o aluno já seria um intelectual! (risos)

Para que todas as crianças estudem em tempo integral, não seria preciso massificar a construção de prédios escolares?
Esse é outro desafio. O Brasil precisa construir prédios. Precisa pôr em prática um plano de massificação de escolas, erguê-las em cada bairro deste país. Feito isso, o Brasil terá lançado as bases para revolucionar a educação.

O senhor mencionou os parâmetros curriculares franceses. Tanto no Brasil quanto na França, o senhor ajudou a elaborá-los. Que diferenças há entre eles?
Os parâmetros curriculares da educação fundamental da França foram reformulados após a elaboração dos parâmetros brasileiros. Aprendi muito com a experiência, as discussões e os problemas do Brasil. Sob muitos aspectos, o parâmetro francês é semelhante ao brasileiro. Mas o Parâmetro Curricular Nacional (PCN) do Brasil tem um defeito: é muito complexo. Parece ter sido formulado para o pesquisador universitário e não para o professor da escola básica. Além de ser muito teórico, ele não diz como preparar uma aula nem dá ao professor indicações seguras sobre o que fazer.

O senhor certamente conhece bem a ‘escola pedagógica brasileira’, que projetou nomes como Paulo Freire. Que contribuições ela trouxe para a pedagogia?
De fato, o Brasil formou grandes educadores, como Anísio Teixeira e Lourenço Filho. E, claro, Paulo Freire. Desde a primeira república, o Brasil deixa a educação básica de lado para cuidar das elites, priorizando a universidade. Infelizmente, a educação básica nunca foi a prioridade das prioridades. Uma das pessoas que pensaram na educação básica como necessidade foi Paulo Freire, que se preocupou muito com a educação dos adultos. Ele achava que era preciso “salvar” os adultos, trazendo-os para o mundo letrado. Mas a grande herança que Paulo Freire deixou é o orgulho de ser educador. Seus textos despertam esse sentimento. Além, é claro, da defesa de uma educação que incluísse crianças, adultos, mulheres, negros ‐ uma educação universalizante, enfim. Hoje, a educação dispõe de muito mais ferramentas científicas do que na época de Paulo Freire. Precisamos reconquistar essa paixão e aliá-la a esse conhecimento. Mas antes é preciso dar melhores condições de trabalho aos professores. Como um professor no interior do Maranhão pode se sentir Paulo Freire com o mísero salário que recebe?

 

Entrevista concedida a
Flávio de Almeida e Sílvia Araújo
Universidade Federal de Minas Gerais

 

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