A primeira vez em que me deparei com as células HeLa (pronuncia-se Rila) foi há mais de 10 anos, por ocasião do meu mestrado em genética. O laboratório onde desenvolvi minhas pesquisas, sobre o papiloma vírus humano (HPV) e o carcinoma da laringe, utilizava as células HeLa como controle positivo para as reações moleculares de amplificação do genoma viral.

Naquela época, soube, tão somente, que HeLa se tratava de uma linhagem comercial de células provenientes de uma mulher que havia morrido, há muitos anos, de câncer de colo uterino.

Indiscutivelmente, as células HeLa foram extremamente úteis para a finalização do meu mestrado e para a ampliação dos conhecimentos científicos sobre o câncer da laringe; mas confesso que logo me esqueci daquela história bem curiosa, porém igualmente bizarra.

Capa 'A vida imortal de Henrietta Lacks'O episódio das células HeLa, então, ficou latente em meu cérebro lógico de pesquisador até o dia em que me deparei com o livro de Rebecca Skloot; isso me fez recordar o momento em que fui ‘apresentado’ à HeLa e, por isso, li A vida imortal de Henrietta Lacks com renovada curiosidade.

O livro de Skloot pretende narrar, em primeiro plano, a história da mulher por trás das células HeLa, iniciais do seu nome, Henrietta Lacks, mas, certamente, consegue atingir patamares mais ambiciosos.

Henrietta era uma mulher negra, diagnosticada com câncer de colo de útero, vivendo nos Estados Unidos dominados por brancos, em uma época marcada pela escassez de tratamentos oncológicos eficazes, situações características do início da década de 1950.

Avançando e retrocedendo no tempo, entre os anos de 1920 e 2009, com especial destaque para o hospital norte-americano Johns Hopkins, no meio do século passado, a narrativa ganha um deleitável dinamismo. E, ao se inserir na história da família Lacks como uma personagem autêntica e extremamente ativa, a autora atesta o roteiro com uma veracidade quase palpável.

Instigante entretenimento

Somente a biografia de Henrietta Lacks e o drama vivido por toda a sua família são suficientes para oferecer ao leitor comum um instigante entretenimento, com elementos hábeis para mantê-lo ligado ao livro, do prólogo ao posfácio.

Por outro lado, para o leitor cuja curiosidade gravita em torno do surgimento das células HeLa e a revolução que elas suscitaram no mundo científico, os dados levantados pela autora são consideráveis, desde a internação de Henrietta no Johns Hopkins com câncer de útero, passando pelo tratamento malsucedido e culminando na retirada de suas células tumorais, que originaram a linhagem HeLa, sem o seu consentimento prévio.

Mas, para esse leitor, em particular, devo advertir que A vida imortal de Henrietta Lacks não é um livro ‘de’ ciência, mas, ‘sobre’ ciência. Por isso, não se deve procurá-lo com a intenção de aprender ciência, mas, sobretudo, para entender como os conhecimentos e avanços científicos são edificados.

Não se deve procurar o livro com a intenção de aprender ciência, mas, sobretudo, para entender como os conhecimentos e avanços científicos são edificados

Apesar dos vários aspectos abordados, eles não são, nem de longe, o que o livro tem de melhor. As questões mais relevantes apresentadas no livro são de natureza ética e bioética.

Nesse contexto, a autora explora a relação médico-paciente; os métodos utilizados por pesquisadores na experimentação com seres humanos; o embate ciência versus religião; a intensa segregação racial vivida nos Estados Unidos, pontuando inclusive vários episódios hediondos de experimentação em negros; e o cenário de disputas judiciais envolvendo patentes que se arrastam por longos anos nos tribunais, resultando, por vezes, em ganho de causa para as poderosas empresas de biotecnologia.

Toda essa discussão provocada por Rebecca Skloot é bastante atual, pois, frequentemente, somos surpreendidos por descobertas científicas fundamentadas em experimentações envolvendo seres humanos.

O fato é que, bem ou mal, certo ou errado, as células HeLa iniciaram, há exatos 60 anos, uma revolução, sem precedentes, nas áreas das ciências da saúde, e até hoje têm sido utilizadas, com grande sucesso, em milhares de pesquisas de extrema relevância em todo o mundo.

A contribuição das células HeLa para o progresso da ciência já é digna de nota e destaque, mas, certamente, não vai parar por aí.


Márcio Cordeiro
Departamento de Medicina
Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-Goiás)

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